Uma gota da África mais pobre no Caribe

Javier Ayuso
Em Porto Príncipe (Haiti)

Alheios a tudo e a todos, milhares de haitianos comemoram em Saut d'Eau, a cerca de 60 km ao norte de Porto Príncipe, "o compromisso". O ritual meio católico, meio vodu, que os faz entrar em transe e esquecer sua miséria por alguns dias. É que, embora esteja na América, o Haiti é a África. Compartilha com esse continente as raízes, a cor, os costumes e sobretudo a pobreza. Sete meses depois do terremoto, o país continua em ruínas. Não só os edifícios e as estradas, mas também as pessoas. Em meio aos escombros a ser recolhidos, 1,3 milhão de haitianos vivem embaixo de plásticos em 1.384 campos de desalojados (900 deles na capital), esperando o momento de voltar para suas casas. Um momento que já demora meses, enquanto US$ 5,3 bilhões dos principais doadores internacionais esperam que haja um governo decidido a atuar, com um projeto e sem corrupção.

O Haiti já era um buraco negro antes do terremoto que matou mais de 200 mil pessoas, e se não fossem as centenas de ONGs que trabalham ali desde 12 de janeiro a vida teria se acabado para os 9,5 milhões de habitantes do país caribenho. Os haitianos estão acostumados há séculos a cair e levantar-se, mas a tarde em que a terra da ilha tremeu marca um antes e um depois para o país mais pobre da América. Os mais otimistas pensam que as ajudas internacionais poderão servir para despertá-lo de séculos de miséria e reinventar-se a si mesmo. Mas a realidade é que os haitianos não acreditam em milagres, embora temam a Deus e aos "loas".

Pier Janis tem 37 anos, seis dedos em cada mão e um olhar perdido, como de bruxa. É "santeira" e diz que fala com Deus, enquanto fuma sem parar. Está há quatro dias em Saut d'Eau atendendo a centenas de fiéis que se aproximam dela para que os ponha em contato com Deus e com os "loas" (santos do vodu). Por uma pequena quantia em dinheiro, ajuda-os a se comunicar com o além, em uma pequena caverna cheia de velas acesas junto às duas cataratas de 30 metros de altura.

"Aqui encontrei há muitos anos o poder dos loas", ela explica em uma mistura de francês e crioulo. "Meus pais tinham os mesmos poderes e os transmitiram para mim. Os fiéis vêm para que os ajudemos a encontrar o caminho. O bem e o mal convivem juntos e é preciso afastar os espíritos do mal para encontrar o bom caminho. Eu os ajudo."

Por que aconteceu o terremoto no Haiti?
A resposta demora alguns segundos, algumas baforadas no cigarro, para sair de sua boca. "Havia muita gente fazendo o mal e não se rezava o suficiente." Depois da sentença, estende a mão em busca de algumas moeda.

A festa continua junto às duas enormes cachoeiras e outras três ou quatro menores. Centenas de pessoas se amontoam seminuas em busca de purificação. Lavam-se com folhas de manjericão e sabonetes que vendem na entrada, e cantam. Há muito mais mulheres que homens. Ao ruído da água, soma-se um estrondo de cigarras que também querem participar da festa.

O dia transcorre entre rezas, choros e velas acesas. Em uma esquina, outra santeira mais velha que Pier Janis chora diante de uma fiel que foi consultá-la. "Aleluia. Eu o amo, Deus", grita com estridência enquanto põe as mãos nos ombros da mulher, que olha para o céu entre lágrimas enormes. Ninguém se abala quando começa a chover torrencialmente. Parece que faz parte do ritual.

Aos poucos, os fiéis vão abandonando as cataratas e descem para o povoado, onde um tumulto de milhares de pessoas continua a festa. Os crentes misturam-se com grupos de jovens que vêm como a um carnaval. A rua principal está cheia de pequenas barracas de comida onde as mulheres cozinham arroz, feijão, pés de porco, carne assada e pedaços de banana frita. As garrafas de rum correm de boca em boca.

Um grupo de mulheres vestidas com roupas azuis-claras e brancas avançam, cantando em crioulo. Todas usam o mesmo escapulário da Virgem dos Milagres. Uma delas explica que veio do norte da ilha para rezar. Admite ser católica, mas não faz nenhuma restrição ao vodu. "As duas coisas são parecidas", diz, enquanto avança para uma grande árvore onde se reúne muita gente. Ali no meio, Pier Janis dança vestida de amarelo ao ritmo africano dos bongôs e das maracas. Ao seu redor, homens e mulheres, jovens e velhos, movem-se no mesmo ritmo.

É o momento do sacrifício. Vários homens trazem duas vacas e duas cabras para que a santeira escolha o animal que deve ser sacrificado ao deus Erzuli. A cadência vai se acelerando e Pier Janis dá voltas cada vez mais rápidas, com os olhos fechados. Está como que em transe quando se aproxima dos quatro animais; ela os toca, os rodeia e finalmente se apoia, meio desmaiada, sobre a cabeça e o pescoço de uma das vacas. É a eleita.

Enquanto Pier Janis continua com suas danças rituais junto a um círculo de fiéis, um homem degola a vaca e um jorro de sangue salpica o grupo, provocando o êxtase geral. Os cantos e as danças africanas tornam-se então mais frenéticos ainda e homens e mulheres entram em transe, enquanto corre o rum haitiano. A festa continuará até a madrugada nesse pequeno povoado onde nem se sentiu o terremoto em 12 de janeiro, nem querem lembrar-se dele.

Voltando a Porto Príncipe, o visitante encontra um panorama desolador. Dos 9,5 milhões de habitantes do Haiti, mais de 4,5 milhões vivem na capital. E destes cerca de 1 milhão perderam seus lares e se refugiam nos 900 campos que se estendem por toda a cidade. Em terrenos, praças, jardins, campos de golfe e até no canteiro de uma avenida, na entrada da cidade, encontram-se dezenas de milhares de barracas cobertas de plástico azul, preto ou cinza, doado pelas organizações internacionais.

Acampamento para 50 mil almas
O maior campo de desalojados é o Aviation Camp, situado junto ao perigoso bairro de Cité Soleil, no antigo aeroporto militar que o exército americano montou nos anos 1920 e depois se transformou em um parque. Ali sobrevivem mais de 50 mil habitantes. O doutor Kobel Dubique, um haitiano de 30 anos, se instalou ali um dia depois do terremoto para atender à enxurrada de famílias que foram para esse enorme parque.

"Este é o campo mais povoado de Porto Príncipe e também o mais esquecido e desprotegido", explica, enquanto avança entre as tendas abarrotadas de gente. "Para cá vieram famílias dos bairros mais pobres da cidade como Cité Soleil, Pont Rouge ou La Saline, e não contamos com segurança ou ajuda humanitária. Além disso, os bandos de jovens atuam à vontade e em muitas noites há brigas e até tiroteios. Roubam de tudo, até os chuveiros que a Cruz Vermelha britânica instalou e que foram arrancados para vender os metais."

Quando anoitece, os olhares tornam-se mais agressivos e os personagens, mais preocupantes. Passear com o médico é uma garantia; os bandos o respeitam porque há meses dá consolo aos mais pobres. Ao fundo, vê-se algum movimento. São garotas prostituindo-se para ganhar dinheiro e manter seus filhos. A promiscuidade nos campos é muito grande e há cada vez mais casos de violência sexual, enquanto aumentam os infectados pelo HIV.

O doutor Kobel estudou medicina em Cuba e tinha voltado ao Haiti alguns meses antes do terremoto. É muito querido pelas famílias de Aviation Camp, onde dá consultas todas as manhãs para centenas de mulheres e crianças. "Ainda não tivemos nenhuma epidemia", explica, "mas as condições sanitárias são péssimas e com a chegada das chuvas começamos a ter casos de malária. Se não fizerem alguma coisa logo, isto poderá ser um desastre."

"Aqui as pessoas estão começando a se cansar de que não solucionem as coisas", adverte Dubique. "Pode haver revoltas a qualquer momento, porque os haitianos sabem que há muito dinheiro esperando para planos de reconstrução que nunca chegam." O governo de René Preval está sendo muito contestado e todo mundo espera as próximas eleições de novembro.

Enquanto isso, o ambiente é cada vez mais hostil. Os 8 mil soldados internacionais mobilizados no país conseguem impor a ordem, mas em alguns bairros, como Cité Soleil, nem a polícia local entra. Nesse bairro a vida transcorre na rua, junto com toneladas de lixo que são arrastadas pela água das áreas altas da cidade.

Os componentes de um bando observam os visitantes com uma mistura de agressividade e espanto, mas no final se deixam fotografar diante de uma casa destruída no meio de um bairro no qual os escombros não são muito diferentes das barracas onde vivem as famílias. Aqui moram cerca de 400 mil pessoas, e é considerada uma das favelas mais perigosas do mundo, pela violência que gera a extrema pobreza. Há mais de 30 bandos armados que impõem sua lei nas ruas. Em 12 de janeiro à noite, muitos dos 3 mil presos que escaparam da prisão de Porto Príncipe foram se refugiar em Cité Soleil. Centenas deles foram detidos nas semanas seguintes, mas dezenas continuam vivendo no bairro.

No meio desse ambiente hostil, soam as rezas de mulheres e meninas em um templo evangélico. Ao entrar, pode-se relaxar e deixar de olhar para os lados para ver se alguém está olhando feio. A igreja está meio demolida, mas não entra a água que cai lá fora porque puseram no teto enormes plásticos da Usaid. O pastor convida os visitantes a entrar e segue com seu rito cristão, perguntando aos gritos para os fiéis, em crioulo, para que estes respondam em coro "amém". Ali se respira um pouco de esperança, pelo menos durante alguns minutos.

Os haitianos parecem querer esquecer suas penas o quanto antes, embora continuem enterrados em seus pesares e sua miséria. "O luto durou três meses", explica o pastor, "depois começaram a voltar à vida, pouco a pouco. As ruas voltam a estar abarrotadas e todos queremos voltar à normalidade o quanto antes." Algo realmente difícil, porque nem os mais otimistas acreditam que os acampamentos poderão começar a ser desmanchados antes de 18 meses.

Viver em um campo de golfe
Os campos de desalojados são muito diferentes uns dos outros. Dos mais de 900 que há em Porto Príncipe, só um terço é administrado por alguma das centenas de ONGs que trabalham no país. Os demais se organizam como podem. Entre todos existe um emblemático, situado no campo de golfe do bairro mais rico da cidade, Petionville, e que abriga cerca de 50 mil pessoas. É provavelmente o melhor organizado, embora nas primeiras semanas já fosse um autêntico caos devido à avalanche de gente que foi se refugiar lá.

Agora é administrado pela ONG J/P Haitian Relief Organization, liderada pelo ator de origem irlandesa Sean Penn e que conseguiu captar milhões de dólares em Hollywood. Ali colaboram outras organizações, como Oxfam, Médicos Sem Fronteiras ou Salvem as Crianças. O responsável pelo campo é um britânico de 45 anos, Alastair Lamb, que um dia serviu no exército e depois trabalhou na City de Londres.

"Este campo é uma autêntica cidade de quase 50 mil habitantes", explica Alastair. "Nas últimas semanas, prevendo uma nova catástrofe com a chegada das chuvas, tivemos de fazer canalizações com valetas e sacos de terra, porque temíamos que todas as barracas fossem ser arrastadas pela enxurrada que pode descer da montanha. Tivemos de evacuar cerca de 5 mil pessoas para outro campo para abrir caminho entre as tendas. Agora parece que poderemos passar a temporada de chuvas."

Os haitianos tentam recuperar a normalidade nesse campo. Nas ruas que se formaram entre os barracos com teto de plástico, foram abertos vários mercados de comida, roupas, sapatos... e até um centro telefônico. Ali, pode-se encontrar carne de frango, ovos, alface, frutas de todo tipo, enlatados, garrafas, arroz, massas, feijão e sacos de carvão para poder cozinhar em fogareiros colocados no chão enlameado. Ontem choveu muito e, embora as canalizações tenham aguentado bem, anda-se pisando em barro.

Dentro de uma barraca, Altani, uma menina de seus 10 anos, está ardendo em febre. Sua mãe, María Altagracia, 36 anos, diz que o médico a viu de manhã e que parece ter malária. Nesse barraco de 2 por 2 metros, vivem a mulher com seus seis filhos e o marido, que agora foi até o centro para ver se encontra trabalho. "Vivíamos no centro, em uma casa alugada que se partiu pela metade", diz María. "Tivemos sorte de sair todos vivos, e chegamos a esse acampamento em 13 de janeiro. Desde então sobrevivemos aqui. No início nos davam comida, mas desde abril temos de ganhar a vida. Meu marido consegue alguns dias de trabalho e traz algum dinheiro para comprar comida." Em um braseiro duplo, a mãe cozinha em duas panelas arroz e feijão.

Como María, todos os deslocados do Haiti deixaram de receber alimentos em abril. O governo e as organizações internacionais decidiram que era o momento de fechar a distribuição de comida para evitar uma dependência excessiva e incentivar as pessoas a voltar para suas casas. Mas o resultado não foi o desejado. As famílias continuam em suas barracas, porque o governo não começou a reconstruir a cidade, que continua cheia de escombros.

A reconstrução não é uma tarefa fácil, porque no Haiti não há cadastro nem registros confiáveis. Por isso o governo e as organizações internacionais avançam muito devagar. Em junho, foi lançado um plano para catalogar as casas de Porto Príncipe, que dividiram em três: as vermelhas, que ficaram totalmente destruídas; as amarelas, que suportaram mas que é preciso consertar, e as verdes, que estão habitáveis.

A ideia é que todos os desalojados que viviam em casas verdes voltem para seus lares o quanto antes. Mas surge o problema adicional de que muitos deles eram alugados e os moradores não podem mais pagar as mensalidades. Além disso, os proprietários aproveitaram para aumentar os aluguéis.

Com medo no corpo
A vida dos acampamentos transcorre com uma mistura de medo e desespero. O haitiano está acostumado a sair de vez em quando de situações difíceis, mas agora está no limite. Os tetos de plástico não vão aguentar os temporais e os ventos de furacão que chegarão logo. Já em julho, com a chegada de uma pequena tempestade tropical, o vento fez voar os tetos de 300 moradias improvisadas no bairro de Corail.

No bairro de Carrefour Feuilles, ergue-se o campo de Tapis Rouge, onde a seção espanhola da Médicos Sem Fronteiras (MSF) administra um pequeno hospital no qual atende os mais de 10 mil deslocados desse campo. As condições são especialmente ruins porque as tendas estão montadas na ladeira íngreme de um dos morros que beiram Porto Príncipe. Os habitantes do campo sabem que correm perigo, mas não têm outro lugar aonde ir nem forças para pensar em mover-se.

Dorielan tem 34 anos e perdeu sete familiares no terremoto: um irmão, dois sobrinhos e quatro sobrinhas. Vive em Tapis Rouge com seu marido e três filhos, e não espera mais nada da vida. "Chegamos aqui em 15 de janeiro, depois de vagar três dias pela cidade destruída e chorar nossos mortos", explica entre lágrimas. "Pouco a pouco, fomos nos instalando nesta tenda e meu marido, que é pedreiro, consegue trabalho em alguns dias. Dizem que temos de voltar para nossa casa, mas está destruída e não nos deixam reconstruí-la porque o dono quer esperar que façam uma nova e alugá-la mais caro. Aqui temos um teto e não falta comida, mas sabemos que a qualquer momento a água ou o vento podem nos carregar."

Selena, de 28 anos, também não tem possibilidade de voltar para sua casa, que ficou totalmente destruída em 12 de janeiro. Vive com sua irmã, três filhos e dois sobrinhos. "Nenhuma das duas temos marido, nos abandonaram faz tempo", diz Selena, "mas ganhamos a vida como podemos. Antes vivíamos da venda ambulante de roupas, mas quando nossa casa caiu levamos a roupa para um armazém, que foi saqueado poucos dias depois. Estamos tentando comprar roupa de novo para vender, com a ajuda de um irmão que vive no campo."

A poucos quilômetros de acampamento, no bairro de Carrefour, há um hospital montado em uma antiga escola e administrado pela divisão holandesa da MSF. Conta com duas salas de cirurgia e muito bom equipamento (tem até raio X), mas as camas ficam em enormes tendas de campanha, porque os doentes preferem estas aos edifícios. Ao fundo está o pavilhão de reabilitação e ortopedia, onde ainda há dezenas de pacientes que ficaram seriamente feridos durante o terremoto.

Elisabeth Toussaint tem 43 anos, é viúva e viu quando um edifício desmoronou em cima dela enquanto passeava pela rua. "Fiquei semienterrada durante mais de meia hora, até que alguns vizinhos conseguiram levantar alguns escombros e me puxaram para a rua", explica com lágrimas nos olhos. "Ali fiquei um dia e uma noite inteiros sem que ninguém soubesse aonde me levar. Afinal me trouxeram para cá em 13 de janeiro e tiveram de amputar minha perna direita." Elisabeth tem duas filhas, de 20 e 11 anos. A mais velha está com ela no hospital, atendendo-a, e a menor vive com uma irmã. "Antes trabalhava como chefe de limpeza de uma empresa", diz, "mas quando sair daqui não sei nem para onde irei nem de quê vou viver."

O terremoto deixou centenas de milhares de feridos, a maioria com fraturas muito perigosas. As equipes de emergência das principais ONGs tiveram de se empenhar para salvar vidas, e em apenas 15 dias efetuaram mais de 4 mil amputações, gerando-se um grande alvoroço em um país em que os deficientes são estigmatizados. Pensam que foram castigados pelos "loas".

Nahomie também passa os dias sentada em uma cadeira de rodas. Tem 21 anos e o tremor atirou uma parede de sua casa sobre ela. Os vizinhos conseguiram tirá-la de baixo dos escombros depois de várias horas, e ela tinha uma fratura exposta na perna. Teve de permanecer cinco dias no que restava de sua casa em Leogane, onde se registrou o epicentro do terremoto, um povoado a duas horas de Porto Príncipe, até que sua mãe conseguiu um transporte para o hospital, onde está há mais de seis meses. Ela foi operada três vezes e já começou a reabilitação, mas a perna não reage e ela pensa que não conseguirá voltar a andar. Sua família vive em um campo de desalojados próximo, e sua mãe a visita todos os dias. O pai é pintor, mas agora não há paredes para pintar. "Quero sarar logo e estudar medicina", diz Nahomie, sem muito entusiasmo.

Do outro lado da cidade, perto do aeroporto, a MSF montou outro hospital em uma antiga fábrica da Coca-Cola em Sarthe. O odor adocicado da cola se mistura ao das salas de tratamento. Estamos no final de julho e o calor úmido começa a ser insuportável. Melissa tem 14 anos e sabe que nunca voltará a andar. Sua casa desmoronou na tarde de 12 de janeiro, enquanto ela fazia os deveres com seu irmão menor, que morreu no ato. Ela teve mais sorte, apesar de ter quebrado a coluna e ficado paralítica, mesmo depois de duas operações. Sua mãe os havia abandonado há vários anos para ir para Miami (centenas de milhares de haitianos fizeram a diáspora para os EUA, Canadá ou República Dominicana) e seu pai, que é eletricista sem trabalho, não se separa dela nem por um minuto. É a única coisa que lhe resta.

A visita ao hospital continua mostrando casos dramáticos. Saturne, um vendedor ambulante de sorvetes de 43 anos, foi operado cinco vezes depois que o muro da igreja evangélica onde rezava caiu sobre ele e destruiu seu quadril. Vai em cadeira de rodas e sabe que não poderá manter seus oito filhos, que vivem em um acampamento com uma tia. "Se antes era difícil ganhar a vida, agora é impossível", diz. "Não nos resta nem esperança."

Em outra parte da mesma fábrica, a ONG Handicap International montou uma área de reabilitação para pessoas com pernas amputadas às quais deram membros ortopédicos. Ali tentam enfrentar um futuro pouco promissor. Leoni tem 16 anos e é a mais velha de sete irmãos. Diz que a perna nova dói muito e não quer colocá-la, mas sabe que em menos de um mês terá de abandonar o hospital e instalar-se com sua família em uma tenda de campanha em Martissant. Chora quando insistem que precisa praticar.

Doentes mentais esquecidos
Se os deficientes são estigmatizados no Haiti, os doentes mentais são os grandes esquecidos. Neste país em que se sente o vodu em cada esquina, consideram que a doença mental é um sinal de estar enfeitiçado, e afastam os "loucos" de suas vidas. Na verdade, não há uma rede de saúde mental no Haiti.

No bairro de Croix des Bouquets, a leste de Porto Príncipe, fica o hospital Beudet, único centro de saúde mental do país. Está situado em um antigo campo militar americano que se transformou em hospital na década de 1930 e que permanece quase igual até hoje. Dezesseis pavilhões desmantelados, que mais parecem quadras, rodeiam um enorme terreno central por onde perambulam seminus como almas penadas os 150 pacientes, junto com cabras, porcos e galinhas que compartilham com eles a comida. Durante o terremoto caíram os muros externos e muitos doentes escaparam, mas quase todos voltaram.

A organização espanhola Médicos do Mundo tem um programa de saúde mental no Haiti, e seus representantes explicam que o diretor do centro está há meses pedindo ajuda ao governo para consertar o hospital, mas que não recebe dinheiro nem resposta. Não é uma prioridade.

Em uma cela com grades, fechada com um enorme cadeado, está Gabriel, paciente de 53 anos que diz que "às vezes ouço vozes e fico um pouco violento, mas aqui dentro estou bem". Tem esquizofrenia, está há cinco anos internado na mesma cela e não quer tomar a medicação, apesar de que nem poderia porque faz tempo que o hospital não a recebe. Gabriel dedica o dia à leitura e não sai nunca de sua cela. Também não deixa a cela outro paciente que grita para os visitantes que se aproximam e afirma ser o presidente Obama.

Uma cidade destruída
De volta ao centro, Porto Príncipe mostra-se uma cidade totalmente destruída. Não parece que tenham passado sete meses desde o terremoto. É verdade que há luz elétrica três ou quatro horas por dia e que os trabalhos da ONG Oxfam conseguiram levar água potável e montar chuveiros e latrinas na maioria dos campos. Mas os escombros continuam amontoados em cada rua, junto com toneladas de lixo que apodrece.

O palácio presidencial, construído em 1918 no mais puro estilo francês pelo arquiteto haitiano Georges Baussan, continua desmoronado em um difícil equilíbrio, assim como a catedral, os edifícios de 12 ministérios e o da ONU. Nos Campos de Marte, uma vendedora de loteria cercada de ruínas oferece um bilhete ao visitante. É o paradoxo de quem tenta vender a sorte em um país que nunca a conheceu.

Em certas ruas podem-se ver grupos de pessoas com camisetas vermelhas, verdes ou amarelas que trabalham retirando escombros com picaretas e pás junto de caminhões desmantelados. São as equipes contratadas por programas de "dinheiro por trabalho" de algumas ONGs como a Ayuda en Acción. As escavadeiras só saem à noite, com seus enormes faróis e em meio à mais absoluta escuridão de uma cidade mais morta do que viva.

Qual é o futuro do Haiti? Os haitianos não sabem ou não querem responder. Conhecem sua história e sua classe política. Sofreram as ditaduras dos dois Duvalier, pai e filho (Papa Doc e Baby Doc), e a de Aristide, e estão acostumados às catástrofes naturais que assolam o país todos os anos.

No entanto, o terremoto de 12 de janeiro conseguiu mobilizar, como nunca, a comunidade internacional. A Conferência de Doadores conta com US$ 5,3 bilhões para reconstruir o país (US$ 350 milhões da Espanha) nos próximos 18 meses. Mas não entregará esses fundos até que haja um governo estável, com um projeto claro e transparente. Coisa difícil para um país que, como diz o escritor chileno Rafael Gumucio, "prefere economizar para o enterro de seus filhos do que para sua hospitalização".

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