Fidel retorna "totalmente recuperado" e evita falar de política interna

Mauricio Vicent

Havana (Cuba)

  • AP

    Fidel Castro fez a sua primeira aparição fora de Havana desde 2006

    Fidel Castro fez a sua primeira aparição fora de Havana desde 2006

Quatro anos depois de seu último discurso público, Fidel Castro voltou ao Parlamento cubano. Um verdadeiro símbolo. Ele o fez vestido com uma jaqueta verde-oliva, cercado pelo alto escalão do governo e ao lado de seu irmão, o presidente Raúl Castro, e depois de se declarar "totalmente recuperado" da grave doença que o obrigou a ceder seus cargos no governo em 31 de julho de 2006.

Castro, que completará 84 anos no próximo dia 13, estava há um mês em constantes aparições públicas, e diante da Assembleia Nacional fez o papel de grande oráculo: disparando alto, afirmou que o mundo está à beira de uma guerra nuclear devido à agressividade do "império" contra o Irã; desmentiu sua recente previsão de que a hecatombe ocorreria neste verão mesmo - "ainda há esperanças de nos salvarmos", disse - e indicou Barack Obama como único responsável pelo que possa acontecer.

Nenhuma palavra sobre a situação interna de Cuba. Foi uma hora e meia de Fidel Castro em estado puro.
A iniciativa de convocar uma "sessão extraordinária" do Parlamento deveu-se ao próprio ex-presidente, que continua sendo deputado e primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba. O tema do debate foi o que ele mesmo pôs na agenda desde que adoeceu e começou sua reabilitação, a saber: a proximidade do Apocalipse se a humanidade continuar destruindo o meio ambiente e o mundo se deixar levar pela "política guerreirista" dos EUA.

Especificamente, esta reunião era para "refletir" sobre a possibilidade de uma guerra nuclear no Oriente Médio e invocar publicamente a sabedoria do presidente americano, cuja origem mestiça - "descendente de negro e branco, de maometano e cristão", opinou Castro - pode torná-lo sensível aos apelos internacionais.

Assim que começou, uma deputada lhe perguntou: "Obama será capaz de dar a ordem de uma guerra nuclear para esconder o fracasso do imperialismo?" A resposta de Castro, depois de um longo silêncio, foi: "Não, se o convencermos". À frase lacônica seguiu-se uma prolongada ovação. Depois, outro parlamentar lhe perguntou se Obama seria capaz de convencer Israel a diminuir as tensões. "Não", respondeu ainda mais breve, e outra ovação. Essa foi a tônica geral da reunião, cujo principal objetivo não foi outro senão escutar Castro, homenageá-lo e cumprimentá-lo por sua recuperação depois de quatro anos de ausência e às vésperas de seu 84º aniversário.

Como se esperava, nenhuma palavra de política interna, nem sobre as reformas que Raúl Castro anunciou na última sessão "ordinária" do Parlamento, em 1º de agosto. Também não houve comentários sobre o atual processo de libertação de um grupo de 52 presos políticos, consequência de um acordo com a Igreja Católica.

Se em Cuba os símbolos são importantes, e o são, várias coisas ficaram claras: Fidel Castro usava verde-oliva, é verdade, mas não portava seus galões de "comandante-em-chefe". Também se demonstrou que Fidel tem sua própria "agenda internacional", e que nela, junto com os conhecidos assuntos apocalípticos, estarão sempre os EUA, e que sua condição natural é ser o flagelo do "imperialismo".

Em intervenções recentes, o líder comunista deixou entrever que uma de suas futuras tarefas será liderar a luta para conseguir a volta à ilha de cinco agentes cubanos condenados há 12 anos nos EUA por infiltrar-se nos grupos anticastristas violentos e espionar a favor de Cuba. Castro tocou nesse tema na reunião no Parlamento, em um momento em que se fala de possíveis conversações secretas para administrar uma troca dos cinco agentes por um cidadão americano detido na ilha há meses, acusado por Havana de distribuir computadores e telefones celulares entre membros da oposição. O ex-mandatário chegou a dizer recentemente que os presos cubanos poderiam ser libertados pelos EUA antes do fim do ano.

O regresso de Fidel Castro ao Parlamento, quatro anos depois de ceder todos os seus cargos, é o arremate de um mês de intensa atividade. Sua primeira reaparição pública foi em 7 de julho, quando visitou o Centro Nacional de Pesquisas Científicas. Nesse dia abandonou o abrigo esportivo que usou desde o início de sua doença, substituindo-o por uma camisa xadrez. Aquela aparição, divulgada dias depois, teve um efeito midiático considerável e foi um primeiro teste. Para muitos, não foi por acaso a coincidência com a reunião realizada nesse mesmo dia em Havana entre Raúl Castro, o cardeal Jaime Ortega e o chanceler espanhol, Miguel Ángel Moratinos. Depois desse encontro o governo anunciou sua decisão de libertar 52 presos políticos e permitir sua saída da ilha em um prazo de quatro meses.

Alguns interpretaram a reaparição de Fidel como uma medida de apoio a Raúl; outros a viram como um sinal de contradições na cúpula do poder, enquanto a maioria dos cubanos simplesmente observou que o comandante estava revigorado e lúcido; depreendia-se disso um "impulso de regresso", segundo um analista veterano.

Nos dias seguintes ele não parou. Visitou o Centro de Estudos da Economia Mundial, onde expôs sua tese de que a explosão da guerra nuclear era iminente, reapareceu em um programa de televisão para abordar o mesmo tema; encontrou-se com intelectuais, jovens comunistas, uma centena de embaixadores cubanos na sede da chancelaria... e assim até que, às vésperas da comemoração do último aniversário do assalto ao quartel Moncada, vestiu a camisa verde-oliva, a de suas "mil batalhas", como se apressou a lembrar a imprensa oficial.

No sábado, porém, ficou evidente que a distribuição de papéis está muito definida. Raúl, com camisa "guayabera" branca, acompanhou seu irmão ao Parlamento, mas não interferiu em seu discurso. Do mesmo modo que Fidel não apareceu na reunião em que Raúl anunciou a redução do papel do Estado como empregador e a ampliação do trabalho autônomo, além de maiores margens de lucro para a iniciativa privada e a autorização para contratar mão-de-obra assalariada. Reformas de cujo sucesso ou fracasso, segundo todos os analistas, depende o futuro da revolução.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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