Síria e Arábia Saudita se mobilizam para evitar mais uma guerra no Líbano

Ana Carbajosa
Em Jerusalém (Israel)

  • Joseph Barrak/AFP

    Milhares de pessoas lembram o aniversário da morte de Rafiq Hariri, em Beirute

    Milhares de pessoas lembram o aniversário da morte de Rafiq Hariri, em Beirute

Uma amostra de união árabe sem precedentes no Oriente Médio se materializou na sexta-feira (30) em Beirute. Tratava-se de evitar uma nova crise interna no Líbano, onde os vazamentos sobre a decisão do Tribunal Internacional da ONU que investiga o assassinato em fevereiro de 2005 do primeiro-ministro Rafiq Hariri ameaçam dinamitar uma estabilidade costurada com alfinetes.

A magnitude do desafio propiciou a frente comum de dois companheiros de viagem pouco habituais: a Síria, aliada do Hezbollah, o grande partido-milícia xiita que o Irã apoia, e a Arábia Saudita, país guardião das essências sunitas e parceiro do primeiro-ministro libanês, que conta com o apoio americano.

O presidente sírio, Bashar Al Assad, e o rei saudita, Abdallah bin Abdelaziz, viajaram juntos para Beirute para tentar acalmar os ânimos libaneses incendiados. A visita, de apenas seis horas, foi qualificada de "excelente" pelas autoridades libanesas, que temem, como o resto da região, a erupção de novos confrontos armados no Líbano dividido.

"Os líderes salientaram a importância da estabilidade, o compromisso de não recorrer à violência e de situar o país acima dos interesses sectários", indicou em um comunicado o gabinete do presidente libanês, Michel Suleiman, ao fim dessa visita preventiva. Além do encontro com Suleiman, o rei saudita visitou a residência do primeiro-ministro Saad Hariri, filho de Rafiq, onde se reuniu com membros de seu partido, enquanto Al Assad se encontrava com membros do Hezbollah no governo.

O Tribunal Internacional implementado pela ONU, que investiga a morte do primeiro-ministro Rafiq Hariri em 2005, ainda não se pronunciou sobre a autoria do assassinato. Mas supostos vazamentos e uma avalanche de rumores bastaram para provocar um nervosismo político que os analistas temem que possa desembocar em uma nova crise intersectária e em um ciclo de violência como o de 2008, que deixou as ruas libanesas cheias de cadáveres.

Os rumores responsabilizam o Hezbollah pela morte do primeiro-ministro sunita, e desculpam Damasco, até há pouco o suspeito habitual no crime que provocou a retirada síria do Líbano depois de quase 30 anos de tutela político-militar.

A televisão israelense identificou na última quinta-feira à noite com nome e sobrenome um dos supostos culpados. Segundo os israelenses, tratar-se-ia de um primo e cunhado de Imad Mugniyeh, chefe militar do Hezbollah, assassinado há dois anos e meio em um atentado com carro-bomba em Damasco, pelo qual Israel se felicitou sem confirmar nem desmentir a autoria.

Hassan Nasrallah, líder máximo do Hezbollah, prepara o terreno há semanas diante de uma possível decisão judicial. Nasrallah dedicou sua última aparição televisiva há pouco mais de uma semana a questionar a legitimidade do Tribunal Internacional com sede em Haia, que considera parte de um complô israelense, e a afirmar que não pretende acatar as decisões que emanem dessa instituição.

"Fui informado pessoalmente pelo primeiro-ministro Hariri antes de sua viagem a Washington [em maio passado] de que o tribunal acusará alguns membros indisciplinados [do Hezbollah]", declarou Nasrallah. E acrescentou: "Enquanto a investigação não contemplar a possibilidade de um envolvimento israelense, a consideraremos tendenciosa".

Saad Hariri pediu calma no último sábado, depois das declarações de Nasrallah. "Há alguns que temem e inclusive esperam que o caso do assassinato [de seu pai] provoque uma crise libanesa ou uma luta entre confissões religiosas", disse Hariri durante uma conferência com os membros de seu partido. "Estão ocorrendo tentativas de organizar campanhas para semear confusão e medo entre os libaneses. Nós pedimos calma."

O envolvimento de membros do Hezbollah na morte de Rafiq Hariri representaria para o Líbano, além disso, um dilema político de difícil solução. O partido xiita, dotado de uma milícia que é considerada mais poderosa que o exército nacional, é um componente essencial do governo de união libanês liderado por Saad Hariri, firme defensor dos trabalhos do Tribunal Internacional. Os observadores temem que a ruptura do Executivo seja acompanhada de novos choques entre sunitas e xiitas e de uma possível extensão do conflito nacional, por contágio, a toda a região.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos