Perseguição de funcionária do governo dos EUA se volta contra a imprensa, os dirigentes políticos e o próprio Obama

Antonio Caño

Em Washington (EUA)

  • Steve Cannon/AP

    Shirley Sherrod, funcionária do governo dos EUA que foi demitida após ser acusada equivocadamente de racismo

    Shirley Sherrod, funcionária do governo dos EUA que foi demitida após ser acusada equivocadamente de racismo

Uma desconhecida funcionária do Departamento da Agricultura se transformou na protagonista de uma história apaixonante que concentrou a atenção do país durante toda a semana e que deveria ser lembrada eternamente como um exemplo dos danos que a temeridade do jornalismo, o oportunismo político e o revanchismo ideológico são capazes de infligir a uma sociedade. O caso, no qual só a própria vítima demonstrou um comportamento sensato e humano, constitui uma vergonha para toda a elite dirigente.

Tudo pareceu acabar quando o próprio Barack Obama se desculpou diante do país pelo prejuízo causado a Shirley Sherrod, do qual ele não é o único culpado, e sim um entre muitos. Na quinta-feira ele lhe telefonou para apresentar suas desculpas pessoalmente. "Isto aconteceu em parte porque vivemos em uma cultura de meios de comunicação, na qual alguma coisa aparece no YouTube ou em um blog e em seguida se arma uma grande confusão", disse o presidente em uma entrevista na televisão.

O nome de Sherrod, que é negra, foi mencionado pela primeira vez na mídia na segunda-feira passada, quando um site da web de extrema-direita, Breidbart.com, reproduziu uma frase dela incluída em um discurso que permitia pensar que no passado tivesse discriminado um agricultor por ser branco.

Em poucos minutos essa frase percorreu todos os sites da Internet e os canais de notícias das televisões, juntamente com comentários de seus analistas, que condenavam o comportamento intolerável de uma funcionária pública e exigiam sua demissão. Menos de 24 horas depois, um auxiliar do secretário da Agricultura, Tom Vilsack, ligou para Sherrod e pediu sua renúncia.

Ela tentou explicar que era tudo um engano, que suas palavras tinham sido distorcidas, mas ninguém se deu o trabalho de escutá-la. Somente depois, quando já estava demitida e a mídia havia consumido completamente a carcaça, Sherrod pôde distribuir uma cópia completa de seu discurso e demonstrar que seu comportamento não só não foi racista, como foi altamente generoso.

O famoso discurso tinha sido pronunciado em março na Geórgia, em uma reunião da NAACP - a principal organização civil negra -, e durou 45 minutos. Nele, Sherrod referiu-se a um caso ocorrido 24 anos atrás, quando trabalhava para uma ONG que ajuda agricultores modestos, no qual ela convenceu um fazendeiro branco que se encontrava nas mesmas circunstâncias dramáticas que muitos negros haviam enfrentado durante muito tempo. O trecho de dois minutos que a mídia reproduziu dava a impressão de que Sherrod tinha discriminado aquele homem, mas a verdade é que ela salvou seu negócio e sua vida. O próprio fazendeiro, diante do escândalo armado, se manifestou para lembrar que guarda eterna gratidão por Sherrod.

Mas nenhum dos que reproduziram o corte de vídeo manipulado ou dos que reagiram a seu conteúdo teve o cuidado de procurar antes o fazendeiro - nem os jornalistas nem o secretário da Agricultura. Ninguém se incomodou em escutar o discurso completo de Sherrod. Ninguém exigiu do site Breitbart.com as provas sobre a veracidade de sua denúncia. É claro que isso não teria acontecido se o denunciado tivesse sido Bill Gates, mas Sherrod era uma desconhecida que podia ser atacada sem risco.

Ninguém se permitiu sequer suspeitar da estranha coincidência de que o suposto vídeo racista de Sherrod tivesse aparecido depois de um fim de semana em que uma convenção da NAACP havia formulado queixas bem fundamentadas sobre o racismo dos integrantes do Tea Party, o novo movimento civil extremamente conservador.

"Eu cansei de dizer: 'Esperem um pouco, leiam o discurso inteiro'. Mas ninguém me escutou", disse Sherrod na quarta-feira, amarga e frustrada. Então o secretário da Agricultura já havia lhe pedido que se reintegrasse ao cargo, mas agora ela não está com vontade de aceitá-lo.

Fica evidente nesse caso a falácia de alguns atores da ação política cotidiana, a negligência de grande parte dos meios de comunicação - os jornais mais sérios não repercutiram a história e "The New York Times" publicou um editorial de condenação, mas a rede Fox a transformou em sua própria causa - e o pânico que alguns políticos sentem da crítica. Falta saber por completo qual é a responsabilidade do próprio Obama.

Ela existe, para começar, como superior direto de Vilsack. Mas pode haver mais. O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, afirmou que o presidente só foi informado sobre esse caso na terça-feira de manhã e que não pediu para se tomar medidas concretas contra Sherrod. Mesmo que assim fosse, é verdade que o primeiro presidente negro dos EUA, do mesmo modo que seus colaboradores, é refém do medo de aparecer diante da opinião pública como um defensor de sua raça.

"Se há uma lição para se aprender desse episódio", disse Obama ontem, "é a de não se precipitar em tirar conclusões ou apontar o dedo contra os outros. Eu comuniquei a minha equipe e aos departamentos do governo que é preciso se concentrar em fazer as coisas que é preciso fazer, e não as que pareçam politicamente convenientes a cada momento."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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