Lula reivindica legado africano ampliando relações do Brasil com o continente

Carlos G. Cano

Em Madri (Espanha)

  • Alan Marques/Folhapress

    Lula diferencia política brasileira da chinesa na<br>hora de ampliar presença no continente africano

    Lula diferencia política brasileira da chinesa na<br>hora de ampliar presença no continente africano

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, visitou mais países africanos que todos os seus antecessores juntos. Mas não atravessou o Atlântico sozinho. Empresas como a Petrobras, a construtora Odebrecht ou a mineradora Vale aprovaram sua política. Esta semana, Bradesco, Banco do Brasil e o banco português Espírito Santo anunciaram a formação de um consórcio financeiro para apoiar os investimentos na África. Uma notícia que deixou Lula "feliz" - segundo reconheceu o próprio.

"A África representa 6,6% das importações e 5,7% das exportações brasileiras", indica Julimar da Silva, professor de economia na Universidade Autônoma de Madri. Mas "é um mercado importante, sobretudo por seu grande potencial de crescimento".

O passado colonial une o Brasil e a África. Mais da metade da população brasileira tem origem africana, em consequência do tráfico de escravos. E Lula, segundo Oladiran Bello, do grupo de pensadores Fride, sabe como aproveitar isso para "conectar-se emocionalmente", coisa que não está "ao alcance da Europa nem da China". Segundo Bello, a aproximação brasileira da África pode se situar a meio caminho entre a política de interesses europeia e o desembarque "sem perguntas" que a China pratica.

A política externa de Lula, em todo caso, baseia-se no multilateralismo, e sua aspiração mais visível é que o Brasil acabe sendo membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Mas a aposta em redefinir o papel internacional do Brasil levou Lula a discordar do Ocidente em questões delicadas, às vezes entrando no terreno dos direitos humanos.

Lula visitou há um mês a Guiné Equatorial, país que Teodoro Obiang governa há mais de 30 anos, acumulando denúncias de corrupção e violações dos direitos humanos. Ali, Lula fez referência ao apoio de Brasília diante da Comunidade de Países de Língua Portuguesa e ao comércio bilateral, que passou de US$ 7 milhões em 2002 para US$ 411 milhões em 2008. Mas a parte incômoda de seu discurso pecou pela timidez: "O Brasil acredita que a verdadeira democracia deve se basear na riqueza e, sobretudo, na justiça social".

Pedro Krupenski, diretor executivo da Anistia Internacional em Portugal, reconhece que é "surpreendente que o governo Lula subordine os direitos humanos a seus interesses econômicos. O vice-ministro brasileiro para a África e Oriente Médio, Piragibe Tarragô diz que não entende por que se critica o Brasil, e não outros países. Os principais parceiros comerciais de Malabo são na verdade EUA, China e Espanha.

Lyal White, do Instituto Gordon de Ciência Econômica, indica que a África do Sul enfrenta com frequência os mesmos dilemas e acredita que o Brasil, diferentemente da China, está sendo "muito cuidadoso". Mas é difícil "não seguir as mesmas regras que seus concorrentes", diz. Um dos projetos mais reivindicados por Lula é a produção de biocombustíveis. Em julho, diante de um fórum de empresários sul-africanos, o presidente brasileiro afirmou que "nos próximos 15 anos" a agricultura africana viverá "uma revolução, especialmente na savana, que se parece muito com o cerrado brasileiro, o lugar que produz mais grãos por hectare do mundo". Lula aposta na produção de etanol procedente da cana-de-açúcar - que pode ser misturada com a gasolina - para exportar combustível "como a Arábia Saudita".

A Universidade de Redenção, que receberá cinco mil estudantes - a metade deles africanos - para formá-los e depois aplicar o que foi aprendido em seus países de origem, também enche Lula de orgulho, além de um projeto para produzir medicamentos genéricos contra a Aids em Moçambique. A menos de dois meses das eleições, Lula já escreveu o capítulo africano de seu testamento político. Na cúpula que reuniu o Brasil com a comunidade de países da África Ocidental, em fevereiro, Lula sentenciou que "o próximo presidente do Brasil está política e moralmente obrigado a fazer muito mais".
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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