"Nosso objetivo é fazer com que o câncer morra de velho", diz especialista em oncologia

Elena Hidalgo

Santander (Espanha)

  • AP

    Foto de 30 de julho de 2010 mostra médicos do Hospital Careggi, na Itália, operando um paciente com câncer

    Foto de 30 de julho de 2010 mostra médicos do Hospital Careggi, na Itália, operando um paciente com câncer

A diretora do Programa de Oncologia Molecular do Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas (CNIO), Maria Blasco, é referência mundial no estudo da relação dos telômeros e da telomerase com o câncer e o envelhecimento. Última contemplada pelo prêmio Nacional de Pesquisa Santiago Ramón e Cajal de Biologia, ela falou sobre suas pesquisas e o futuro do CNIO desde a Universidade Internacional Menéndez Pelayo de Santander, onde participou de um seminário.

A telomerase é uma enzima capaz de rejuvenescer as células, já que tem a propriedade de manter jovens os telômeros, que são estruturas protetoras do material genético que vão se desgastando com o passar do tempo. Assim, “é vista como o alvo potencial em terapias contra doenças associadas ao envelhecimento e como um alvo antitumores, porque uma das coisas que as células tumorais têm de forma aberrante é telomerase, que as permite crescer imortalmente”, explica Blasco.

A pesquisa do combate ao câncer por meio da telomerase baseia-se na inibição desta. “Um ponto de interesse é descobrir se, retirando a telomerase de uma célula tumoral, conseguimos fazê-la envelhecer. Assim levaríamos o tumor à senescência, eliminando-o ao fazer com que todas as suas células envelheçam. Nosso objetivo é fazer com que o câncer morra de velho.”

Agora estão sendo realizados testes químicos, todos nos EUA. “Já observaram que os medicamentos antitelomerase não têm efeitos secundários e que não são tóxicos, agora é preciso ver se são eficazes”.

Testes
A equipe de Blasco está envolvida numa possível seleção de pacientes para estes testes clínicos. “Com nossa capacidade de medir os telômeros a partir de biópsias, poderíamos selecionar os pacientes que mais provavelmente se beneficiariam do tratamento porque têm os telômeros mais curtos em seus tumores”. O objetivo é continuar encurtando os telômeros utilizando um medicamento que já foi desenvolvido. A telomerase é um alvo já estabelecido na luta contra o câncer e o envelhecimento, e que valeu o Nobel de medicina em 2009 a seus descobridores, Elizabeth H. Blackburn, Jack W. Szostak e Carol W. Greider, esta última mentora de María Blasco.

Mas as pesquisas tentam aprofundar ainda mais a modulação da telomerase. Agora concentram-se no papel das shelterinas no campo do câncer e envelhecimento. São proteínas unidas aos telômeros e necessárias ao funcionamento da telomerase. “Observamos que algumas delas são tão ou mais importantes que a telomerase, porque são necessárias para que esta funcione. São a ancoragem da telomerase ao telômero, o gancho que a leva e a faz funcionar”, explica Blasco. As shelterinas aparecem como “possíveis alvos terapêuticos contra o câncer e o envelhecimento”, conclui.

O comportamento da célula-mãe que é assumido por algumas células tumorais também está sendo estudado. “Assim como os tecidos normais se regeneram a partir de células-mãe, acredita-se que também os tumores podem ter uma fração de suas células com propriedades de células-mãe, mas que são tumorais e regeneram o tumor”, explica Blasco.

Esta seria a razão pela qual, depois de aplicar um tratamento contra um tumor e aparentemente erradicá-lo, ele reaparece depois de alguns meses. “Acreditamos que isso acontece porque estas células-mãe não foram totalmente eliminadas; é uma hipótese. Nós tentamos ver se medindo os telômeros identificamos possíveis células-mãe do câncer, que imaginamos que têm os telômeros maiores. Mas o campo das células-mãe no câncer está cheio de suposições”, conclui.

As pesquisas de aplicações clínicas da telomerase contra o envelhecimento ainda estão no início. “Existe um nutriente, um produto retirado dos astrálagos (um produto natural), que contém um potente ativador da telomerase, o TA65. Observamos que as pessoas que o tomam têm telômeros maiores, mas não se conhece o mecanismo pelo qual o TA65 ativa a telomerase.”

Impacto
Para Maria Blasco, o objetivo final de seu trabalho é “ter uma aplicação terapêutica no campo do câncer e do envelhecimento, ter um impacto”. Um impacto que está próximo através da medição telomérica como biomarcador. “O uso da medição telomérica como biomarcador do estado de saúde vai começar, com certeza, no ano que vem, em âmbito internacional”, explica esperançosa.

“Já existem empresas como a L'Oreal que se interessam pela medição telomérica para conhecer o envelhecimento da pele – querem saber se quando colocam algo sobre a pele, isso faz melhorar algum marcador de juventude, para saber o quão eficaz é o que estão utilizando. Na cosmética ela não é utilizada como tratamento, não se aplica a telomerase, embora eu não afirme que isso não possa ser feito no futuro”, conclui.

O CNIO enfrenta agora uma das maiores mudanças desde que iniciou sua atividade em 1998: a busca de um substituto para seu diretor, Mariano Barbacid, que anunciou seu desejo de deixar o cargo em setembro passado. Blasco explica que há um comitê de busca internacional, cujo objetivo é encontrar um ou uma cientista de nível, mas ainda não há um candidato. “Deve ser uma pessoa reconhecida internacionalmente no mundo da oncologia e precisa somar ao CNIO, precisa ser alguém com quem ganharemos”, afirma Blasco enumerando as qualidades que o candidato deve reunir.

Seu próprio nome foi cogitado fortemente para ocupar o cargo: “A princípio descartamos escolher alguém que já esteja dentro do CNIO, mas, se não encontrarmos, procuraremos dentro.”

Quanto à recente suspensão cautelar da pesquisa com células-mãe embrionárias nos EUA e a defesa desses estudos por parte do presidente Barack Obama, Blasco tem a visão de quem trabalhou no país na linha de frente. “O que está acontecendo reflete a luta que existe nos EUA entre o desejo de política científica de um democrata, como é Obama, respaldado por muitos cientistas importantes, frente à realidade do país com setores muito conservadores; é inerente a este país cheio de contradições.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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