"Antes não tinha vida, agora voltei a sonhar", diz ex-mulher de agressor

María R. Sahuquillo

Em Madri (Espanha)

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    Atualmente, cerca de 600 mil espanholas sofrem agressões de seus parceiros ou ex-parceiros, segundo a Secretaria de Estado da Igualdade

    Atualmente, cerca de 600 mil espanholas sofrem agressões de seus parceiros ou ex-parceiros, segundo a Secretaria de Estado da Igualdade

Mulheres que conseguiram se afastar de seus agressores relatam a luta pela sobrevivência. Só 15 das 60 vítimas de violência machista em 2011 tinham apresentado denúncia

Na casa de Rosalía Vicente as refeições eram aterrorizantes. "As coisas voavam. Ele não parava de atirar a comida, os talheres...", conta essa mulher de 60 anos. Não o diz com amargura. Sua voz e seu rosto, embora sério, mostram as marcas de quem sobreviveu a um pesadelo. Esse "ele" de quem fala é seu ex-marido. O homem de quem tanto gostou e que a agrediu física e emocionalmente até o ponto de que, mais de uma vez, ela perdeu a vontade de viver. Apagou seu sorriso durante muito tempo, mas agora o recuperou.

Há dois anos denunciou seu agressor. Ele foi condenado e ela reconstrói sua vida. Recomeçou. Está contente, trabalha no que pode. Tem uma nova casa junto com seus dois filhos em um novo bairro. É feliz.

"Meu marido me pôs em uma urna, e agora a rompi e saí." E sorri.

Ela pensou muitas vezes e finalmente tomou a decisão de denunciá-lo. Para isso teve de assumir que sofria agressões. "Os psiquiatras tiveram que me dizer isso", explica. Ocorreu no último episódio violento, que acabou com a polícia em casa e seu marido, ao qual não conseguiam controlar, na unidade de psiquiatria de um hospital de Madri. "Disseram-me e repetiram que ele não estava mal, que não era um doente, mas sim um agressor. Nesse dia liguei para o 016 (o telefone gratuito de ajuda às mulheres que sofrem violência), fiz a mala e fui para uma casa de abrigo; estava morta de medo", relata. Tiveram de passar anos. E muitas lágrimas.

Vicente não para de dizer que valeu a pena. Mas o medo de falar paralisa muitas mulheres. Atualmente, cerca de 600 mil sofrem agressões de seus parceiros ou ex-parceiros, segundo a última pesquisa da Secretaria de Estado da Igualdade. Uma bolsa de maus-tratos que não para de crescer. Os dados são preocupantes. A violência machista tirou a vida de 60 mulheres em 2011 - e neste início de janeiro já podem ser duas as vítimas fatais. Só 15 delas haviam denunciado seus agressores. Algo que impede que a roda de apoio criada em torno da Lei Integral contra a Violência de Gênero funcione.

A primeira vítima de 2012, uma mulher de Girona, também não havia denunciado seu parceiro. Um possível segundo caso é o de uma mulher que ontem apareceu morta em sua casa de Puig-reig (Berguedà), a cerca de 90 quilômetros de Barcelona. A polícia local não descarta nenhuma hipótese e ontem procurava o marido da vítima.

A estatística, apesar das medidas institucionais e das campanhas, não melhora. Em 2010, que acabou com 73 mulheres assassinadas, as cifras eram semelhantes: três em cada quatro não acusaram seus carrascos. Tampouco o fizeram seus parentes e amigos. As autoridades registram cerca de 130 mil denúncias por violência de gênero por ano. Só uma em cada quatro procede do entorno da agredida (pais, irmãos, médicos). Embora sejam cada vez mais, segundo explica o forense especialista em violência machista Miguel Lorente, que até alguns dias atrás foi o delegado do governo contra a violência de gênero. As acusações que vêm do entorno aumentaram mais de 10% em 2011. "O cerco ao agressor e a rejeição social ao machismo são cada vez maiores", afirma.

Os especialistas insistem em que esse é um ponto crucial na batalha contra a violência machista. "Muitas vezes as mulheres não podem tomar a iniciativa de denunciar. E isso também corresponde a nós, como parte da sociedade", reclama Consuelo Abril, advogada e membro da Comissão de Investigação de Maus-tratos a Mulheres.

Porque não é fácil romper com tudo, denunciar o que foi uma parte fundamental da vida - muitas vezes com filhos em comum. Graci Prada, com 31 anos de maus-tratos nas costas, sabe bem disso. Essa andaluza de 46 anos se considera uma sobrevivente e não uma vítima. "Antes eu não tinha vida, agora voltei a sonhar, a desfrutar. Ninguém tem de aguentar os maus-tratos. Denunciar dá medo porque você não sabe o que vai encontrar, nem se vão apoiá-la, mas isso não pode ser um freio porque a vida fora dessa prisão é sempre melhor", diz. Ela saiu há dois anos. "Com uma mão na frente e outra atrás e com dois filhos. Quem diria que eu estaria tão bem agora?", conta.

Prada faz parte da Fundação Ana Bella, que oferece testemunhos de superação da violência machista para servir de exemplo às mulheres que a sofrem. "Ver os casos de assassinato, as agressões... nem sempre é um incentivo para denunciar. Você pensa que também pode acontecer com você. Por isso é importante que as mulheres saibam que os agressores são condenados, que deixá-los é o melhor que podem fazer", concorda Antonia Ávalos, uma das responsáveis pela fundação (junto com Ana Bella Estévez, a criadora). A organização conta com vários apartamentos de apoio e uma empresa de refeições solidárias que emprega muitas mulheres que, como Ávalos - 43 anos e um filho- sobreviveram a uma ferida que mais de 2 milhões de mulheres na Espanha sofreram alguma vez em sua vida, e que em oito anos tirou a vida de mais de 600.

C.L. acredita que talvez conhecer histórias como as de Vicente, Prada ou Ávalos a teriam levado a deixar seu marido mais cedo. Essa andaluza de 33 anos prefere não dar seu nome porque espera o julgamento do homem que a agrediu durante uma década. "Não aguentei mais. Nem sei o que aconteceu nesse momento. Só sei que me levantei e pensei que não aguentava mais. Esperei que ele fosse trabalhar e peguei uma mala, pus as crianças em um ônibus e fui embora", conta. C.L., com três filhos pequenos nas costas, mudou de região. E, quando conseguiu se recuperar de algumas feridas na alma e tomar coragem, denunciou o agressor.

Como Vicente, esteve alguns dias em um apartamento da assistência social. Depois se transferiu alguns meses para uma casa de abrigo. Até que conseguiu se recolocar por conta própria. Não foi fácil. "Economicamente é complicado, mas você acaba conseguindo", diz. No entanto, para fazer o que ela fez é necessário ajuda. "Há necessidade de mais recursos de atendimento às mulheres", adverte Ana Maria Pérez del Campo, presidente da Associação de Mulheres Separadas e Divorciadas, com anos de trajetória na luta contra o machismo. Sua organização tem vários centros em que as mulheres tentam refazer suas vidas e recebem apoio psicológico e médico. "Enquanto elas não estiverem conscientes de que os agressores são condenados (foram ditadas mais de 150 mil sentenças condenatórias em seis anos) e de que existem fórmulas para ajudá-las, não vão denunciar", continua.

As razões pelas quais continuam na espiral de agressões são muitas. "De fora nem sempre se entende, mas essas mulheres passam anos sofrendo maus-tratos psicológicos, porque assim começa, e costumam desculpar os agressores", analisa Abril. Quarenta por cento dos espanhóis as culpam por permanecer com seu carrasco, segundo dados da Igualdade. "Mas muitas também sofrem um mau trato econômico que as amarra. Têm pânico de ficar na rua com as crianças. Ou sozinhas sem nada", explica a advogada. Depois há a pressão que o agressor exerce para ser perdoado. As promessas de arrependimento que levam muitas a voltar para seu lado. E o cansaço (ou medo) que as invade uma vez que o deixam, e que as freia na hora de tomar medidas legais. Motivos que fazem que 12% das denúncias não sigam seu curso.

Todas viveram histórias de horror, agressões e insultos. "Lembro uma vez que uma amiga me ligou para saber por que eu não tinha ido à natação. Havíamos nos tornado boas amigas, e ela suspeitava de que acontecera algo. Meu marido ficou furioso. "Quem é essa idiota que está ligando? Por acaso vocês são namoradas?", disse, e me agarrou pelo pescoço. Pensei que fosse sufocar. Ele não queria que eu tivesse amigas, me isolou de minha família e de tudo...", conta Rosalía Vicente.

É a história de sua vida - de suas vidas, porque o padrão é semelhante em todas. Mas da anterior. Essas mulheres não querem que o que aconteceu determine seu futuro. Carregam uma mochila cheia de más lembranças, mas a usam para evitar que aconteça o mesmo a outras. "Os jovens de hoje são mais espertos, mas a violência não para. Por isso falo abertamente a meus filhos sobre tudo. Não quero que caiam na mesma coisa", diz Graci Prada. Para ela as agressões - sobretudo psicológicas - começaram aos 16 anos, quando ficou noiva do que seria seu marido. "Antes havia muitas mentiras, você acreditava que certas coisas eram normais. Acabar com isso só se consegue educando em igualdade e alertando sobre os riscos", pede. É o que reclamam todas essas sobreviventes: que a condenação social impeça que continuem exterminando vidas.

Temor de que a lei se dilua

"No último ano, cerca de 840 mil menores estiveram expostos a situações de violência de gênero; 60% deles não só como testemunhas, mas também sofreram violência direta. É que os agressores muitas vezes utilizam as crianças para causar danos a suas mães. Atacam sempre onde mais dói, e agredir ou assustar os filhos é uma forma", diz Consuelo Abril. É o que se chama violência estendida, e também é empregada contra outros seres queridos, como um mecanismo corretivo.

Embora possa parecer o contrário, as mulheres com filhos demoram duas vezes mais para deixar a espiral de violência. É o que mostra a última macropesquisa da Secretaria de Estado da Igualdade. "O medo e a carga de responsabilidade pesam muito, e não é a mesma coisa sair de uma casa sozinha do que com pessoas a seu encargo", explica Abril. Mas essas situações terminam passando uma conta muito cara para essas crianças. E as sequelas são importantes. Segundo especialistas, corre-se o risco de que, ao tornar-se adultos, repitam aquilo que viram e viveram em casa.

Uma das intenções do novo governo é integrar os menores à Lei de Violência de Gênero. O Executivo do Partido Popular também se mostrou partidário de modificar a norma para incluir as pessoas dependentes que, afirmam, também são vítimas dessas situações e contribuem para que a mulher não abandone o agressor. Uma iniciativa que não agrada às associações de mulheres, que acreditam que essas mudanças contribuem para diluir o significado da lei e vitimizar ainda mais a mulher.

"Estender a lei aos menores e os dependentes esvazia a lei de conteúdo de gênero", diz Abril. A mudança de terminologia também causaria isso, alertam. Daí o alarme gerado pelas palavras da nova ministra da Saúde, Serviços Sociais e Igualdade, Ana Mato, que inicialmente definiu dois assassinatos machistas como "violência no entorno familiar", mas anteontem retificou o discurso e se referiu à "violência de gênero".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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