A crise econômica impulsiona a cooperação militar europeia

Andrea Rizzi

Em Madri (Espanha)

  • Martin Meissner/AP

    Países da União Europeia enfrentam cortes nos orçamentos e buscam alternativas para compartilhar infraestrutura

    Países da União Europeia enfrentam cortes nos orçamentos e buscam alternativas para compartilhar infraestrutura

A Defesa Comum Europeia surgiu politicamente em 1998, quando Tony Blaier retirou o tradicional veto britânico ao projeto numa cúpula com Jacques Chirac. Depois de 12 anos, entretanto, a cooperação militar europeia continua em estado embrionário, paralisada por um emaranhado de interesses políticos e nacionais. Paradoxalmente, a crise econômica parece ser capaz de dar o impulso à integração militar europeia que a política não conseguiu. Os cortes em tempos de vacas magras obrigam os países a buscarem a sinergia e a compartilharem recursos e infraestrutura.

A onda de austeridade na Europa afetará duramente a defesa. A Alemanha define estas semanas uma tesourada de 10 bilhões de euros nos gastos militares em quatro anos, e cogita também a eliminação do recrutamento obrigatório. A França quer economizar 3,5 bilhões até 2013. O Reino Unido deve concretizar uma redução que o governo diz que será dolorosa e que analistas do setor dizem que ficará por volta de 10% do orçamento. A tônica é a mesma em todo o continente: a defesa é uma opção de corte socialmente menos explosiva que as outras áreas.

Obrigados a fechar a torneira, os principais governos europeus começam a explorar novas formas de cooperação para maximizar os recursos e manter intacta a capacidade de ação de suas forças armadas. A França e a Alemanha acabam de constituir um grupo de trabalho para “estudar quais recursos compartilhar para economizar e conseguir economizar nos orçamentos”, segundo declarou em julho o ministro francês da Defesa, Hervé Morin. Paris e Londres também formaram outra comissão bilateral. Depois de anos de estancamento substancial, algo parece se mover. “As reticências não desapareceram de repente, mas acredito que esta situação tornará possível concretizar avanços a médio prazo, em questão de alguns anos”, opinou Nick Witney, ex-direitor da Agência Europeia de Defesa, numa conversa por telefone.

A ideia de fundo que move os governos é evitar gastar dinheiro em dobro em infraestrutura e equipamento. Os Executivos continuam como sempre ansiosos em manter total controle sobre todos os recursos que vão para a primeira linha de frente. Ainda assim, na retaguarda há muita margem para cooperar.

“A consideração geral é que, quando mais próximo da linha de frente, mais as coisas se complicam. Eu, por exemplo, sou cético quanto à formação de unidades multinacionais”, sintetiza Witney. “Entretanto, existem áreas nas quais é politicamente aceitável aumentar a cooperação, por exemplo no setor da pesquisa e do desenvolvimento ou na infraestrutura de defesa”, prossegue o analista. “Não há nenhum motivo para que cada país deva ter sua própria estrutura para a manutenção e reparação dos mesmos aparatos. O mesmo vale para o setor de testes e avaliação de armas, munições, explosivos, túneis de vento para a construção de aviões ou de água para barcos.”

Algumas relações bilaterais podem chegar mais longe. “Entre a França e a Inglaterra, por exemplo, há uma margem mais ampla de coordenação”, diz Witney. “A ala direita dos conservadores no poder em Londres continua muito cética sobre a política de defesa da UE, e prefere canalizar tudo na Otan. Entretanto, até eles são a favor de estreitar a cooperação com a frança, país que consideram disposto a pagar e combater.”

O próprio Morin enfatizou a intenção de delinear um plano comum franco-britânico para conseguir uma nova frota de aviões-tanque para reabastecer em voo. O exemplo define bem o perímetro do possível. Se compartilhar aviões de combate é impensável, é possível compartilhar infraestruturas, centros de desenvolvimento, manutenção e treinamento e até aparatos de transporte.

“Vários estudos demonstram que é possível conseguir economizar através da cooperação. Algumas tentativas deram resultado no passado, mas o progresso foi bem mais lento”, observa Elisabeth Sköns, diretora do departamento de Gasto Militar do Instituto Internacional de Estudos para a Paz em Estocolmo. “A lentidão se deve sobretudo à proteção das bases industriais e tecnológicas militares nacionais e às divergências nas políticas de defesa. Esses problemas permanecem, mas são menos significativos agora por causa da harmonização no seio da UE”, diz Sköns.

A sorte orçamentária está lançada e a Europa terá que decidir se quer otimizar seus recursos militares. França, Inglaterra, Alemanha, Itália e Espanha – as cinco principais potências europeias, cujo PIB conjunto é um pouco inferior ao norte-americano – investiram 165 bilhões de euros em gastos militares em 2009, um número que corresponde a um terço do gasto dos EUA. O investimento chinês cresceu 217% na última década. O da Índia, 67%. As cinco grandes nações europeias ficaram numa média de 10%.
 

Tradutor: Eloise De Vylder

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