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13/02/2007

Ópera, palco aberto para o barulho e o drama

Financial Times
Por toda a Europa, este promete ser um fim de semana ruidoso. Em Madri haverá telas gigantescas exibindo ópera. Cafés em Lille estão oferecendo noites de karaokê operístico. Na English National Opera, candidatas a prima-donas poderão assistir a uma aula de canto, e a Opéra National de Bordeaux está distribuindo convites para uma apresentação feita com trajes e maquiagens completos.

AFP 
Para Gerard Mortier, diretor da Opéra Nacional de Paris, novas óperas têm pouca aceitação


Segundo os últimos números, 96 das companhias de ópera de 24 países europeus -da Icelandic Opera, em Reykjavik, ao Teatro de Ópera e Balé de Tbilisi, na Geórgia- se inscreveram para participar da programação deste final de semana do European Opera Days. A maioria estará abrindo as portas ao público e várias delas apresentarão eventos especiais, tais como ensaios abertos, oficinas operísticas e projetos educacionais.
O programa tem um aspecto comemorativo, mas isso oculta uma preocupação mais profunda. De onde virão as platéias de ópera do futuro? Quem pagará o preço exorbitante desta forma de arte?

Essas são as questões abertas ao debate no European Opera Days - uma iniciativa conjunta da Opera Europa, da Fedora, da RESEO e da Opéra Nacional de Paris. O núcleo do final de semana é uma conferência de três dias em Paris, na qual 800 delegados colocarão de lado os seus óculos de ópera para sondarem nervosamente o futuro.

José Manuel Barroso, presidente da Comissão Européia, lidera o debate de abertura na sexta-feira, e o convidado será Gerard Mortier, o diretor da Opéra Nacional de Paris. Como ex-diretor do Théâtre Royal de la Monnaie, em Bruxelas, e do Festival de Salzburgo, Mortier é um homem de vasta experiência, e do seu escritório na Opéra Bastille ele está na posição certa para se dar ao luxo de exercer uma certa reflexão imaginativa.
Considerando-se que existe pouca perspectiva de uma mudança imediata, por que realizar este evento agora? "A ópera - ainda que os teatros estejam lotados - se encontra em um ponto perigoso na sua história", adverte Mortier.

"O repertório não está mais sendo renovado. É claro que ainda há trabalhos do passado há muito esquecidos que estão sendo revividos, mas as novas óperas encontram muita dificuldade em serem aceitas. Isso não significa que a ópera esteja morta, mas é algo que nos diz que o repertório deixou de crescer. Eu acredito que a ópera como forma de arte pertence a um período particular da cultura ocidental. Ela foi exportada para a América e agora será exportada para a China e o Extremo Oriente, assim como os gregos exportaram a sua cultura para Roma no mundo antigo. Portanto, as apresentação continuarão. Mas, no que diz respeito à nova criação, temos efetivamente um capítulo fechado".

Esse tom provocante não deve se constituir em surpresa. Os gerentes de óperas aparecem em várias formas: o tipo astuto, que sabe vender o seu produto, os representantes da velha escola artística, os ex-gerentes do setor privado. E há também Mortier. De fala mansa, ele se transforma em uma pessoa bem diferente quando coloca o seu chapéu de ópera. Chapéu? Não, trata-se de um elmo Wagneriano, e ele vem acompanhado de uma lança e de um grito de guerra, já que Mortier é conhecido como sendo pessoa que gosta de comprar uma briga.

Apontar a ausência de novas ópera é algo que atende à sua argumentação, já que dessa forma ele pode argumentar que a única maneira de atrair as jovens audiência é a reinvenção dos grandes trabalhos do passado. Mortier é um apaixonado pelas produções polêmicas, conforme se recordam os freqüentadores do Festival de Salzburgo da década de 1990. Aquela foi a era de uma apresentação alucinada de Die Fledermaus, de Johann Strauss e de uma Così fan tutte que apresentou a ópera de Mozart em um gigantesco jardim de flores psicodélicas.

Eu sugiro que certas pessoas podem preferir produções em um estilo tradicional. Mas Mortier despreza a minha opinião. "Vivemos em uma época na qual tudo precisa ser fácil. Os políticos também querem tornar a ópera fácil - mas por que? Quando você lê os sonetos de Shakespeare, não espera entender todas as emoções da primeira vez. Talvez isto soe ingênuo, mas acredito que conquistar uma audiência para a ópera não significa simplesmente rebaixar a obra a um patamar popular".

Ele faz uma pausa para refletir. "Se a ópera não sobreviver como forma de arte viva, o mundo continuará girando. Existem muitas coisas das quais não precisamos. Não construímos mais catedrais, mas ainda as admiramos. Daqui a 50 anos talvez as pessoas não componham mais óperas, mas as óperas ainda serão executadas - grandes trabalhos como Don Giovanni, Parsifal e Wozzeck, eu espero, em vez de La Bohème. Perigoso seria se eu, como administrador de ópera, criasse uma programação baseada somente naquilo que é popular, que foi o que aconteceu com a televisão. Tenho que lutar por um programa mais difícil e, a seguir, trabalhar para vendê-lo ao público.

Pergunto a Mortier se ele briga em Paris. "Sim!", exclama ele vigorosamente - com jornais, tais como o "Le Monde", que não aprecia aquilo que ele está tentando fazer; com os moradores do 16éme (o distrito dos "ricos tradicionais" de Paris), que desejam mais astros famosos e menos radicalismo; e com as estações francesas de televisão, que se recusaram a transmitir a sua produção do balé Giselle. A mídia é rotulada por ele de filistéia.

Assim, quais são as batalhas que Mortier espera vencer neste final de semana? "Eu gostaria de acreditar que os europeus começarão a reconhecer que a ópera consiste em uma parte essencial da sua cultura. Sou um grande crente na Europa - e nas políticas da Europa também -, e quero que as pessoas que se reúnem no European Opera Days apreciem como a ópera pode ser parte de uma rede de entendimento mútuo. Se você vai assistir a comédias de Mozart/Da Ponte, compreenderá mais a sociedade do final do século 18. Se deseja aprender algo sobre o nacionalismo, será útil assistir Nabuco, de Verdi, e Die Meistersinger, de Wagner, e entender como o nacionalismo foi explorado por certos extremistas. A ópera pode nos ensinar muita coisa a respeito da nossa civilização."

Será que ele não vê um problema no fato de a Europa ser simbolizada por uma forma de arte enraizada no passado? "Não - muita gente pelo mundo afora já abordou a cultura européia por meio da ópera. Veja os Estados Unidos, onde a ópera está florescendo de uma maneira que não poderia ser prevista 50 anos atrás. Estou prestes a ir até Moscou para assistir à primeira apresentação de Pelléas et Mélisandeat, de Debussy. Eu e o Bolshoi acabamos de conhecer um diretor de Krasnoyarsk, na Sibéria, que deseja apresentar Elektra, de Strauss. Não me pergunte como os chineses entendem Cármem - parece algo tão distanciado de sua cultura. Mas eles entendem! Ninguém estará falando sobre um filme futurista como Godzilla daqui a 50 anos, mas veja como as últimas olimpíadas provocaram uma redescoberta mundial da cultura da Grécia antiga, uma cultura que já tem vários séculos de idade".

Embora recentemente tenha sido anunciada a saída de Mortier da Opéra National de Paris, parece improvável que ele esteja pronto para se aposentar. Embora esteja quase fazendo 65 anos, ele diz que ainda está tomado por "um espírito combativo" e que, "assim como qualquer soldado, tem que estar no campo de batalha".

Se Mortier deseja realmente continuar na luta, a casa de ópera de Nuremberg estará oferecendo cursos gratuitos no seu seminário de artes marciais no próximo final de semana.
O fim de semana do European Opera Days está pronto para seduzir o público. Richard Fairman conversa com uma figura que está no centro do debate sobre o futuro da ópera

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