O livro eletrônico transforma o mercado editoral dos EUA

Sandro Pozzi

Nova York (EUA)

  • Divulgação

    Kindle, um dos dispositivos de leitura digital

    Kindle, um dos dispositivos de leitura digital

Quer queira quer não, o avanço do livro eletrônico está mudando a uma velocidade estonteante o mercado editorial nos Estados Unidos. E além disso vem com força suficiente para deixar de joelhos a rede de livrarias Barnes & Noble. Em vista da queda brusca de rendimentos por causa da explosão de vendas através dos dispositivos eletrônicos, os gestores do setor consideram se colocar em mãos mais capazes para lidar com o desafio. O da Barnes & Noble, com 720 estabelecimentos por todo o país, acaba de se transformar no exemplo mais claro de como a internet e os dispositivos digitais como o Kindle, da Amazon, e o iPad, da Apple, estão minguando o negócio tradicional no suporte impresso, aquele que se pode tocar. Até Andrew Wylie, um dos agentes mais importantes do mundo literário, conhecido como “o chacal”, entende que o futuro é digital.

A declaração de Wylie caiu como uma bomba nas casas editoriais. Mas era só uma antecipação do que está por vir. Para entender como a Barnes & Nobles chegou a esta situação, basta observar dois números muitos simples. O primeiro, que não bastaram nem três anos para que a Amazon vendesse mais livros eletrônicos do que de capa dura. O segundo se refere ao valor da Barnes & Noble na bolsa quando esses dispositivos não existiam.

Há uma década, a rede de livrarias, presente em todas as cidades grandes e pequenas dos EUA, estava avaliada em cerca de US$ 2,2 bilhões. Na terça-feira, antes de divulgar o anúncio inesperado no fechamento de Wall Street, mantinha-se a duras penas nos US$ 700 milhões. Leonard Riggio, seu fundador, disse que a opção pela venda é para dar valor aos investidores. E no momento, conseguiu.

Só a ideia de que a Barnes & Noble vai mudar de mãos disparou seus títulos em 25%, o que em termos financeiros se traduz no fato de que agora a companhia vale cerca de US$ 1 bilhão. Mas este respiro de um dia não será suficiente para que ela possa sobreviver num mercado em plena transformação, onde o investimento na nova tecnologia digital é a chave para a sobrevivência.

A rede de livrarias, que vende cerca de 300 milhões de livros por ano, lançou no verão passado seu próprio leitor eletrônico, o Nook, para tirar vantagem desse mercado em ebulição. Mas chegou muito tarde, com um dispositivo que não convence. Além disso, as vendas de livros em papel estão se transferindo para grandes redes comerciais de desconto como o Wal-Mart, Target e Costco.

Apesar disso, seus gestores acreditam que a marca conta “com uma vantagem competitiva única” e que está bem posicionada para ter sucesso. Entretanto, não oferecem detalhes dessa correção de rumo. Uma das possibilidades é que seja transferida para as mãos de um grupo de investidores. Nesse caso, não se sabe ainda qual será o papel do fundador, que hoje controla 29,9% do capital. Mas a pressão dos investidores é alta. Diante de Leonard Riggio está Ronald Burkle, que controla 19%. O acionista pede uma mudança radical na equipe administrativa, e uma maior participação no capital. Uma batalha interna que claramente cria dificuldades adicionais para que a companhia possa se adaptar à nova realidade que se descortina no mercado.

Há três anos, com sua centenas de milhões em vendas, a Barnes & Noble era uma força capaz de impor o que os norte-americanos liam. Bastou uma simples conexão com a internet para que as regras do jogo mudassem. A Amazon aproveitou essa janela com sua mega loja eletrônica e isso explica que a marca valha hoje US$ 55 bilhões, 15 vezes mais do que há uma década. 

A Borders, a segunda rede de livrarias dos EUA, passa por uma situação ainda mais delicada, até o ponto de que desde o ano passado se especula que ela poderia declarar a suspensão de pagamentos. No começo deste ano também se lançou no mercado do livro eletrônico para limitar os prejuízos. O Google também quer dar sua mordida no mercado, com sua própria livraria digital.

Tradutor: Eloise De Vylder

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