EUA no Iraque: sete anos e cinco meses de decisões catastróficas

F. Peregil / J. M. Muñoz

Em Madri (Espanha)

  • Peter Andrews/Reuters

    Iraquianos derrubam estátua de Saddam Hussein<br> em Karbala, com a ajuda de soldados da coalizão

    Iraquianos derrubam estátua de Saddam Hussein<br> em Karbala, com a ajuda de soldados da coalizão

Assim que entraram em Bagdá, os fuzileiros navais amarraram a ponta de uma corda à estátua de Saddam Hussein na Praça do Paraíso e a outra extremidade a um tanque. Esse fato tão simples quanto simbólico foi um dos primeiros na série de decisões que causaram efeitos catastróficos no Iraque a partir daquele 9 de abril de 2003.

Um soldado americano não pensou em outra coisa senão em cobrir a face da estátua com a bandeira americana. Aquilo não agradou na praça. Em uma cidade de 5 milhões de habitantes, só havia uns cem residentes na praça. Estavam felizes, iam dar pontapés e cuspir na imagem do ditador, mas nem a eles agradou esse alarde de patriotismo americano. Pouco depois outro soldado retirou a bandeira.

"É muito bom que Saddam tenha partido. Agora, que partam os americanos", comentavam muitos moradores da capital iraquiana. Os fuzileiros demoraram meia hora para derrubar a estátua e sete anos e cinco meses para abandonar o país. Os erros, muitos e variados, se sucederam nesse período.

Para começar, permitiram que o caos tomasse conta de Bagdá. Durante três dias os palácios de Saddam foram saqueados. Os carros de luxo, as poltronas, as camas, abajures, talheres... tudo passou diante do olhar indulgente dos soldados americanos, que talvez dessa forma pretendessem conquistar o apreço da população. Mas ao saque dos palácios seguiram-se os dos postos de gasolina, das grandes lojas, do Teatro Nacional, dos hospitais, das universidades e do Museu Arqueológico, que abrigava peças de mais de 3.000 anos de antiguidade...
No entanto, o Ministério da Energia, onde era guardado tudo o que se relacionasse às jazidas de petróleo, encontrava-se bem protegido desde o primeiro momento pelos fuzileiros navais.

De repente o Estado desapareceu. Foi também dissolvido o grande partido do regime, o Baath. Precisamente o atual primeiro-ministro, Nuri al Maliki, passou a dirigir o comitê de "desbaathificação". A Guarda Republicana, as forças de elite de Saddam, foi desarticulada. As ruas ficaram nas mãos dos mais violentos. As pessoas procuravam o tenente-coronel Jim Chartier para lhe pedir ordem e tudo o que isso implica: alimentos, eletricidade, telefone, água, segurança. O tenente-coronel dizia que em alguns dias tudo voltaria à normalidade.

Missão impossível, uma vez que o Estado estava desmantelado. Sobretudo porque muitas medidas aprovadas por Paul Bremer, encarregado da Autoridade Provisória da Coalizão - uma espécie de governo de transição antes da transmissão formal, embora limitada, da soberania para um Executivo iraquiano em junho de 2004 -, revelaram-se quase delirantes. Aprovar uma lei para a proteção de desenhos de microchips não parecia uma prioridade para os iraquianos.

Em 1º de maio de 2003, o presidente George W. Bush declarou o fim das operações militares. Mas elas continuaram por vários anos. E o pior ainda estava por vir. Em 14 de dezembro, pouco depois do meio-dia, começaram a se ouvir tiros para o ar em Bagdá. Três horas depois era anunciada a captura na véspera de Saddam Hussein. A enorme alegria demonstrada por xiitas e curdos se chocava com a tristeza de muitos iraquianos, pelo menos na capital do país e nas áreas de população sunita, no centro do Iraque.

Saddam tinha sido detido no dia 13 em um casebre a poucos quilômetros ao sul de Tikrit, sua cidade natal. Um exemplar do romance "Crime e Castigo", de Fiodor Dostoievski, estava sobre um catre no covil em que ele dormia. Quando o ditador escutava o ruído de veículos militares ou recebia o aviso de seus protetores, escondia-se em um buraco sob a terra de 1,50 metro de largura por 80 cm de altura. Um pequeno ventilador lhe permitia respirar.

Então, com o ex-ditador nas mãos dos militares americanos, adotou-se outra decisão que não caiu bem para muitos iraquianos: divulgar o exame médico de Saddam Hussein. O doutor examinava a dentadura do ditador, de barba longa e despenteado. Poucos dias antes, o ministro da Justiça iraquiano apresentava o tribunal que julgaria Saddam. Manteve-se em vigor a pena de morte e se rejeitou a formação de um tribunal internacional. Ele foi enforcado em 30 de dezembro de 2006. O vídeo de sua execução também foi publicado.

Em maio de 2004 também foram divulgadas as fotos das torturas sofridas por prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghraib, outro golpe devastador para a imagem das tropas ocupantes. Em 2006, depois da explosão de uma importante mesquita xiita na cidade de Samarra, se desencadeou uma crua guerra civil entre xiitas e sunitas. Durante alguns anos a descoberta de cadáveres assassinados pelos métodos mais selvagens - vários ocidentais já tinham sido degolados por seguidores da Al Qaeda - deixou de ser notícia.

E as armas de destruição em massa que o regime de Saddam Hussein supostamente possuía, o principal argumento empregado pelo governo Bush para iniciar a guerra, jamais apareceram.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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