Vitória de Donald Trump dá esperanças aos partidos de extrema-direita europeus

María R. Sahuquillo

  • Eric Thayer/The New York Times

Partidos de extrema-direita como a Frente Nacional francesa ou o Alternativa para a Alemanha comemoram a vitória do magnata republicano

A conquista da Casa Branca por parte do republicano Donald Trump pode servir de inspiração para forças antissistema de esquerdas que, embora tenham se mantido basicamente em silêncio a respeito de sua vitória, podem ver com enorme interesse o caso dos americanos e como estes elegeram o candidato que se apresentou como alguém que combate as elites, que se opõe aos tratados de livre-comércio —como o acordo TTIP com a UE e o Transpacífico— e defende ideias, como a de que não se cortem as aposentadorias, que alguns republicanos consideram excessivamente puxadas para a esquerda. E tudo isso em uma campanha na qual um veterano socialista, como o democrata Bernie Sanders, teve um grande apelo.

Dentre os partidos que nasceram ou cresceram devido ao descontentamento, praticamente o único que se pronunciou foi o comediante italiano Beppe Grillo, fundador do partido antiestablishment Movimento 5 Estrelas (M5S), que afirmou, taxativo, que a vitória do republicano era "uma impressionante banana". "Trump mandou todos à merda: maçons, grandes bancos, chineses", disse em um vídeo postado em seu blog. Nele ele também ressalta que há semelhanças entre o que ocorreu nos Estados Unidos e o M5S, sobretudo no tratamento recebido pela grande mídia, que não soube ver seu êxito até que este se tornou realidade.

Por enquanto, o que aconteceu com o magnata nova-iorquino já pressupõe uma ótima notícia para a Frente Nacional (FN)—o partido que canaliza na França todos esses sentimentos antiestablishment—e dá esperanças à sua líder, a ultradireitista Marine Le Pen, em suas aspirações de chegar ao Palácio do Eliseu. "Parabéns ao novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao povo americano, livre!", escreveu logo cedo de manhã a presidente da FN pelo Twitter. Le Pen, que está em pré-campanha para as eleições presidenciais da próxima primavera, e que passará para o segundo turno segundo todas as pesquisas, está recebendo do outro lado do Atlântico o incentivo que se soma ao que já recebeu em junho com o Brexit, informa Carlos Yárnoz.

Em toda parte, os movimentos de inspiração ideológica semelhante à do republicano —que avançam a passos largos na Europa— comemoraram sua vitória. Já é possível sentir seu estímulo no partido xenófobo holandês de Geert Wilders, bem colocado para as eleições do próximo ano —"O povo está recuperando seu país. Nós também faremos isso", ele diz— e no Alternativa para a Alemanha (AfD), que se apressaram para apontar que o caso dos Estados Unidos é um alerta para todo o establishment. "Os americanos optaram por um novo começo e contra a corrupção. Essa é uma oportunidade histórica", tuitou a copresidente do partido, Frauke Petry. "A esquerda política e a intricada elite estão sendo punidas mais uma vez nas urnas pelos eleitores. Isso é bom, porque o direito está nas mãos do povo", assinalou por sua vez Heinz-Christian Strache, líder do ultraconservador Partido pela Liberdade da Áustria (FPÖ), que lidera as pesquisas de intenção de voto para as eleições de dezembro.

Recuo nacionalista

Também na Itália, o principal líder do partido de extrema-direita Liga Norte, Matteo Salvini, ressaltou que a vitória de Trump pressupõe "a revanche do povo" contra os banqueiros, os especuladores, os institutos de pesquisa e os jornalistas. "Depois de Trump será a vez de nossos aliados europeus. Holanda, Áustria, Alemanha, França", alertaram. Enquanto isso, para os neonazistas gregos do Aurora Dourada, a vitória do republicano é "uma vitória para as forças que se opõem à globalização, lutam contra a imigração ilegal e são a favor da limpeza étnica dos Estados."

Trump recebeu durante toda a campanha mensagens de apoio de líderes populistas europeus que compartilham não somente de seu discurso xenófobo, favorável a um recuo nacionalista e contrário à globalização; mas também de sua retórica e às vezes de seus modos que beiram a violência. Como o ultraconservador primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, com seu agressivo discurso contra a imigração, que ontem se mostrou eufórico. "A democracia ainda está viva", disse no Facebook. Ou ainda o britânico Nigel Farage, fundador do eurófobo UKIP e um dos principais responsáveis pela vitória da saída do Reino Unido da União Europeia, que comentou que o Brexit e a eleição de Trump fizeram deste 2016 "o ano de duas grandes revoluções."

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