UOL Notícias Internacional
 

28/02/2007

Pragmatismo de Kirchner é amigável à direita e à esquerda

Financial Times
Benedeict Mander
em Buenos Aires
Quando uma empresa de laticínios argentina em apuros estava prestes a ser engolida pelo império do financista internacional George Soros, Hugo Chávez partiu em seu resgate. O empréstimo do presidente venezuelano de US$ 135 milhões (em torno de R$ 270 milhões) à SanCor -em troca do qual a Venezuela vai receber leite em pó gratuito - foi bem recebido por Nestor Kirchner, presidente argentino que viajou à Venezuela para assinar o acordo na semana passada.

O acordo ressalta um relacionamento econômico mais profundo entre os dois países. A Venezuela até agora investiu mais de US$ 3 bilhões (cerca de R$ 6 bilhões) comprando a dívida argentina com taxas de juros abaixo do mercado.

Além disso, os dois países recentemente se uniram para emitir um bônus conjunto pouco convencional, que permite que acessem os mercados de capital internacional juntos, e concordaram em emitir mais US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 3 bilhões) na semana passada. Depois há a joint venture para extrair o petróleo venezuelano, que pode aliviar os problemas de décadas da Argentina com energia.

Em casa, Kirchner foi atacado pelos políticos da oposição que temem que a Argentina fique identificada demais com o eixo radical anti-EUA de países na região, liderado por Chávez e que inclui governos recém eleitos da Nicarágua, Equador e Bolívia. "A aliança de Kirchner com Chávez é política. O fato da intervenção política da Venezuela na SanCor ter sido considerado positivo pelo governo mostra que a aliança vai além de meros interesses comerciais", diz Diego Guelar, secretário de relações internacionais do partido da oposição PRO e ex-embaixador dos EUA e da União Européia.

É mais complexo que isso, argumenta Juan Gabriel Tokatlian, analista de relações internacionais da Universidade de San Andrés em Buenos Aires. "A relação de Kirchner com a Venezuela, como com os EUA, é mais pragmática do que ideológica", diz ele.

Diz-se que a SanCor, maior exportadora de laticínios da Argentina, uma das poucas grandes empresas nacionais que restam e que está profundamente endividada, será salva de cair nas mãos da Adecoagro, fundo de agronegócio estrangeiro com participação de Soros.

Os laços comerciais da Argentina com outros países são complicados pela extrema delicadeza política do investimento estrangeiro, em parte pela severidade da crise econômica ao final de 2001 e pelo radicalismo da abertura ao capital estrangeiro nos anos 90 que a precedeu, com regulamentos fracos e um programa amplo de privatização.

Como resultado, muitos campeões nacionais foram perdidos, e agora cerca de três quartos do valor agregado das 500 maiores empresas na Argentina pertence a estrangeiros. "Não há outros países desse tamanho no mundo onde isso acontece. É de fundamental importância fortalecer nossas empresas nacionais", diz Aldo Ferrer, economista e diretor da Enarsa, companhia estatal de energia argentina.

A Enarsa talvez tenha um papel em outro incidente que gerou controvérsia, depois que um fundo hedge americano foi proibido de investir na Argentina. Junto com a empresa local de eletricidade, Electroingenieria, a Enarsa deve adquirir uma participação na Transener, firma que controla as linhas de transmissão de eletricidade na Argentina e que a Eton Park Capital Management foi proibida de comprar neste mês.

Kirchner gosta de estimular o investimento estrangeiro - mas não aos níveis indiscriminados dos anos 90. Em setembro, ele fez uma visita simbólica à Bolsa de Valores de Nova York para soar o sino de abertura. Mas as rejeições súbitas de Eton Park e Adecoagro enviaram outra mensagem aos investidores.

"É bastante compreensível um governo querer proteger seu mercado local", diz Fernando Navajas, economista do instituto de pesquisa Fiel de Buenos Aires. "O que não dá para entender é a falta de transparência por trás das ações do governo."

Os dois episódios ilustram pólos opostos de política externa de Kirchner: a Argentina quer se beneficiar tanto de laços com a Venezuela quanto com os EUA. "Washington entendeu isso", diz Tokatlian, apontando para a visita à Argentina de Nicholas Burns e Thomas Shannon, autoridades do Departamento de Estado, que coincidiu com a tempestade de Eton Park há duas semanas. Burns desprezou o incidente chamando-o de falta de compreensão e elogiou a melhoria das relações entre EUA e Argentina. "Eles compreendem que... precisam de Kirchner como parte de uma coalizão de países mais moderados na região que ajudarão a conter Chávez", diz Tokatlian.

Durante sua visita à Venezuela, onde seu colega chamou-o de "comandante Kirchner", o presidente argentino rejeitou "teorias paternalistas", dizendo que são um "erro completo". "Com nosso irmão e parceiro Chávez, estamos construindo um espaço para a dignidade do povo sul-americano", disse ele. A prioridade do presidente argentino é recuperar o investimento, mais do que construir alianças Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,73
    3,144
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -1,00
    65.010,57
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host