Mediador conta como foi a libertação dos reféns espanhóis nas mãos da Al Qaeda

Ignacio Cembrero
Em Madri (Espanha)

Imediatamente depois do ataque franco-mauritano contra a Al Qaeda para libertar o refém francês Michel Germaneau, em 22 de julho, os terroristas que mantinham sequestrados os espanhóis Albert Vilalta e Roque Pascual "estiveram a ponto de matá-los", relata de Burkina Fasso, Mustafá Ould Liman Chafi, o mediador que negociou com os sequestradores. "Nós os dávamos quase por mortos. Acreditávamos que fosse uma causa perdida. Foi o momento mais difícil de meu trabalho."

Assim que entrou no espaço aéreo de Burkina Fasso, procedente de Mali, o helicóptero em que Chafi viajava com os dois reféns fez escala em Gorom, no nordeste do país. O "El País" conversou no meio da tarde de segunda-feira (23) com o mediador antes que retomasse a viagem para Uagadugu, capital de Burkina Fasso.

De nacionalidade mauritana, Chafi, de 51 anos, é conselheiro do presidente de Burkina Fasso, Blaise Compaoré. No domingo ao meio-dia, reuniu-se com os dois prisioneiros em um ponto do deserto maliense onde havia marcado encontro o ramo magrebino da Al Qaeda (AQMI), comunicando-lhe por SMS as coordenadas de sua localização.

Às vezes Chafi duvidou de que esse momento chegaria. "Depois da incursão [franco-mauritana] contra a Al Qaeda", que terminou com sete mortos nas fileiras dos terroristas, "passamos um grande susto", admite. "Alguns deles pressionavam para que os matassem", como fizeram com o refém francês de 78 anos que foi decapitado em 24 de julho, como "vingança" pelo ataque das forças de elite francesas e mauritanas.

"Foi o pior momento" da mediação, "e também meu principal motivo de orgulho", salienta Chafi. "Eu soube fazer [os terroristas] ver que era preciso dissociar os dois casos [o do francês e o dos espanhóis]. Expliquei a eles longamente que não só a Espanha não estava envolvida na operação militar, como a reprovava. Demorei, mas acabei por convencê-los."

O governo espanhol foi informado por Paris sobre a intervenção, cujo objetivo era libertar Germaneau, mas não consultado, segundo fontes diplomáticas espanholas.

Os dois voluntários da ONG Barcelona Acció Solidària estavam nas mãos do argelino Mokhtar Belmokhtar, chefe de uma "katiba" - célula móvel - da Al Qaeda no Sahel, enquanto o francês Germaneau estava em poder de outro argelino, Abdelhamid Abu Zeid, que tem fama de mais radical e intransigente porque em maio de 2009 assassinou o refém britânico Edwin Dyer.

Em meados deste mês a agência de notícias francesa AFP indicou que Abu Dhabi Zeid pressionava seu correligionário para fazer frente comum "diante dos agressores" e que a vida de Pascual e Vilalta estava em sério perigo. Essa situação ocorreu, segundo fontes conhecedoras do desenvolvimento do sequestro, no final de julho, mas já estava superada em agosto, quando surgiu a notícia.

No lugar do encontro fixado pela Al Qaeda, Chafi encontrou os reféns "com o moral alto. Também estavam em má forma física", acrescenta, apesar dos quase nove meses de cativeiro transcorridos desde que foram presos, em 29 de novembro, ao norte de Nuakchot, na principal estrada da Mauritânia. "Albert caminha com uma muleta", explica, por causa dos três tiros que levou em uma perna quando foi capturado. "Durante o trajeto falei principalmente com ele, porque fala muito bem francês, e ele traduzia minhas palavras para Roque."

Contaram-lhe como transcorreu o sequestro? "Tenho certeza de que sofreram muito, mas eu não quis falar sobre isso", responde Chafi. "Esforcei-me sobretudo para tranquilizá-los, apaziguar seus medos, deixar claro que seu calvário havia terminado", insiste.

Foi o que fez em 8 e 9 de março com Alicia Gámez, a mulher capturada junto com Pascual e Vilalta e libertada cinco meses antes. As mudanças de veículos, as discussões entre seus acompanhantes a fizeram temer em um primeiro momento que fosse ser executada ou vendida como escrava.

A viagem para a libertação não foi tranquila. Primeiro pelo deserto e depois pela savana de Mali, "percorremos centenas de quilômetros por lugares onde não há estradas e muitas vezes nem sequer pistas" para circular, lembra Chafi. "Não vou entrar em detalhes, mas digamos que havia alguns grupos malienses que desejavam fazer a libertação fracassar, o que aumentava o risco. Houve pessoas empenhadas em tirar vantagem desse assunto até o último momento."

Um helicóptero oficial de Burkina Fasso recolheu na segunda-feira as 13h30 - horário da Espanha - Chafi, Pascual e Vilalta em algum ponto da região de Menaka, no sudeste de Mali, e daí os transferiu para Gorom antes de continuar viagem para Uagadugu. Nem mesmo a bordo o mediador se sentia totalmente seguro, porque "para mim os helicópteros são frágeis e vulneráveis".

Uma vez a bordo, Chafi enviou um SMS para este correspondente: "Tudo vai muito bem". Também lhe fez uma ligação telefônica. "Estou mais contente ainda que os reféns", foi a primeira coisa que disse quando atendeu. Depois recuou um pouco: "Bem, compartilho plenamente sua alegria".

Mas Chafi não quer medalhas. "Isto é antes de tudo mérito do presidente de Burkina Fasso com a colaboração do presente presidente de Mali [Amadou Toumani Touré]", insiste várias vezes. Depois de Alicia Gámez, Pascual e Vilalta são os primeiros reféns do Sahel que não passam pelo palácio presidencial de Bamako para tirar a foto com Touré e agradecer suas gestões.

Em Gorom, durante a escala, Pascual e Vilalta "comeram alguma coisa e finalmente se lavaram", segundo Chafi. Provavelmente não puderam se assear durante todo o cativeiro. Posso falar com eles? "Eu os passaria, mas aqui estão alguns senhores estritos que não desejam que tenham contatos" com a imprensa, responde o mediador. São agentes do Centro Nacional de Inteligência (CNI, a espionagem espanhola), que se deslocaram até esse remoto lugar de Burkina Fasso para recebê-los.

Nos sequestros do Sahel, são os terroristas que escolhem os mediadores, e não os países cujos cidadãos são capturados. O argelino Belmokhtar optou por Chafi porque já lhe deu bom resultado em 2009, ao negociar o resgate dos diplomatas canadenses Robert Fowler e Louis Guay, trocados, segundo a imprensa do Canadá, por 3,7 milhões de euros e a libertação de quatro islâmicos presos em Kati (Bamako, capital de Mali).

Abu Zeid, chefe da outra grande katiba terrorista do Sahel, preferiu, por sua vez, recorrer aos serviços de um árabe maliense, Baba Ould Cheikh, prefeito de um povoado do nordeste do país.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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