Quem é a única americana na lista de terroristas mais procurados pelo FBI?

Pablo de Llano

  • AP

    Imagem divulgada pela polícia mostra Assata Shakur

    Imagem divulgada pela polícia mostra Assata Shakur

No auge de seu discurso na sexta-feira (16) em Miami, Donald Trump começou a proclamar suas exigências a Cuba --"Libertem os presos políticos!", "Parem de prender inocentes!", "Abram-se para as liberdades políticas e econômicas!", "Devolvam os fugitivos da Justiça americana!"-- e acrescentou entre vivas: "Incluindo o retorno de Joanne Chesimard, assassina de um policial!".

Três dias depois, na segunda-feira (19), o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez, respondeu-lhe em uma entrevista à imprensa em Viena (Áustria) que "os que lutam pelos direitos civis nos EUA [asilados por Cuba], é claro, não serão devolvidos".

O número de fugitivos americanos abrigados na ilha não é conhecido com certeza. Na falta de uma cifra oficial, os meios de comunicação dos EUA falam em cerca de 70. Entre eles destaca-se Joanne Chesimard --nome de casada e de fugitiva--, nascida Joanne Byron em uma família negra de Nova York em 1947. Ela adotou nos anos 1970 seu nome de guerrilheira urbana pelos direitos dos negros, Assata Olugbala Shakur, que hoje, aos 69, ainda usa com orgulho em sua vida sigilosa em Cuba.

Ela é protegida pela inteligência cubana, atenta a qualquer caçador de recompensas estrangeiro ou local que se atreva a tentar capturá-la para levá-la em uma lancha rápida e em algumas horas entregá-la ao FBI na costa da Flórida. As autoridades dos EUA oferecem US$ 2 milhões pela fugitiva.

Shakur, curiosamente, nasceu na mesma área de Nova York que Donald Trump, o extenso bairro de Jamaica, hoje habitado por mais de 200 mil pessoas e onde naquela época negros e brancos moravam em áreas separadas. Joanne veio ao mundo um ano depois de Donald nesse bairro, mas só ficou lá até os 3. Com o tempo, seus destinos foram extremamente divergentes. Ele, magnata dos imóveis e presidente dos EUA; ela, a única mulher americana que entrou na lista dos terroristas mais procurados pelo FBI.

Seu rosto sorridente com cabelos afro aparece ao lado de cérebros do mal mundiais, como Aiman al Zawahiri, o sucessor de Bin Laden à frente da Al Qaeda, ou o de outro americano, Daniel Andreas San Diego, 39, acusado de pôr bombas com um grupo extremista defensor dos animais e sobre quem o FBI indica: "Conhecido por seguir uma dieta vegetariana".

Shakur foi condenada à prisão perpétua pelo assassinato em 1973 de um agente em uma revista policial do carro em que estava com mais dois membros do Exército de Libertação Negra, uma dissidência armada dos Panteras Negras. Em 1979, ela fugiu da prisão com a ajuda de seus comparsas e depois de passar cinco anos escondida nos EUA conseguiu chegar em 1984 a Cuba, talvez através das Bahamas, segundo mencionou em 1987 a publicação "Newsday" em uma entrevista na qual Shakur não deu pistas sobre seu intrigante salto para as Antilhas. O jornalista que a entrevistou a descreveu em um apartamento modesto, vestida com uma camiseta de Malcolm X e acompanhada de um funcionário do Partido Comunista.

Em Cuba, estudou ciências sociais na escola superior do partido, escreveu sua autobiografia e criou sua filha, Kakuya, que hoje vive nos EUA e tem um filho chamado Che Shakur, em homenagem ao guerrilheiro argentino e a sua avó.

O nome Shakur --"bem-agradecido", em árabe-- foi utilizado por vários membros do extremismo negro em Nova York, entre outros por sua amiga Afeni Shakur, mãe do rapper Tupac Shakur, assassinado em 1996. Tupac, afilhado de Assata, homenageou-a em sua canção "Palavras de Sabedoria", na qual diz: "Assata Shakur, pesadelo da América".

Enquanto passa a vida em Cuba, onde mantém um perfil discreto, nos EUA é, apesar de seu passado violento, uma lenda entre setores do movimento negro, reavivado nos últimos tempos pelos casos de assassinatos de afro-americanos por policiais. A intelectual Angela Davis, ícone da luta antirracista, definiu-a como "um ser humano compassivo e com um compromisso de justiça inabalável". Em 1998, Shakur divulgou uma carta na qual se qualifica como "uma escrava fugida do século 20".

A relação entre o movimento negro e Cuba remonta à famosa visita de Fidel Castro ao Harlem [Nova York] em 1960. A revolução cubana levava o mérito de ter abolido por decreto o racismo na ilha --apesar de o racismo, contumaz, continuar vivo hoje em Cuba--, e o barbudo triunfal sintonizava com os radicais negros. Nos anos 1960 passaram por Havana figuras desse movimento, como a própria Davis, o escritor Eldridge Cleaver ou o cofundador dos Panteras Negras, Huey Newton.

A intervenção do Exército cubano nas guerras africanas de descolonização nos anos 1970 e 80 reforçou a ligação castrista com os grupos de libertação negra. Acrescentando ao coquetel o ódio entre Havana e Washington, explica-se que a ilha se tornasse um refúgio de fugidos dos EUA, não só de ativistas, como também de um leque variado de foragidos.

Outro asilado é Charlie Hill, 67, acusado de assassinar um policial em 1971 e que chegou à ilha a bordo de um avião que sequestrou nos EUA. Em sua época militou na República da Nova África, cujo propósito era fundar uma nação negra nos Estados do sul dos EUA.

Em uma entrevista publicada no ano passado pela revista "El Estornudo", conta-se que Hill não se arrepende da morte do agente. Hoje é um adepto da "santería" [religião afro-cubana] e procura turistas por Havana para servir como guia. Hill afirmou à publicação que não tem contato com Shakur e avisou que ela é a "rainha do disfarce". Meses atrás, ao que parece, a havia encontrado. "Assata lhe fez um sinal de cumplicidade", relata o artigo.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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