15/05/2004

Gilberto Gil considera "irreversível" o avanço da música latina

Ministro brasileiro participa de fórum cultural em Barcelona como político e músico

Miquel Jurado
Em Barcelona


Gilberto Gil, um dos ícones da música brasileira dos últimos 40 anos, chegou ao fórum em seu duplo papel de ministro da Cultura de seu país e de cantor. Como político e pensador participou ativamente dos diálogos programados, e, como músico, atuou ontem no cenário da Marina, dentro do recinto do fórum, apresentando um concerto antológico de sua obra que repete hoje no mesmo local.

"É preciso compartilhar a memória dos povos para conseguir uma cultura de paz para a humanidade." Com essas palavras, Gilberto Gil resumiu sua participação nos diálogos do fórum antes de mostrar-se feliz por também poder cantar no evento.

"Desde que sou ministro, são muito raros os momentos em que posso cantar, e tenho muita vontade. Meu compromisso com o presidente Lula e com o povo brasileiro foi o de dedicar-me com preferência ao ministério e deixar a canção como algo residual, e assim foi; apresentei-me muito pouco nesses últimos 15 meses. São dois modos muito diferentes de canalizar a energia, e é importante ter isso muito claro porque muito raramente posso ser ministro e cantor ao mesmo tempo."

O último espetáculo produzido por Gilberto Gil antes de se envolver na política foi dedicado à figura de Bob Marley, mas em seus dois concertos em Barcelona preferiu apresentar uma antologia de sua obra.

"Canções que tratam da dimensão mais pessoal dos indivíduos, da natureza humana, da vida e da morte", explica. Vestido elegantemente, mas mantendo sua habitual proximidade e seu sorriso expansivo, Gil mistura habilmente suas facetas ministerial e artística.

"Todos conhecemos o valor universal da música, mas atualmente a música se transformou em um bem comercial e entrou no mercado da concorrência entre fortes e fracos. Um mercado dominado pelos que têm línguas hegemônicas, como o inglês. A relação entre a arte e a indústria é muito complexa, porque depende dos movimentos gerais da economia mundial. Aí temos de defender um comércio mundial mais justo, ao qual não se chegará sem a participação de todos. O caminho também passa por fortalecer a indústria cultural das culturas periféricas, conseguir que sejam mais competitivas. O esforço deve ser global, nunca poderia ser específico para a música."

Sobre esse ponto, e com ar mais ministerial, Gil fala da necessidade de criar políticas compartilhadas entre os ministérios de Turismo, Comércio e Cultura: "queremos conseguir uma política governamental de proteção da diversidade cultural brasileira e estudar vias para aumentar sua promoção no resto do mundo. Estamos estudando a criação de uma agência nacional do audiovisual que garanta a proteção dos conteúdos brasileiros".

Apesar de falar na necessidade de proteção para a música brasileira, o fato objetivo é que se trata de uma das mais difundidas do mundo. "O avanço da música latina é irreversível", afirma Gil. "A força, o calor, a paixão e as cores tropicais são as bases da música latina, na qual também incluiria o reggae".

Em momentos como o atual é inevitável que não surja o tema da guerra do Iraque. "É claro que sou contra a guerra. O Brasil sempre foi contra essa guerra", afirma com expressão muito mais séria. "Tudo o que no início muitos dissemos que aconteceria está acontecendo. As coisas foram degenerando notadamente e de forma visível e noticiada pela imprensa. Confirmou-se o receio inicial de que uma guerra só poderia piorar as coisas."


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves Visite o site do El Pais



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