WikiLeaks se refugia na Suécia para resistir às pressões dos EUA

Em Madri (Espanha)

  • Reuters

    Portal WikiLeaks sofre pressão internacional após divulgar milhares de documentos secretos sobre a guerra do Afeganistão

    Portal WikiLeaks sofre pressão internacional após divulgar milhares de documentos secretos sobre a guerra do Afeganistão

Sob pressão nos EUA e questionado por algumas ONGs depois da publicação de dezenas de milhares de documentos secretos sobre a guerra do Afeganistão, o portal WikiLeaks encontrou abrigo na Suécia. O Partido Pirata, fundado em 2006 e que pede a liberalização das leis de direitos autorais e a redução da vigilância na Internet, receberá vários servidores (computadores) da organização, segundo anunciou na quarta-feira a formação política do país nórdico.

"A contribuição do WikiLeaks é tremendamente importante para todo o mundo", disse Rick Falkvinge, líder do partido. "Desejamos contribuir com qualquer esforço que aumente a transparência e que ajude a fazer os poderosos prestarem contas", afirmou o político sueco, que acertou a colaboração com o WikiLeaks em uma reunião que teve em Estocolmo com o fundador do portal, Julian Assange.

O Partido Pirata proporcionará banda larga e alojamentos para os servidores do WikiLeaks. Se o partido político ganhar algum lugar no Parlamento sueco nas eleições legislativas previstas para 19 de setembro, seus servidores, incluindo os que abrigam o WikiLeaks, contarão também com a imunidade parlamentar. O grupo sueco afirmou que o apoio ao portal faz parte de sua "missão política".

O Partido Pirata, que se apresentou em 2006 nas eleições gerais da Suécia, ganhando apenas 1% dos votos, multiplicou por sete seu resultado nas eleições europeias de junho de 2009: 7,1% dos votos, o que lhe permitiu ganhar um dos 18 lugares que a Suécia ocupa no Parlamento Europeu, principalmente graças ao apoio dos jovens.

"Damos as boas-vindas à ajuda proporcionada pelo Partido Pirata. Nossas organizações compartilham muitos valores e, se olharmos para o futuro, poderemos nos ajudar mutuamente a melhorar o mundo", disse Assange. O porta-voz da organização também expressou seu desejo de que o novo Parlamento sueco que sairá das eleições "considere seriamente" fortalecer ainda mais a legislação de proteção à imprensa no país.
Depois o fundador do WikiLeaks, uma figura tão enigmática quanto a organização, não esqueceu de lembrar que as democracias ocidentais "nem sempre são tão livres quanto se poderia pensar".

A colaboração do partido sueco reanimou a organização de Assange, que está na corda-bamba desde que publicou no final de julho papéis que relatam erros cometidos no conflito afegão de 2004 até 2009. Há apenas uma semana, cinco ONGs - entre elas a Anistia Internacional, que em 2009 premiou o WikiLeaks por revelar informes sobre chacinas no Quênia - instaram o portal a apagar dos papéis do Afeganistão os nomes dos afegãos que colaboram com as forças internacionais no país e que poderiam ser vítimas de represálias. O Pentágono também pediu à organização que retire os documentos de sua página na web.

Até o momento, a resposta do WikiLeaks sempre foi negativa. Assange limitou-se a pedir aos que defendem a retirada dos documentos que colaborem na tarefa de identificar os nomes das pessoas que poderiam ser afetadas. "Estou muito ocupado e não tenho tempo de lidar com os que preferem não fazer nada enquanto protegem suas costas", disse Assange em resposta às críticas das ONGs. Enquanto isso, ele anunciou a iminente publicação de outros 15 mil arquivos classificados secretos sobre a guerra do Afeganistão, pertencentes ao mesmo pacote dos 77 mil que divulgou em julho.

O WikiLeaks pediu ajuda ao Pentágono para analisar os documentos e evitar a publicação dos que podem prejudicar pessoas inocentes, segundo explicou o próprio Assange. E na quarta-feira a agência de notícias France Presse, citando declarações de uma responsável pelo portal, afirmou que o exército americano aceitou colaborar. "Disseram que estão prontos para abrir um diálogo", declarou Kristinn Hrafnsson. O desmentido do Pentágono foi publicado pouco depois pela mesma agência. "Não estamos interessados em negociações para chegar a uma versão asséptica de documentos secretos", disse à imprensa Bryan Whitman, porta-voz do Departamento de Defesa americano. Ele reiterou, por sua vez, o que vem sendo pedido por Washington desde a publicação dos documentos, que "põem em risco a vida dos militares e dos afegãos": que o WikiLeaks "devolva os documentos, os retire da Internet e não publique mais nenhum".
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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