Governo chinês lança "cruzada" contra a influência ocidental na televisão

José Reinoso

Em Pequim (China)

  • AP

    O número de programas de lazer foi reduzido a 38 semanais desde 1º de janeiro, contra 126 no final do ano passado

    O número de programas de lazer foi reduzido a 38 semanais desde 1º de janeiro, contra 126 no final do ano passado

Pequim elimina programas em 34 canais para promover "valores socialistas"

O governo chinês está praticando uma cruzada cultural. As 34 redes de televisão por satélite do país asiático cortaram mais de dois terços dos programas de entretenimento nas horas de audiência máxima, em consequência das ordens ditadas em outubro pelas autoridades para reduzir os programas de "mau gosto" e "entretenimento excessivo". As transmissões haviam se transformado em uma janela pela qual circulavam nos lares em horário de pico histórias que expunham as crescentes desigualdades sociais, o materialismo, a corrupção, a infelicidade e outros problemas que os líderes de Pequim preferem que não cheguem à telinha, já que revelam as contradições existentes e negam o mantra oficial de promoção de "uma sociedade harmoniosa".

O número de programas de lazer, incluindo aqueles cujos participantes buscam parceiros, os de jogos e os que relatam "histórias emocionantes", entre outros - transmitidos entre as 19h30 e as 20h30 - foi reduzido a 38 semanais desde 1º de janeiro, contra 126 no final do ano passado, segundo afirmou ontem a agência oficial Xinhua, que cita a Administração Estatal de Rádio, Cinema e Televisão (Sarft na sigla em inglês).

"Os canais via satélite começaram a transmitir programas que promovem as virtudes tradicionais e os valores socialistas chaves", indica a Sarft. O órgão regulador "acredita que a decisão de cortar a programação de entretenimento é crucial para melhorar os serviços culturais da população". As redes terão que aumentar o número de noticiários. Deverão ter pelo menos dois de 30 minutos entre 18h e 23h30.

O governo luta há tempo para promover o que considera um ambiente cultural saudável, em contraste com os programas de televisão e filmes mais ousados de Hong Kong, Taiwan e do Ocidente, que circulam amplamente na Internet e por DVDs piratas.

Durante a última década, Pequim incitou os meios de comunicação estatais para que fossem mais competitivos e menos dependentes do financiamento público, o que gerou um jornalismo mais crítico e programas de tom mais elevado, com o objetivo de conquistar leitores e audiência. Mas essa tendência, somada ao sucesso dos microblogs (serviços de mensagens curtas na Internet), minou os esforços das autoridades para controlar a opinião pública. Hoje querem pôr freio. Recentemente anunciaram mais controles nos microblogs, como a obrigação de os usuários se registrarem com o nome real. A isto somou-se o crivo na programação televisiva.

Com o corte dos programas de entretenimento, Pequim certamente quer evitar que se repitam casos polêmicos como o de um programa de encontros - "Se For Você" - em que uma garota disse que preferia chorar em um BMW a rir em uma bicicleta quando um jovem lhe ofereceu um passeio em seu veículo de duas rodas. Ou o da série "Casa de Caracol", sobre um casal urbano que quer comprar um apartamento; em um dos episódios, um funcionário do Partido Comunista Chinês (PCCh) oferece dinheiro a uma jovem para que ajude sua irmã a pagar a entrada de uma moradia e depois a jovem se transforma em sua amante. O programa foi um dos mais populares na China em 2009.

Um anúncio da Administração Estatal de Rádio, Cinema e Televisão coincide com a advertência lançada esta semana pelo presidente chinês, Hu Jintao, contra a influência perniciosa cultural estrangeira. "Forças internacionais estão tentando nos ocidentalizar e dividir por meio da ideologia e da cultura", afirmou Hu em um artigo em "Qiushi", uma revista de reflexão do PCCh.

No ano passado as autoridades disseram que cancelariam uma rede de televisão no norte da China por transmitir programas desrespeitosos com um pai idoso e exagerar um conflito familiar. "Super Garoto", um concurso para cantores semelhante ao americano "American Idol", recebeu ordem em 2007 de mostrar unicamente "canções saudáveis e que inspirem a ética", evitar "as fofocas" e não mostrar cenas de "mau gosto" de torcedores gritando ou concorrentes chorosos por ter perdido.

A China é o país com o maior número de espectadores televisivos do mundo: estima-se que 95% de seus 1,3 bilhão de habitantes têm acesso a essa mídia. No país asiático há cerca de 500 milhões de televisores.

Pequim censura habitualmente filmes, canções, shows e inclusive as exposições de outros países que viajam à China. Apesar disso, muitos jovens chineses são apaixonados seguidores de cantores, bandas de rock e filmes estrangeiros, e alguns programas de televisão americanos têm numerosos aficionados, apesar de nunca terem sido transmitidos nas televisões chinesas. Grande parte dos jovens simplesmente deu as costas para a televisão para mergulhar na Internet.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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