As crises da França e da Europa marcam a corrida eleitoral para o Eliseu

Miguel Mora

Em Paris (França)

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    Nicolas Sarkozy e Carla Bruni falam com crianças durante festa de Natal na sede do governo francês

    Nicolas Sarkozy e Carla Bruni falam com crianças durante festa de Natal na sede do governo francês

Os socialistas têm mínima vantagem para voltar à presidência

A França, segunda economia da zona do euro, começou 2012 com todos os alarmes acesos. A economia está estagnada e a ponto de entrar em recessão; o desemprego, histórico, afeta 2,8 milhões de pessoas, e o triplo A que protege sua dívida de 1,7 bilhão de euros continua ameaçado pelas agências de classificação. O país vai atrair durante boa parte do ano a atenção dos investidores e o foco político. Em 22 de abril será o primeiro turno, e em 6 de maio o segundo das eleições presidenciais que deverão escolher o sucessor ou prolongar por cinco anos o mandato de Nicolas Sarkozy. E em julho serão realizadas as legislativas que determinarão se haverá a anunciada virada à esquerda ou um lustro de coabitação incerta.

As presidenciais começaram a ser disputadas sobre dois temas fundamentais, unidos pela urgência de enfrentar duas crises paralelas, a nacional e a continental. Às tempestades europeias, nas quais o ativismo de Sarkozy é uma constante mais de efeito que efetiva, somam-se a necessidade de consolidar as contas públicas (em déficit permanente desde 1975) para poder manter a elefantina administração e o eficaz modelo social.

O duplo desafio é formidável, e os socialistas enfrentam a corrida na cabeça, talvez porque por enquanto não falaram em tocar no Estado do bem-estar e quase não apresentaram propostas concretas. O mesmo fez Sarkozy, antepondo a ação às promessas. O jornal "Le Monde" dizia sábado (7) que o vírus inoculado pela vitória de Mariano Rajoy na Espanha, sem prometer nada em concreto e arriscando o mínimo possível, contaminou a campanha francesa.

A diferença é que as pesquisas anunciam uma batalha um pouco mais cerrada. O líder do Partido Socialista, François Hollande, mantém uma ligeira vantagem de 3 ou 4 pontos sobre Sarkozy no primeiro turno, e uma cômoda distância de mais de 10 no segundo. O mal-estar com a gestão do presidente que em 2008 prometeu refundar o capitalismo parece muito profundo, embora não tanto como o que varreu o governo socialista na Espanha. Sarkozy obteria 25% dos votos, apesar do sentimento de repulsa que geram seu populismo hiperativo e seu desinibido estilo comunicativo, que muitos franceses consideram vulgar e indigno de um presidente da República.

Apesar de tudo, o chefe de Estado não sente a faca da crise tanto quanto outros líderes europeus, talvez porque as presidenciais sejam vistas como uma designação monárquica que não pertence totalmente ao mundo real. Hollande, um candidato sem carisma especial e pouca ideologia, apelidado de Senhor Normal, viveu alguns meses como Rajoy, mas começou o ano colocando carvão na máquina para tentar ressuscitar o crédito obtido com sua vitória nas primárias de setembro. Esta semana, em uma carta aberta e em seu primeiro grande comício, Hollande afirmou que, sob Sarkozy, a França foi "humilhada, debilitada, prejudicada e degradada".

O aspirante do "rassemblement" (reunião) confia sobretudo no cansaço da população por seu rival como motor de sua vitória. Mas a direita o pinta como um político frágil e vulnerável, e confia em que suas dúvidas sobre a reforma das aposentadorias e o novo tratado europeu, que Hollande prometeu renegociar, serão aproveitadas por Sarkozy em um provável cara-a-cara final.

O problema do inquilino do Eliseu é que luta não só contra seu desgaste pessoal e contra um candidato de borracha que não causa medo por ser esquerdista demais, senão contra dois ossos duros de brigar. No centro, o democrata-cristão François Bayrou, hoje o político melhor avaliado no país, supera 10% nas pesquisas; e na extrema-direita, Marine Le Pen mantém 18% de apoio e é a adversária direta de Sarkozy, obrigado a fazer equilibrismos para reparar os desastres europeus e ao mesmo tempo seduzir o eleitorado antieuropeísta da Frente Nacional.

Alguns analistas não descartam que, se tudo correr pior nos primeiros meses e Bayrou continuar captando descontentes de centro, a Frente Nacional possa passar ao segundo turno. Parece difícil, mas um panorama com aumento do Imposto de Valor Agregado, degradação da nota de crédito, recessão e cortes orçamentários alimentaria o medo e o reflexo antissistema da chamada "França do não", que derrubou a Constituição Europeia no referendo de 2005.

Le Pênis propõe sair da moeda única e da UE, um disparate com que fantasia um quinto da população. A triste realidade é que sua receita é o único programa concreto que se oferece ao eleitor, diante da melíflua indefinição de Hollande e do funambulismo amparador de Sarkozy. Mas, se a prudência se impõe, o lógico seria que os socialistas voltem ao Eliseu pela primeira vez desde François Mitterrand. Mesmo que seja copiando a técnica de Rajoy.

A Fundação Bruni sob suspeita

Como todas as primeiras-damas francesas, Carla Bruni, a mulher de Nicolas Sarkozy, tem uma fundação privada a seu serviço. A Fundação Carla Bruni-Sarkozy, aberta pela cantora em 2009 depois da morte de seu irmão de Aids, entrou de cheio no olho do furacão da campanha presidencial. A revista "Marianne" publicou na sexta-feira que a entidade criada por Bruni ganhou 2,7 milhões de euros de dinheiro público do Fundo Mundial contra a Aids sem cumprir os requisitos legais, e afirmou que parte desses fundos chegaram às empresas do músico e empresário Julien Civange, amigo de Bruni e assessor da fundação e que, segundo a revista, tem escritório próprio no Palácio do Eliseu.

Bruni desmentiu no sábado através de uma nota que tenha cometido qualquer ato ilegítimo e qualificou a informação de imprecisa e enganosa. Explicou que sua fundação "jamais recebeu dinheiro público" e acrescentou que a entidade desenvolve uma atividade normal e tem conta bancária, contabilidade própria e existência jurídica real. Segundo "Marianne", a fundação teria permanecido inativa nestes dois anos. Bruni replica que se trata de uma entidade dedicada a redistribuir tarefas.

O Fundo Mundial contra a Aids, por sua vez, explicou que dedicou 2,2 milhões de euros de seu orçamento ordinário "para financiar uma campanha lançada em 2010 pelo fundo com o apoio de Madame Bruni-Sarkozy", que era embaixadora do mesmo. O desmentido confuso também matiza que os contratos assinados com as empresas de Civange, entre outras coisas para criar o site Carlabrunisarkozy.org, "respeitaram as regras e procedimentos estritos do Fundo Mundial". Este afirma que não entrou "um centavo" na Fundação Carla Bruni, mas reconhece que pagou a Civange e outros quatro colaboradores dele 580 mil euros para codirigir uma campanha de sensibilização contra o contágio da Aids de mães para filhos.

A revista "Marianne" também afirma que o assunto, conhecido pelo Conselho de Administração do Fundo Mundial em novembro de 2011, custou caro ao embaixador francês Patrice Debré, que foi destituído por Sarkozy. Além disso, o diretor-geral do Fundo Mundial, Michel Kazatchkine, também foi descartado a pedido da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, embora sua demissão tenha sido adiada, segundo "Marianne", para 21 de maio de 2012, isto é, "depois das presidenciais".

Interrogada pela agência Reuters, uma fonte do Fundo Mundial afirmou que essa decisão não tem relação com o descrito no artigo. O que parece certo é que a sombra do escândalo e o assessor com escritório no palácio seguirão Sarkozy na campanha.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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