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Tragédia de Duisburg desconcerta autoridades alemãs

Juan Gómez

Berlim (Alemanha)

  • AP

    Mortes na Love Parade da Alemanha

    Mortes na Love Parade da Alemanha

As causas da catástrofe da Loveparade, o grande festival de música "techno" realizado em Duisburg, oeste da Alemanha, permanecem um mistério. As diferentes versões sobre a origem e as circunstâncias da correria que acabou no sábado com a vida de 19 pessoas, entre elas duas jovens espanholas, impedem que se forme uma ideia clara, e as autoridades até agora não conseguiram dar respostas. Em meio ao desconcerto, a chanceler alemã, Angela Merkel, declarou-se no domingo "consternada" pela tragédia e exigiu uma "investigação exaustiva" e que sejam tomadas medidas para que algo semelhante não volte a ocorrer. O Ministério Público alemão abriu uma investigação por homicídio imprudente. Segundo diversas testemunhas do desastre, o fechamento do único acesso ao recinto, uma antiga estação de trens em Duisburg, provocou o engarrafamento humano em um túnel de acesso, onde começou o empurra-empurra por razões ainda desconhecidas. O diretor-adjunto da polícia local, Detlef von Schmeling, afirmou por sua vez que "não há provas de que o acesso ao recinto tenha sido fechado". Schmeling afirmou em uma entrevista coletiva que todas as mortes ocorreram "fora do túnel" e disse não ter "a impressão de que tenha ocorrido um pânico em massa". Isso contradiz os depoimentos colhidos depois da tragédia, que falavam em cadáveres pisoteados e cenas de histeria coletiva. Segundo a polícia, a maioria das mortes se deveu a quedas de uma escada metálica pela qual as pessoas tentavam ter acesso ao evento. As explicações dos representantes policiais e municipais e da organização do evento, em uma entrevista conjunta, deixaram uma péssima impressão entre os vários jornalistas participantes. Se algo ficou medianamente claro é que a trágica edição de sábado foi a última Loveparade, segundo anunciaram seus organizadores. O demais é contraditório. Para começar, a própria contagem de frequentadores. Segundo a organização, havia mais de um milhão de pessoas no recinto quando ocorreu a tragédia. Mas, segundo explicou Schmeling no domingo, os trens da Deutsche Bahn só registraram 105 mil viajantes para Duisburg entre as 9 e as 14 horas de sábado. A polícia afirmou que o recinto do festival tem capacidade para 350 mil pessoas, "e não se encheu em nenhum momento", o que foi corroborado pelas fotos aéreas. As perguntas dos repórteres foram subindo de tom conforme as respostas tentavam se esquivar. Por que fechá-lo, então? Para surpresa de todos, e em atitude defensiva, Schmeling respondeu que só foi fechado em momentos isolados. Os depoimentos, cada vez mais abundantes, indicam o contrário. O jornal "Süddeutsche Zeitung", por exemplo, divulgou no domingo na Internet uma entrevista com uma participante que afirmou que a citada escada "era o único lugar pelo qual as pessoas podiam escapar" da aglomeração; que o túnel "era o único acesso" ao recinto, que já "estava bastante cheio"; e que "a polícia formou um cordão para impedir que as pessoas passassem". A testemunha fala da aglomeração asfixiante na rampa de saída do túnel. Houve um empurrão para a escada lateral de emergência. "Muitos se feriram gravemente tentando tirar a cerca dessa escada; quando alguns chegaram aos degraus, ficaram ali em vez de subir para o festival, deixando os demais passar." A testemunha conta que os frequentadores que conseguiram sair da aglomeração subindo pelas laterais "se limitavam a filmar e fotografar" os de baixo. Assim, bloqueavam a escapatória dos demais, enquanto a situação no gargalo de saída do túnel se agravava em alguns momentos. Como demonstrou a longa entrevista coletiva no domingo, tanto as autoridades quanto a organização do evento estão entre a espada e a parede. O recinto do festival tem 120 mil m2. Centenas de milhares de visitantes deveriam passar pelo túnel para chegar a uma rampa pela qual se subia ao festival. Nessa rampa encontravam-se o único acesso e a única saída. Por mais larga que fosse (entre 16 e 20 metros, segundo diferentes fontes), obrigar dezenas de milhares de pessoas - muitas delas embriagadas ou drogadas - a passar por um túnel acabou por transformá-lo em uma ratoeira. Parece evidente que, por mais que os responsáveis insistissem no domingo em falar na escada de emergência, houve graves erros de organização. O Ministério Público apreendeu no domingo todos os documentos municipais relativos à Loveparade deste ano. Também levou o arquivo da empresa organizadora, Lopavent. Na entrevista de domingo, o porta-voz da Lopavent, Björn Köllen, remeteu os jornalistas à investigação em curso pelo Ministério Público. Por enquanto, sua investigação por homicídio imprudente é dirigida contra um "autor desconhecido". O chefe do sindicato da polícia alemã, Rainer Wendt, que é originário de Duisburg, disse no domingo que "há um ano" tinha advertido os organizadores sobre as deficiências do município para realizar um semelhante festival.

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