Talebans querem monopolizar a ajuda à população afetada pelas inundações no Paquistão

Ángeles Espinosa

Em Kalam (Paquistão)

  • Mohammad Sajjad/AP

    Sobreviventes das enchentes no Paquistão fazem fila para receber alimento. Grupo taleban quer impor ajuda ao país

    Sobreviventes das enchentes no Paquistão fazem fila para receber alimento. Grupo taleban quer impor ajuda ao país

Em Kalam, a enchente do rio Swat arrastou muito mais que casas e lojas. Um ano depois de o exército ter entrado a sangue e fogo para desalojar os talebans desse vale no norte do Paquistão, a água também arrastou a esperança de recuperar o turismo que alimentava seus habitantes. Os desalojados daquela ofensiva, que neste verão haviam recomeçado do zero, voltaram a perder tudo.

Agora inclusive a assistência humanitária pende de um fio, depois que os taleban paquistaneses ameaçaram na quinta-feira os cooperantes estrangeiros. A ONU se apressou a aumentar a segurança de seu pessoal mobilizado nesse país.

Situado no norte do vale do Swat, Kalam era um dos povoados de montanha mais visitados do Paquistão. Até que, em meados desta década, os taleban começaram a se infiltrar. Em 2008 tinham conseguido ser os donos e senhores. Na primavera do ano passado o exército tomou as rédeas no assunto e durante três meses manteve fechado o vale, enquanto a aviação bombardeava os esconderijos dos insurgentes. A operação deslocou 2 milhões de pessoas nesse distrito e seus vizinhos.

"Conseguimos romper sua espinha dorsal", afirmou o comandante Omar, oficial encarregado da base que instalaram em Kalam. Embora ele não tenha participado diretamente da ofensiva, mostra-se convencido de que os habitantes dessa comarca simpatizam com o exército e se sentiam oprimidos pelos talebans.

No entanto, o fato de que em apenas quatro anos os radicais islâmicos conseguiram retomar o controle sugere um mínimo de apoio local. O próprio militar admite que seu sistema paralelo de justiça atraiu muitos "swatis", fartos da lentidão e corrupção do sistema judicial.

"É claro que não queremos que os talebans voltem", afirmam em coro vários homens que esperam diante do ponto de distribuição de alimentos que o exército administra em Kalam. "Não havia segurança, os negócios pararam, e matavam os funcionários do governo", explica Yusef Balakor, o prefeito de Pashmal, uma aldeia a 12 km ao sul de Kalam. "Também queimaram as escolas de meninas", indica Abdul Khaliq, que é professor e veio de Utror, a 25 km a noroeste. Todos fizeram isso a pé, porque as estradas ficaram inutilizadas.

"Sem o exército não teria chegado nenhuma ajuda", salienta Balakor, enquanto os demais concordam. Um pouco mais distante, onde os militares não podem ouvi-lo, Mohammed Khan opina que falam assim porque são funcionários públicos. Esse jovem universitário afirma que a maioria das pessoas não está contente com a presença dos soldados. "Mataram muitos inocentes e causaram muita destruição para tirar os talebans que as próprias agências do governo haviam criado", explica, embora reconheça que isso também não significa que gostem dos talebans. Segundo ele, as pessoas gostavam dos velhos tempos, quando o vale estava livre de uns e de outros.

Até a operação do ano passado, o exército nunca tinha entrado no distrito. O antigo principado de Swat só se integrou plenamente ao Paquistão no início dos anos 1970, e mesmo assim manteve alguns privilégios como a isenção de impostos ou a manutenção de uma milícia local. Nem esta nem a polícia estavam preparadas para enfrentar os talebans.

"Não nos receberam de braços abertos", admite outro oficial que não se identifica. "No início não distinguíamos entre terroristas e moradores locais, mas depois as pessoas começaram a nos ajudar", relata, confirmando a teoria do guerrilheiro acidental de David Kilcullen. Esse analista defende que muitos povoados, apanhados entre os dois fogos de uma insurgência organizada e com regras claras e um Estado central pouco eficaz, tendem a apoiar aquela, embora não necessariamente compartilhem sua ideologia extrema. O exército paquistanês entendeu a importância de negar essa possibilidade aos talebans e, diferentemente de outras áreas, em Swat estabeleceu uma presença visível e estável quando terminou a ofensiva.

Por isso, ao ocorrer a inundação, os militares foram os primeiros a ajudá-los. Para atender aos moradores de Kalam e arredores (150 mil dos 800 mil paquistaneses que, segundo dados oficiais, ainda continuam sem comunicação por estrada), estabeleceram uma ponte-aérea com helicópteros a partir de Gulibah, 80 km ao sul. Significativamente, oito dos 19 aparelhos que os EUA emprestaram ao Paquistão para as tarefas humanitárias estão destinados ao transporte de alimentos e pessoas nesse trajeto.

E muitos paquistanesas não perdem esse detalhe. "O exército está fazendo um bom trabalho", admite Mohamed Jamil, que estava fora quando ocorreu a enchente do rio e volta preocupado com a situação de sua família. E o que acha de ter conseguido voltar para casa graças aos fuzileiros navais americanos? Os paquistaneses não odeiam os EUA? Jamil ri com vontade antes de responder: "Antes era assim, mas o que estão fazendo agora é bom".

A possibilidade de que as percepções possam mudar em consequência do apoio humanitário aos atingidos pelas inundações parece estar por trás da ameaça taleban. Um porta-voz desse grupo qualificou na quinta-feira de "inaceitável" o trabalho dos socorristas estrangeiros no Paquistão, aos quais acusou de ter objetivos diferentes da ajuda humanitária.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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