Como é a rotina das salas públicas usadas para consumo de drogas na Europa?

Álvaro Sánchez López

  • Patrick Kovarik/ AFP

    11.out.2016 - Movimentação na sala de consumo de drogas de Paris no dia de sua inauguração

    11.out.2016 - Movimentação na sala de consumo de drogas de Paris no dia de sua inauguração

Falta uma hora para abrir, mas em torno do Hospital Lariboisière de Paris há muita impaciência. Um homem toca insistentemente o telefone interno para perguntar quanto falta, outro trepa e olha sobre a porta metálica. Um terceiro a golpeia com a mão aberta. Não adianta. É sábado, e a "narcossala" da Estação do Norte, aonde todos os dias 160 dependentes de drogas vão para se injetar uma dose de heroína, morfina e outras substâncias, só abrirá às 13h30.

Tony sabe disso, e diferentemente de seus companheiros de vício desesperados, espera sentado sozinho em uma esquina, pedindo cigarros a todos os que passam na sua frente. Com 33 anos, boné virado para trás, olheiras cinzentas e corpo magro, mas não demais, há sete anos ele se injeta skénan, um medicamento à base de morfina que causa furor na área. De vez em quando também heroína. Acredita que abrir a sala de consumo supervisionado foi uma grande ideia. "É limpa, e sempre há alguém vigiando. Você faz o que quer tranquilamente", resume. Nada a ver com os banheiros públicos sujos ou os estacionamentos escuros onde ele se drogava antes.

Esse tipo de instalação aumentou nos últimos anos na Europa, onde o número beira 90 salas distribuídas por oito países: Alemanha, Dinamarca, Espanha, França, Luxemburgo, Holanda, Noruega e Suíça. Este último foi o país pioneiro ao abrir um local em Berna há 30 anos, que continua em funcionamento. As duas últimas salas foram abertas na França no outono passado, em meio a polêmica. Foram as primeiras autorizadas pelo governo.

Perto da narcossala de Paris, há vários cartazes pendurados nos balcões dos prédios. Dois deles pedem para assinar um abaixo-assinado online para sua transferência. Outro pede seu fechamento. No restaurante em frente, também não estão contentes. "Algumas pessoas se mudaram. Antes já havia consumo, mas agora eles vêm de outras áreas de Paris. Sempre há problemas. Pedem dinheiro e cigarros aos clientes."

Também há quem discorde: "Não notei que haja mais agressões que antes", diz Robert, 91 anos, morador do edifício onde há uma mensagem pendurada. Apesar de tudo, ele é cético sobre as salas: "Não servem para nada, nós os vigiamos, mas não os curamos".

Patrick Kovarik/ AFP
Material para injeção em uma sala de consumo de drogas de Paris

Os choques com os moradores são habituais quando se tenta abrir um centro desse tipo. Um dos episódios mais tensos ocorreu em Barcelona (Espanha) em 2005, quando os manifestantes bloquearam o tráfego e intimidaram usuários e pessoal da saúde. O especialista espanhol Xavier Ferrer adverte contra a síndrome do Flautista de Hamelin, de cidadãos que embora não rejeitem a ajuda a querem longe de casa. "O porto deve ser construído onde está o mar", raciocina. E o mar, em Paris --pelo menos um deles-- está nas imediações da Estação do Norte, onde há anos, muito antes da narcossala, os passadores abasteciam os viciados.

Em Estrasburgo (nordeste da França), a última a abrir, não houve ruído da vizinhança. Seu perfil é diferente do da capital. Há menos frequência, cerca de 25 pessoas por dia. E seus hábitos e tipo de consumidor são diferentes: eles se injetam principalmente cocaína e há mais mulheres, explica seu responsável, Daniel Bader. Assim como aconteceu em Paris, sua implementação teve uma longa espera até a aprovação de uma lei que autorizou sua abertura durante um período de teste de seis anos.

"O consumo na rua era muito visível, mas mesmo assim demorou por falta de vontade política e de informação para o grande público. Há muitos fantasmas associados à droga", lamenta Céline Debaulieu, responsável pela associação Gaia, que administra o local de Paris.

Algumas salas ajudam, mas não são a panaceia. As organizações sociais criticam que a região parisiense, com mais de 10 milhões de habitantes, continue tendo um claro déficit em relação a seu tamanho.

A narcossala tem 12 lugares para injetar-se, contra 29 em Hamburgo ou 37 em Frankfurt (ambas na Alemanha), com populações muito inferiores. Os resultados que confirmam a necessidade de abrir outras estão aí: "Em oito meses houve 50 mil consumos na sala e não em lugar público", explica Debaulieu.

Em Bruxelas (Bélgica), a 300 km ao norte de Paris, as associações lutam para ter locais semelhantes, proibidos no país por uma lei que data de 1921. Enquanto isso, levam a ajuda em domicílio. Christopher Collin rasga o plástico e o esvazia sobre a mesa de seu escritório. Explica cada elemento: a colher estéril, a ampola de água destilada, a seringa descartável, a tira elástica para ajudar a encontrar a veia. A toalhinha embebida em álcool para desinfetar o braço antes da picada.

Collin não foi toxicômano, mas conhece o processo. Duas vezes por semana, ele mergulha no submundo da capital belga com outros membros do coletivo Dune para distribuir um kit com material para evitar doenças como Aids ou hepatite. Ele diz que faz isso para cobrir o vazio deixado pelas autoridades, que acusa de tratar o problema como uma questão de segurança, e não de saúde. "O fenômeno do consumo de drogas a céu aberto aumentou em Bruxelas, essencialmente com a heroína. Fecharam casas ocupadas e as pessoas ficaram sem lugar", explica.

Em Paris, Tony não tem mais esse problema. Duas ou três vezes por semana, senta-se na esquina das ruas Maubeuge e Ambroise Paré para esperar o novo "pico". Nascido em 1983, quando criança queria ser soldado das forças especiais, porque adorava os filmes de ação. Ainda mora com seus pais, que acreditam que ele esteja se tratando do vício com metadona. Os 450 euros (cerca de R$ 1.700) que recebe do governo não são suficientes para alimentar o vício, e ele admite que já roubou seus pais algumas vezes. "Foi pouco dinheiro. Nunca levei a televisão nem nada parecido", desculpa-se.

Tudo começou no dia em que fumou crack em uma casa ocupada. Alguém lhe ofereceu para injetar-se skénan para tirar o mal do corpo. Ele tentou, mas não conseguiu parar. Em suas palavras só há derrota. "Sinceramente, sei que é possível parar, mas é preciso ter vontade de verdade. O corpo inteiro dói. Uma dor verdadeira. Calafrios. Quando me contavam isso, eu pensava que fosse exagero, que inventavam filmes, mas sem isso eu não durmo. Entro em curto-circuito."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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