EUA retiram do Iraque a última brigada de combate

David Alandete

Em Washington (EUA)

  • Reuters

    EUA encerram campanha militar e mantém cerca de 50 mil soldados no Iraque até 2012 para treinamento

    EUA encerram campanha militar e mantém cerca de 50 mil soldados no Iraque até 2012 para treinamento

Sete anos, cinco meses e 4.419 soldados mortos depois, a 4ª Brigada de Blindados Stryker, da 2ª Divisão de Infantaria do Exército dos EUA, atravessou ordenadamente a fronteira, saindo do Iraque e entrando no Kuait na madrugada de quinta-feira. Abandonava assim o país a última brigada norte-americana de combate que participou da guerra do Iraque. Desse modo, acabava formalmente a segunda Guerra do Golfo, declarada pelos EUA em março de 2003, sobre a qual George W. Bush clamou vitória 40 dias depois, mas cujo final ainda demoraria 87 meses, com um custo para o Pentágono de US$ 784 bilhões.

Essa brigada, que já regressou à sua base no estado de Washington, preparava-se havia meses para a desmobilização, concentrada em sua última operação bélica: retirar-se através de 500 km de deserto, em território hostil, o que fez sem incidentes. Ao sair, tinha perdido 34 de seus 4.000 membros no Iraque. Foi um dos destacamentos que chegou ao país durante o rearmamento e reforço de 20 mil soldados ordenado por Bush e orquestrado pelo general David Petraeus em 2007, operação que o Pentágono considera que facilitou a possibilidade de concluir a retirada este mês. Entre outras operações, esses soldados travaram combate em Bagdá e na província de Diyala, um ninho de rebeldes.

Restam agora no Iraque 56 mil soldados. Deles, 6.000 que não estão destinados a operações de combate partirão na próxima semana. Em setembro ficará no Iraque o restante, seis brigadas e um destacamento de 4.500 soldados da divisão de operações especiais, que só se retirarão no ano que vem, pois o presidente Barack Obama ordenou que permanecessem no Iraque em uma missão batizada de Operação Novo Amanhecer, para trabalhos de apoio à missão diplomática americana e de treinamento das forças de segurança iraquianas.

Também se encarregarão do espaço aéreo até que as forças armadas iraquianas possam assumir essa missão. Segundo um acordo entre Washington e Bagdá, nenhum soldado americano poderá ficar no Iraque depois de 31 de dezembro de 2011. Ao tomar posse em 2009, Obama reafirmou uma de suas promessas eleitorais: acabar com a guerra no Iraque. A data escolhida foi 31 de agosto. Em 18 meses, 90 mil soldados voltaram para casa.

Em seu auge, houve 176 mil militares americanos naquele país. Muitos dos que hoje abandonam o Iraque, assim como a equipe bélica que já não é necessária naquela frente, serão encaminhados para o Afeganistão, onde o presidente ordenou um rearmamento para enfrentar a insurgência orquestrada pela Al Qaeda e os talebans. Em janeiro de 2009, havia 33 mil soldados americanos no Afeganistão. No final deste mês, haverá 96 mil.

A guerra do Iraque se transformou em um testamento político para o ex-presidente Bush, que encontrou uma forte oposição tanto na comunidade internacional como na opinião pública americana. Hoje, segundo a última pesquisa a respeito da consultoria Gallup, 54% dos americanos continuam pensando que foi um erro mandar tropas para o Iraque. O ponto máximo de rejeição foi nos últimos meses da presidência Bush. Em abril de 2008 havia 63% de americanos que criticavam a invasão. Números semelhantes não foram vistos nas estimativas de opinião de outra guerra que continua aberta, a do Afeganistão.

A guerra do Iraque custou aos contribuintes americanos US$ 784 bilhões, segundo números do Pentágono. É o segundo conflito mais caro da história bélica americana, depois da Segunda Guerra Mundial, que custou US$ 4,1 trilhões. Supera a guerra do Vietnã em US$ 46 bilhões. Depois do fim das operações bélicas, Washington deverá continuar pagando indenizações aos veteranos de guerra. Cerca de 450 mil - número que inclui os que voltaram do Afeganistão - já pediram pensões por invalidez.

A saída dos EUA não significa que o Iraque esteja pacificado. A violência contra civis diminuiu notavelmente desde os dias de seus índices mais altos, em 2006 e 2007. Mas continua havendo tensão interna: étnica, entre a maioria árabe e a minoria curda, e religiosa, entre a maioria xiita e a minoria sunita, à qual pertencia o ditador deposto Saddam Hussein.

Cinco meses depois das últimas eleições gerais, o país continua sem um acordo político que permita formar um governo estável. A insurgência radical islâmica continua forte - julho foi o mês mais sangrento nos últimos dois anos - em diversos pontos do país. Na última terça-feira um terrorista suicida matou 60 recrutas e soldados iraquianos em Bagdá, em um dos atentados mais graves dos últimos meses. Aos 665 mil soldados iraquianos caberá agora evitar e reagir a ataques como esse.

O próprio exército iraquiano não vê com muita clareza suas possibilidades. Na semana passada, seu chefe militar, o tenente-general Babakir Zebari, afirmou em uma reunião do alto comando que será uma tarefa muito difícil defender o governo e os civis depois da retirada americana. Disse que Bagdá só poderia enfrentar tarefa semelhante daqui a uma década. A Casa Branca não respondeu a esse pedido.

Formalmente, a retirada começou há pouco mais de um ano, em 30 de junho de 2009, quando os batalhões americanos abandonaram os principais núcleos urbanos e cederam o posto ao exército e à Polícia Nacional iraquianos. Os soldados dos EUA iniciaram então os trabalhos que assumirão exclusivamente a partir de setembro: treinamento e supervisão. Em janeiro de 2009, Bagdá e Washington assinaram um acordo bilateral em termos de segurança segundo o qual o Pentágono renunciou à possibilidade de realizar operações de combate em solitário e sem a autorização e assistência do governo legítimo do país. A partir de agora, esse peso corresponde sem exceções e exclusivamente às tropas iraquianas.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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