Saramago diz adeus a Granada

Fernando Valverde

Em Granada (Espanha)

  • Divulgação

    Escritor José Saramago beija a mão de Pilar Del Río

    Escritor José Saramago beija a mão de Pilar Del Río

Pilar del Río, viúva do Nobel português, abandona a fundação cultural criada em sua cidade natal e pede a retirada do nome do escritor

José Saramago gostava das árvores. Gostava de seu tato misterioso e também de sua memória, o modo como seu avô as abraçou quando pressentiu sua morte, aquela despedida tão cheia de sabedoria que brotou de um homem que não sabia ler nem escrever, mas que foi capaz de entender a vida e suas encruzilhadas.

No norte da província de Granada, sobre um rochedo distante do resto do mundo, encontra-se o povoado de Castril. O destino, o acaso, o amor, a literatura... todos devem ter contribuído para que o caminho de Saramago conduzisse de maneira irremediável àquele lugar. Hoje, muitos anos depois, se conheceram os motivos pelos quais esse caminho, além da morte do escritor, vai se transformar em um beco escuro.

A viúva de Saramago, Pilar del Río, artífice dessa estreita e frutífera relação entre o escritor e a localidade, comunicou sua saída do patronato da fundação (também integrado pela Universidade de Granada) e a retirada do nome de José Saramago. Ela o fez em cartas escritas por seu irmão, Jesús del Río, dirigidas ao presidente da câmara de deputados de Granada, Sebastián Pérez, e ao novo prefeito da localidade, Miguel Pérez Jiménez (PP). Na prática, as duas cartas são o certificado de óbito da fundação, embora tenha se tratado de uma morte intermitente que agora se concretiza.

"É desejo de Pilar del Río que se arbitrem os trâmites necessários para a mudança de denominação da Fundação Centro José Saramago, eliminando o nome do escritor, e que seja dada baixa como vocal do patronato da mesma", consta nas duas missivas, datadas de 21 de dezembro.

Os verdadeiros motivos da ruptura nem são ocultos nem edulcorados na carta redigida por Jesús del Río, que também é patrono da entidade. Depois de ser nomeado presidente da câmara provincial, Sebastián Pérez (PP) denunciou diferentes irregularidades na gestão da instituição por parte da equipe anterior de governo, do PSOE. Entre elas encontrava-se a fatura de um bufê que estava pendente de pagamento e que, segundo Pérez, foi oferecido como banquete depois do casamento do escritor com Pilar del Río. "É algo que não vale a pena nem desmentir. Qualquer um que conhecesse José sabe perfeitamente que isso não é verdade. Mancharam seu nome com uma mentira imperdoável", explicou Jesús del Río. Nas duas cartas enviadas se menciona "o mal-estar existente na família granadina de José Saramago e Pilar del Río diante das notícias falsas divulgadas por um alto responsável de sua instituição, relativas a faturas pendentes no seio do valor da Fundação Centro José Saramago no valor de 9 mil euros, sobre um suposto banquete de casamento."

Nas palavras da família, a câmara deveria ter entrado em contato com ela para dispor de "uma informação prévia e rigorosa" que tivesse evitado a "divulgação de falsidades e o dano à imagem de Saramago", concluem.

Dentre todas as árvores, Saramago gostava das frutíferas. Em Castril plantou uma cerejeira no dia em que inauguraram em sua honra o parque Pequenas Memórias. A poucos metros do seu encontra-se outro, chamado o Arvoredo Perdido, em homenagem a Rafael Alberti. Em pouco tempo, Castril, que foi sede do Festival Sete Sóis Sete Luas graças a Saramago, havia conseguido um prestígio cultural do qual vai se desfazer de um golpe.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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