Medidas xenofóbicas dividem a França

Ana Teruel

Em Paris (França)

  • Geert Vanden Wijngaert/AP

    Nicolas Sarkozy melhora nas pesquisas eleitoras com discurso de expulsão de ciganos e plano para tirar a nacionalidade de criminosos de origem estrangeira

    Nicolas Sarkozy melhora nas pesquisas eleitoras com discurso de expulsão de ciganos e plano para tirar a nacionalidade de criminosos de origem estrangeira

O governo francês preparava sua ofensiva desde a derrota do partido presidencial nas eleições regionais de março. A cada três semanas, o presidente Nicolas Sarkozy organiza reuniões no Eliseu para preparar a campanha de 2012. No final de julho, o Executivo pôs a máquina em ação, ao anunciar uma série de medidas destinadas a combater a criminalidade. Em Grenoble, o mandatário não hesitou em misturar os temas de segurança urbana e imigração, duas temáticas muito populares entre o eleitorado de extrema-direita. A ofensiva provocou indignação de intelectuais, da oposição e de associações, mas as primeiras pesquisas apontam uma recuperação da popularidade do presidente.

Na sexta-feira, vários membros do partido no governo tiveram de se defender das últimas críticas, articuladas desta vez por uma agência da ONU. "Creio que esse comitê se equivoca", declarou nas ondas da RTL Dominique Paillé, porta-voz adjunto da União por um Movimento Popular (UMP), o partido governista. O político referia-se ao Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial, que esta semana analisou a situação da França. Os 18 especialistas do grupo só entregarão as conclusões de seu relatório no final deste mês, mas durante os debates foram especialmente duros com as últimas iniciativas governamentais.

Concretamente, no centro das críticas do comitê se encontrava a política do governo para a comunidade cigana, em particular os cerca de 15 mil de origem estrangeira. Foi anunciada pelo ministro do Interior, Brice Hortefeux, em 28 de julho passado, depois de uma reunião realizada no Eliseu, em resposta aos distúrbios registrados em Saint-Aignan depois da morte de um jovem cigano nas mãos da polícia. Hortefeux prometeu então desmantelar os cerca de 300 assentamentos ilegais de ciganos em três meses, a maioria habitados por romenos e búlgaros, e a expulsão "quase imediata" de todos os que tiverem cometido algum crime. Esta semana o próprio Hortefuex, que multiplica as intervenções públicas neste mês de agosto, anunciava que já tinham sido desalojados 40 desses assentamentos.

Dois dias depois, o presidente Sarkozy anunciava em Grenoble, palco de outros distúrbios no mesmo fim de semana que o de Saint-Aignan e também em consequência da morte de um jovem por um tiro da polícia, outra bateria de medidas, entre as quais sua intenção de modificar a lei para poder retirar a cidadania dos franceses nacionalizados que atentem contra algum representante da autoridade pública. O projeto, denunciado como anticonstitucional pelas associações de direitos humanos, por diferenciar entre vários tipos de franceses, será em princípio debatido em setembro na Assembleia Nacional. Os primeiros dados indicam que o governo conta com o apoio da população.

Segundo uma pesquisa publicada pelo jornal conservador "Le Figaro", 79% dos pesquisados se declaram a favor do desmantelamento dos povoados de ciganos. Entre o eleitorado de direita, a porcentagem dispara para 94%. Mais de 70% mostram-se favoráveis à retirada da nacionalidade de certo tipo de criminosos. Em outra pesquisa, desta vez publicada pelo jornal comunista "L'Humanité", 62% consideram necessários os desmantelamentos e 57% estão de acordo com as medidas relativas à cidadania. Quanto ao índice de popularidade do presidente, sobe pela primeira vez em meses, recuperando 2 pontos e situando-se em 34%, segundo uma pesquisa do jornal "Le Parisien".

A revista "Marianne", muito crítica ao presidente Sarkozy, publica esta semana outra pesquisa em que salienta que sete em cada dez franceses consideram ineficazes as medidas destinadas a combater a insegurança aplicadas nos últimos oito anos. Quer dizer, desde que Sarkozy ocupou o cargo de ministro do Interior, entre 2002 e 2007. A primeira-secretária do Partido Socialista, Martine Aubry, limitou-se por enquanto a denunciar a tendência "antirrepublicana" do governo, embora membros do partido afirmem que se expressará com mais detalhes sobre o projeto de retirada da nacionalidade quando recomeçar o semestre político.

Mais duras foram as palavras do ex-primeiro-ministro socialista, Michel Rocard, que qualificou a atitude eleitoralista do governo, "em busca do voto do partido [de extrema direita] Frente Nacional", de "execrável e escandalosa". À espera de comprovar se essas medidas representaram o ponto de inflexão esperado pelo governo na reconquista da opinião pública, por enquanto o Executivo conseguiu deixar em segundo plano o que se prenunciava como a novela do verão, o escândalo político-financeiro conhecido como caso Bettencourt, que salpicava em cheio o titular do Trabalho, Eric Woerth. O ministro, que em setembro terá de defender a grande reforma do sistema de aposentadorias do governo, foi interrogado apenas alguns dias antes do discurso de Grenoble pelos agentes da polícia financeira no âmbito da investigação em torno da fortuna da herdeira da l’Oréal, Liliane Bettencourt, devido a um possível conflito de interesses.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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