A América Latina cresce, mas sofre

Salvador Camareña

A região vive longe dos EUA e da Europa, mas esteve marcada pela grave sangria no México e na América Central

Sem um papel de destaque na turbulência econômica internacional que vive o planeta desde o colapso do Lehman Brothers, os países da América Latina passaram o ano de 2011 longe dos problemas causados pelos turbilhões financeiros que açoitaram os EUA e a Europa, mas com sobressaltos próprios de antigos problemas de governabilidade, ataques do monstro da violência (particularmente na América Central e no México), o fantasma da fraude eleitoral na Nicarágua, a frustração diante da democracia que não chega a Cuba e as queixas das classes médias cansadas de desigualdade.

Nos números, e com o Brasil no pódio de honra, a região fecha o ano com um crescimento conjunto de 4,3%, segundo cálculos da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). A informação foi divulgada em 21 de dezembro, cinco dias antes que se soubesse que o Produto Interno Bruto brasileiro alcançou em 2011 US$ 2,4 bilhões, com o que deslocou o Reino Unido como sexta potência econômica mundial. Essas são as boas notícias. A ruim é que a Cepal calcula que a região se ressentirá mais da crise mundial em 2012 e o crescimento se reduzirá para 3,7%.

Mas o fato de as finanças não terem sido o tema pungente na região durante o ano passado não implica que diversas economias nacionais tenham feito os deveres para ficar longe da zona de perigo. A própria Cepal adverte que países como a Argentina passarão de um crescimento de 9% para um que poderá beirar apenas 4,8% em 2012. Os outros grandes da região perderão ritmo este ano: o Chile irá de 6,3% em 2011 para 4,2% em 2012; o México de 4% a 3,3%; o Peru de 7% para 5%; a Venezuela de 4,2% a 3%; e a Colômbia de 5,5% a 4,5%, sempre segundo dados da Cepal. O Brasil, por sua vez, passaria de 2,9% a 3,5% este ano. Boa notícia para a presidente Dilma Rousseff, que no primeiro ano de seu governo viu cair sete ministros, seis deles entre acusações de corrupção, mas sua imagem não se deteriorou porque as saídas foram consideradas um sinal de que a presidente está comprometida com a "faxina" da corrupção.

Apesar de a economia não ter sido o tema mais premente para os latino-americanos, em 2011 cada país da região teve de enfrentar diferentes escaramuças, que foram desde a grave sangria cotidiana em que se transformaram várias regiões do México e da América Central aos protestos que levaram o presidente Evo Morales da Bolívia a cancelar uma estrada (e que de passagem marcaram o surgimento de uma fissura entre o mandatário boliviano), passando pela revolta estudantil chilena iniciada em maio, que pôs em questão o orgulho da nação que é considerada a mais exemplar do subcontinente.

Uma revisão não estritamente geográfica de norte a sul dos fatos que marcaram o ano passado encontra o México mergulhado na confusão diante da incapacidade de todos para encontrar uma saída para o problema da violência dos grupos criminosos que se apoderaram de estados inteiros (Tamaulipas, Veracruz, Durango, Michoacán, Zacatecas e Guerrero) e que dominam caminhos e povoados de outros como Chihuahua, Sinaloa, Coahuila e Nuevo León.

Exatamente na capital desde último estado viveu-se um dos incidentes mais graves do ano, quando em 25 de agosto criminosos incendiaram um local de apostas em Monterrey, o Casino Royale, onde morreram 52 pessoas, na maioria mulheres. Algumas semanas depois, em 20 de setembro em Vera Cruz, 35 pessoas assassinadas foram atiradas em plena luz do dia em uma rua central do porto desse estado.

Em 6 de outubro o número se elevaria com a descoberta de outros 32 cadáveres também em Vera Cruz. Esse capítulo teve uma sequência em 24 de novembro, quando do outro lado do país, em Guadalajara, e no que se considera uma vingança pelos mortos em Vera Cruz, foram abandonados também em um cruzamento central da cidade os cadáveres de 26 pessoas.

Em meio ao imutável discurso oficial do presidente Felipe Calderón de que não havia nem há outra estratégia possível para combater os cartéis ligados originalmente ao narcotráfico, mas que hoje também estão envolvidos em extorsão, sequestro e tráfico de sem-documentos, surgiu este ano um movimento de vítimas liderado por um poeta cujo filho foi morto. Javier Sicilia conseguiu em 2011 que milhares de famílias que perderam um ser querido se mobilizassem em todo o país e reclamassem justiça e atenção.

O Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade foi uma verdadeira luz de esperança dentro da sombria onda de sangue provocada pelos cerca de 50 mil mortos e milhares de desaparecidos contabilizados de maneira extraoficial desde que Calderón começou esse embate em dezembro de 2006.

O problema da violência não se resume ao México. Em setembro, um escritório da agência de notícias Efe registrou as palavras de Heraldo Muñoz, diretor regional do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), que advertiu que a América Latina é a região mais violenta do mundo, com 23 assassinatos anuais para cada 100 mil habitantes. "Essa cifra é mais alarmante se olharmos por sub-regiões, como a América Central, com 44 homicídios por 100 mil habitantes. Hoje há mais mortos que durante o auge da guerra civil" em vários países centro-americanos.

Os dados do Pnud explicam que os militares sejam vistos hoje como a solução em países como Guatemala e Honduras. Os guatemaltecos elegeram em novembro passado Otto Pérez Molina, um general aposentado que assumirá a presidência em 14 de janeiro. E no final do ano o governo de Honduras, com o apoio de boa parte da sociedade, manobrou para que, diante da corrupção da polícia, os militares realizem os trabalhos de segurança e o combate aos cartéis das drogas. Também em El Salvador o presidente Mauricio Funes avaliou em novembro a possibilidade de recorrer a ex-militares para a pasta da Segurança.

Mas a violência não é o único estigma que continua vivo na América Central. As eleições na Nicarágua foram um catálogo de irregularidades próprias de tempos que se considerava superados. O sandinista Daniel Ortega será novamente presidente desse país, apesar de a jornada eleitoral ter sido marcada por indícios de fraude. "O dia 6 de novembro de 2011 será lembrado na história da Nicarágua como o dia em que se consuma o processo de regressão da transição democrática iniciada em 1990", escreveu o jornalista Carlos Salinas Maldonado alguns dias atrás. "Fazendo uso do controle total exercido no Conselho Supremo Eleitoral (CSE), o poder econômico garantido pela crescente ajuda dada por Hugo Chávez, aproveitando a fragilidade da oposição e com uma máquina que movimentou a fraude eleitoral mais descarada da história recente do país, Daniel Ortega conseguiu uma arrasadora vitória que deixaria mudos os ignominiosos funcionários da ditadura Somoza, que garantiam a continuidade do regime."

Carlos F. Chamorro, por sua vez, sentenciava em Confidencial.ni: "Apesar das denúncias nacionais de fraude e dos graves questionamentos dos observadores internacionais, constitui uma nova modalidade de golpe de Estado consumado pelo poder. Trata-se de um grave precedente na América Latina que coloca a OEA em um dilema insolúvel".

Haverá eleições presidenciais este ano no México e na Venezuela. No primeiro país é notícia a vantagem nas pesquisas do candidato do PRI, partido que governou durante 70 anos e cujo autoritarismo com gestos eleitorais foi tão bem definido por Mario Vargas Llosa como "a ditadura perfeita". A notícia no segundo caso é que a oposição venezuelana voltou a ter esperanças, surgidas mais de uma renovada vitalidade ao ter cinco caras novas disputando a candidatura que enfrentará o presidente Hugo Chávez, atingido pelo câncer em 2011. Eles são os governadores Pablo Pérez e Henrique Capriles, a deputada María Corina Machado, o ex-prefeito Leopoldo López e o diplomata Diego Arria.

A coalizão Mesa da Unidade Democrática escolherá em 2 de fevereiro o candidato de oposição que disputará em 7 de outubro a presidência com Chávez.

Sobre a saúde do presidente venezuelano, como se discutiu amplamente em 2011, pouco se sabe, exceto que a partir de junho foi tratado em Cuba e que ele declarou que está livre do câncer e pronto para continuar no governo. A péssima situação na Venezuela, que sobrevive a uma criminalidade sem freio e sob um governo definido pelo analista Andrés Oppenheimer como "narcisista-leninista", faz que a oposição abrigue esperanças de que seu tempo chegou.

Enquanto aguarda o dia da eleição, Chávez pode se gaba de que tentou no ano passado a consolidação da Comunidade de Estados Latino-americanos e do Caribe, a Celac, um novo mecanismo regional que exclui EUA e Canadá e em cujo futuro poucos acreditam. Mas também se poderá dizer que conseguiu normalizar plenamente as relações com Juan Manuel Santos, o presidente da Colômbia. Em sua visita a Caracas no final de novembro, Santos foi recebido com a surpresa de que tinha sido detido Maximiliano Bonilla Orozco, conhecido como o Valenciano, um dos criminosos mais procurados pela polícia colombiana. A notícia arrematava o bom ano de Santos, que conseguiu no início de dezembro dar um golpe de grande calado nas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, com a morte de Alfonso Cano, comandante máximo das Farc, que caiu em uma operação de militares colombianos.

As Farc responderam três semanas depois, ao assassinar quatro de seus mais antigos reféns, três policiais e um sargento, mortes que encheram de indignação a Colômbia. Dez dias o país depois rejeitou com uma jornada de protesto pacífico em muitas cidades a violência das Farc. Ao encerrar o ano, Santos (que conseguiu ratificar o Tratado de Livre Comércio com os EUA que era negociado havia cinco anos) pôde informar a seu país que na Colômbia se registra o índice de assassinatos mais baixo em 27 anos.

Por sua vez, os presidentes da Bolívia e do Equador enfrentarão durante este ano questionamentos que já fazem parte de sua biografia do poder, termo usado por Enrique Krauze. Em 2011 o presidente Evo Morales enfrentou um dos maiores protestos desde que chegou ao poder em 2006 e que marcou um antes e um depois com relação à sua base de apoio. Um grupo de indígenas da Amazônia boliviana marchou durante 66 dias, resistindo inclusive à repressão policial, em protesto contra a construção de uma estrada que atravessaria o Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS). Morales foi obrigado a decretar em setembro não só a suspensão do projeto, como a emitir um mês depois uma lei que impede qualquer construção semelhante nessa região.

Enquanto isso, a gestão do presidente Rafael Correa foi criticada internacionalmente por sua querela contra o jornal "El Universo". O presidente equatoriano foi aos tribunais por causa de uma coluna jornalística relativa aos fatos de 30 de setembro de 2010, quando seu governo enfrentou uma revolta policial. O governante acredita que foi injuriado nessa tribuna. Quatro diretores do jornal foram condenados em julho à prisão e a uma multa de US$ 40 milhões. O caso provocou críticas de organismos de defesa da liberdade de expressão como a Sociedade Interamericana de Imprensa.

O analista Moisés Naím revisou com pontualidade como o Chile, uma sociedade acostumada há anos a um lugar tranquilo nos rankings que medem o desenvolvimento, protagonizou os protestos mais prolongados (oito meses) e que puseram em dificuldades o governo e a oposição, que não souberam articular uma resposta que satisfaça aos estudantes que exigem mudanças no modelo universitário chileno. Liderados por Camila Vallejo, uma estudante de geografia de 23 anos, milhares de chilenos exigiram que o custo da educação superior não termine asfixiando as famílias.

Segundo Naím, parte do protesto surge porque o Chile veio abatendo a pobreza (nos anos 1980 era 45% da população e hoje representa 14%), com o que se abre uma agenda de reclamações da classe média: "O Chile é o país latino-americano onde a percepção do progresso que as pessoas têm sofreu a maior diminuição. Também é o país onde mais caiu a satisfação com a maneira como está funcionando a democracia e há uma forte queda do apoio dos chilenos a seu modelo econômico", escreveu Naím em novembro.

Agora se abrem incógnitas em torno de dois governos: o de Cuba e o do Peru. O presidente Raúl Castro decepcionou ao finalizar o ano, quando não cumpriu os prognósticos que falavam que a série de mudanças empreendidas ao longo do ano incluiria a esperada reforma migratória. A libertação de 2.900 presos condenados por crimes menores - um "gesto humanitário" diante da visita do papa a Havana em março próximo - representou mais uma frustração.

A outra incógnita é representada pelo presidente peruano, Ollanta Humala, cuja administração incipiente - assumiu em 28 de julho de 2011 - ainda não dá mostras de qual será o tom que imprimirá a seu governo, que foi qualificado nas últimas semanas como um que vive uma virada para a direita. O presidente Humala enfrentou nesta primeira etapa de seu mandato um problema pela rejeição a um milionário complexo de mineração na região de Cajamarca, que o obrigou a declarar estado de alerta. Diante do protesto dos habitantes da região, o presidente mudou de chefe de gabinete. Isso é interpretado como um sinal de que, embora para ganhar a presidência tenha moderado seu discurso de esquerdista radical, talvez o pêndulo tenha virado para o outro extremo.

Finalmente, na Argentina se soube em 27 de dezembro que a presidente Cristina Fernández de Kirchner sofre um câncer de tireoide. Os prognósticos são otimistas, mas a notícia chega em um dos momentos mais críticos para ela, que depois de jurar de novo o mandato em 10 de dezembro reavivou seu confronto com os grandes grupos de mídia e com a poderosa Confederação Geral do Trabalho. Vários analistas acreditam que a Argentina terá de passar por um ajuste econômico mais cedo ou mais tarde se quiser seguir a boa marcha dos últimos anos.

A presidente, que ganhou com mais de 54% dos votos e tem o controle das câmaras legislativas, fez aprovar em dezembro uma agenda de leis que inclui duas que causaram polêmica: uma através da qual o governo, que participa da empresa Papel de Prensa, da qual são coproprietários o grupo Clarín e o jornal "La Nación", intervirá e regulará a venda de papel para os jornais, ao declarar de interesse nacional a produção, comercialização e distribuição do principal insumo de jornais e revistas. A outra lei que provocou críticas, inclusive das Avós da Praça de Maio, é contra a lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo, que é considerada vaga demais.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos