Primeiro encontro do Partido Republicano mostra falta de liderança entre os conservadores

Antonio Caño

Em Des Moines (Iowa, EUA)

O Partido Republicano continua sem um candidato presidencial consistente. Mitt Romney, o único realmente viável entre os que estão na disputa, não deu nas reuniões partidárias (cáucus) de Iowa o golpe de autoridade de que precisava para afastar as dúvidas sobre sua solvência. Esclareceu-se muito pouco o panorama diante das próximas primárias, e o partido continua sendo vítima de um conflito entre sua alma conservadora e seu instinto pragmático.

Uma vitória é uma vitória, e Romney ganhou em Iowa, mesmo que seja literalmente por 8 votos de diferença, de Rick Santorum. Para ele, que é visto pelas bases republicanas como um moderado e um oportunista, nunca foi fácil abrir caminho em um estado dominado pelos radicais. Portanto, sua vitória pode ser considerada um êxito.

Mas trata-se de um êxito com tantos matizes que dificilmente lhe servirá para eliminar a frustração que sua candidatura provoca entre os conservadores e as dúvidas que desperta em todo o partido. Romney chegou a Iowa como um candidato fraco e não sai daqui mais forte. O momento de sua coroação terá de esperar.

Romney obteve 25% dos votos, resultado exatamente igual ao de quatro anos atrás nesse mesmo estado. Então perdeu para Mike Huckabee, e agora só ganhou porque o voto dos conservadores ficou dividido entre Santorum (outros 25%), Ron Paul (20%), Newt Gingrich (13%), Rick Perry (10%) e Michelle Bachmann, que ontem anunciou sua retirada depois de ter obtido decepcionantes 5% dos votos.

O sucesso de Romney é ainda mais discutível se levarmos em conta a qualidade de seus adversários. Santorum é um completo desconhecido que há apenas uma semana não superava 4% nas pesquisas e ainda não chega a 10% em nível nacional. Paul é um "outsider" dentro do conservadorismo, que desperta simpatias por sua drástica oposição a qualquer presença do Estado na vida civil (seja previdência social, ajuda ao desemprego ou qualquer outro programa social), mas que é inviável como candidato porque seu extremismo libertário também o leva a condenar qualquer intervenção militar dos EUA no exterior, desde a Segunda Guerra Mundial até a do Afeganistão.

Santorum não é muito mais viável que Paul. Agrada aos conservadores, mas é tão conservador, sobretudo do ponto de vista da moral, que inclusive os muito conservadores têm dificuldade para imaginar como presidente um homem que educa em casa seus sete filhos por rejeitar os valores transmitidos nas escolas americanas.

Que dois personagens assim disputem contra Romney a vitória em Iowa diz muito sobre a situação atual do Partido Republicano, mas também sobre Romney. Simplesmente não é o candidato que as bases republicanas desejam e, sempre que podem, se agarram a qualquer outra opção que não seja ele, chame-se Santorum, Paul ou o quer que seja.

As primárias seguintes, na próxima terça-feira, serão em New Hampshire, um estado mais moderado onde a vitória de Romney é dada como certa. Veremos por que margem e em que condições. Mas depois vem a Carolina do Sul, território dominado pelos evangélicos e a direita religiosa. Será esse o momento de comprovar se Santorum mantém o impulso conseguido em Iowa ou alguém um pouco mais confiável como candidato presidencial fica com os votos conservadores.

Essa é a hora decisiva para Gingrich e talvez para Perry. Nenhum dos dois é uma garantia de juízo e de êxito. Perry, pelos constantes escorregões que sofreu nos debates eleitorais. Gingrich, por sua personalidade errática e imprevisível. Mas os dois conservadores que têm pela frente, Paul e Santorum, são tão excêntricos que fazem Gingrich e Perry parecerem sólidos estadistas.

O panorama não pode ser mais preocupante para o establishment republicano, para os dirigentes que fazem política no Congresso e que planejam o regresso à Casa Branca. Por onde quer que olhem, não têm outro candidato possível além de Romney, mas para elegê-lo é preciso trair o Tea Party e as ideias que alimentaram o Partido Republicano nos últimos três anos.

É previsível nos próximos dias uma onda de figuras republicanas dando seu apoio a Romney com a intenção de fortalecer sua candidatura. Contava-se que o último candidato presidencial, John McCain, compareceria ao lado dele antes das primárias de New Hampshire. Mas se adiantou e ontem ofereceu seu apoio a Romney.

Tudo isso pode ser útil para transmitir uma imagem de unidade que se exige com urgência. Mas não evitará que seja preciso ir às urnas, e aí o resultado ainda é imprevisível. Paul conseguiu mobilizar o voto jovem atraído por seu discurso pacifista e construiu uma ampla organização em New Hampshire. A saída de Bachmann evita certa dispersão do voto conservador, o que poderá ajudar Gingrich, Perry ou Santorum. Ainda há muitas incógnitas a resolver nesta campanha.

RICK SANTORUM, um conservador de verdade

Conhecido como um dos membros mais à direita do Congresso, Rick Santorum (nascido em Winchester, Virgínia, em 1958) se transformou no novo baluarte da causa conservadora nas primárias republicanas, depois de um inesperado sucesso nos cáucus de Iowa, nos quais ficou em segundo, a uma distância de apenas 8 votos do favorito, Mitt Romney. Santorum passou 16 anos no Capitólio (1991-2007), tentando tornar ilegal tanto o aborto quanto as uniões homossexuais. O centro de suas propostas legislativas foi a família tradicional, como instituição que a política deve proteger a todo custo. Esse foi o pilar fundamental de sua campanha para as primárias de 2012.

MITT ROMNEY. O candidato republicano perfeito

Embora os mórmons sejam normalmente muito conservadores em assuntos sociais (contrários ao aborto e ao casamento gay, por exemplo), Romney, que professa essa religião, foi governador de um dos estados mais progressistas dos EUA, Massachusetts, entre 2003 e 2007. Nesse cargo aprovou uma reforma da saúde muito semelhante à de Barack Obama, com cobertura universal, e não bloqueou a aprovação dos casamentos homossexuais. Esses dois assuntos foram um lastro considerável na pré-campanha. O fio central de sua campanha foi a economia, e se apresentou como um hábil empresário, capaz de acabar com a crise e criar empregos.

MICHELE BACHMANN atira a toalha

A congressista por Minnesota Michele Bachmann é a primeira baixa nas primárias republicanas para escolher quem disputará com Barack Obama as eleições presidenciais de novembro. Uma das maiores inimigas do presidente na Câmara dos Deputados em Washington, Bachmann conseguiu liderar as pesquisas no verão, depois de uma vitória banal nas eleições de orientação na localidade de Ames, em Iowa, em agosto. Nos cáucus de 3 de janeiro conseguiu um discreto sexto lugar, com 5% dos votos, apenas 6.073.

"Ontem à noite a população de Iowa falou com uma voz clara, por isso decidi me afastar das primárias", disse Bachmann em uma entrevista coletiva apenas 12 horas depois que se soube que havia ficado em penúltimo lugar entre os principais candidatos (à frente apenas de Jon Huntsman). "Mas ainda creio que é preciso revogar a reforma da saúde de Obama, mudar o rumo deste país e recuperar esta nação, e para isso devemos apoiar a pessoa que nosso partido escolher como líder."

A saída de Bachmann chegou ao mesmo tempo que Rick Perry, o governador do Texas, anunciava que ficaria para participar pelo menos das primárias da Carolina do Sul, que se realizarão em 21 de janeiro, as terceiras no calendário. Perry ficou em quinto nos cáucus de Iowa. Na noite anterior havia anunciado em um discurso que iria ao Texas "para reconsiderar as opções abertas". Não meditou essas opções nem 12 horas. "A parada seguinte na maratona é o Palmetto State [o apelido da Carolina do Sul]. Vamos para lá", disse Perry na quarta-feira em uma mensagem no Twitter.

"Em meu trabalho no Congresso defendi firmemente que a reforma da saúde de Obama põe em risco a própria sobrevivência dos EUA como nação. Soube que minha obrigação é garantir que a saúde socializada de Obama devia ser detida antes que entrasse em vigor, que era preciso revogar essa reforma nesta campanha única", disse Bachmann. "Desde o dia em que [Obama] tomou posse acreditei que as políticas socialistas de Obama desgastam os cimentos desta república e impedirão que nossos filhos vivam em liberdade."

Em sua despedida, Bachmann, que é evangélica, falou de religião, de Deus, do aborto e do casamento. Foram os grandes cimentos de sua campanha, construída sobre a defesa de valores tradicionais diante do que ela qualificou como um ataque laico da esquerda, liderado por Obama. Acompanhou-a seu marido, Marcus, um terapeuta famoso por ter tentado curar gays em sua clínica em Minnesota. Todos esses valores ultraconservadores conquistaram para a candidata a simpatia do Tea Party, que não lhe serviu para ganhar no primeiro encontro com as urnas este ano.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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