A osmose entre as guerras do Afeganistão e Iraque

Miguel Ángel Bastenier

  • Ali Al-Saadi/AFP

    As duas guerras asiáticas dos EUA, no Iraque e no Afeganistão, tendem a se tornar cada vez mais semelhantes

    As duas guerras asiáticas dos EUA, no Iraque e no Afeganistão, tendem a se tornar cada vez mais semelhantes

As duas guerras asiáticas dos EUA, Afeganistão e Iraque, tendem a se irmanar como vasos comunicantes ou como se o conflito afegão fizesse osmose com o iraquiano. E enquanto Washington tenta desativar a contenda em Bagdá, completando no dia 31 a retirada do que chama figurativamente de "tropas de combate", reforça a frente afegã a fim de travar a última batalha. E ambas apresentam uma característica comum: uma segunda dupla de atores guerreia na sombra, tornando problemática qualquer ideia de vitória.

Barack Obama vai deixar no Iraque 50 mil soldados dos 144 mil que havia quando ele assumiu a presidência, para que esse contingente se dedique a treinar as forças de segurança locais, de forma que no final de 2011 se complete a retirada americana. E embora alguns milhares de homens continuem no Iraque para preservar o país como cliente, a guerra terá virtualmente terminado no tocante a baixas americanas, que é o que importa para Washington. Mas só pode evitar que a guerra se prolongue além de 2011 fazendo que os mortos sejam exclusivamente iraquianos, um acordo com o terceiro ator do drama: o Irã, que manuseia sua indústria nuclear.

Na primavera, a força aliada no Afeganistão já fez um primeiro teste do que deveria ser essa última batalha, embora com resultados pouco promissores. Tanto que parece duvidoso que a segunda parte, prevista para o outono em Kandahar - feudo da resistência taleban -, sequer seja tentada. A ideia era pacificar, estabelecer a administração efetiva de Cabul e transferir responsabilidades para um exército afegão renovado, tudo isso para que Obama possa proceder em 2014 a uma retirada similar à iraquiana. E o imperativo para tanto seria "afeganizar" a guerra.

Com um custo de US$ 1 bilhão mensais, Washington pretende ter adestrado em 2011 um exército afegão de 131 mil homens; 260 mil em 2012; e 300 mil ao fim do prazo em 2014. Só isso permitiria ao presidente iniciar a retirada de seus 130 mil soldados mobilizados no país. Mas, segundo as próprias fontes americanas, no final de 2008 das 105 unidades do exército afegão só duas estavam em condições de realizar missões básicas; e em 2009 unicamente 24 de 559 unidades de polícia podiam operar sem apoio da força internacional. Nesse ritmo, treinar um exército de 300 mil homens levaria 25 anos. E por acréscimo também há um "oculto", o Paquistão, sem cuja colaboração não cabe pensar na vitória, porque é quem deve negar santuário aos talebans e terroristas da Al Qaeda, no seu lado da fronteira afegã.

Ainda haveria possibilidades, no entanto, de se desfazer esse duplo nó górdio. O Iraque permanece sem governo eleito desde as eleições de 7 de março passado, enquanto três forças se observam para decidir qual será a coalizão triunfante: o partido Iraquiya de Iyad Allawi, tão laico quanto pode ser um xiita do Iraque, que obteve 91 assentos; o Estado da Lei, do primeiro-ministro Nuri al Maliki, xiita com vínculos com o Irã, com 89; e o Conselho Supremo (ISCI), partido sempre xiita, o preferido de Teerã, com 70; e nenhum tem a maioria absoluta.

Os EUA promovem uma aliança dos dois primeiros para manter o Irã dentro dos limites; mas a república islâmica tem provável poder de veto, e se decantaria por uma solução baseada na terceira formação política. Cabe, no entanto, que se retomem no outono as negociações entre Teerã e Washington, nas quais se o Irã provar de maneira verossímil que não pretende ter "a bomba" poderia haver acordo para formar governo no Iraque.

Igualmente, no Afeganistão haverá legislativas em setembro que permitiriam calibrar o apoio com que conta o presidente Hamid Karzai para seu plano de negociar a paz com os talebans, ou pelo menos atrair para seu governo os que não apoiam a Al Qaeda. E, por último, em novembro se realizará uma cúpula da Otan em Lisboa para tentar passar a limpo tanto imponderável.

Todos têm de ceder para fazer desse imbróglio um jogo de soma zero, no qual ninguém ganhe nem perca tudo. Os EUA teriam de se resignar a um Iraque protegido do Irã para poder se retirar; Teerã, renunciar a seu artefato nuclear; o Afeganistão, acomodar no poder os taleban; e o Paquistão, assumir um governo de Cabul amigo, mas menos estreitamente vinculado a seus serviços secretos, como o regime taleban anterior. Mas certamente tudo isso é só um plano muito otimista.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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