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08/03/2007

Uma serenata no quintal: por que as aberturas latinas de Bush poderão cair em ouvidos moucos

Financial Times
Richard Lapper*
Em 2001, muitos latino-americanos nutriam esperanças de que George W. Bush daria maior prioridade a um "quintal" que os Estados Unidos costumavam dar por certo. Afinal, o presidente recém-eleito era um ex-governador do Texas, um Estado que faz fronteira com o México; ele falava um pouco de espanhol; e o "encontro de cúpula caubói" no rancho de seu par mexicano, Vicente Fox, foi a primeira visita oficial de Bush ao exterior. "Alguns olham para o sul e vêem problemas. Eu não; eu olho para o sul e vejo oportunidades e potencial", disse ele às vésperas daquele encontro.

Albeiro Lopera/Reuters 
Cartazes de protestos à visita de Bush em Medellín, na Colômbia, país mais leal aos EUA

Então ocorreram os ataques de 11 de Setembro de 2001 e preocupações mais urgentes. A aparente indiferença do governo ao colapso financeiro da Argentina posteriormente naquele ano, sua resposta desajeitada meses depois ao golpe venezuelano e, acima de tudo, sua invasão ao Iraque, tornaram Bush uma figura altamente impopular na região.

Agora parece que Bush está procurando compensar o tempo perdido. Seis anos após assumir a presidência, com sua credibilidade em frangalhos ao sul do Rio Grande, o presidente embarca nesta quinta-feira (8/3) para uma viagem de uma semana ao Brasil, Uruguai, Colômbia, Guatemala e México, sua visita oficial mais longa à região. Sua meta é restabelecer a confiança nos Estados Unidos, em um momento em que a influência do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o principal oponente de Bush na região e arquiteto da nova filosofia "socialismo do século 21", está em ascensão.

Parte de sua agenda é previsível. Bush oferecerá apoio a Álvaro Uribe da Colômbia - seu aliado mais leal nas duas décadas de guerra contra o narcotráfico - e discutirá com o novo presidente de centro-direita do México, Felipe Calderón, a perspectiva de um acordo para legalizar o status de mais de 6,5 milhões de mexicanos que trabalham ilegalmente nos Estados Unidos.

Mas também haverá novas iniciativas. Bush conversará com Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, sobre um assunto de entusiasmo mútuo: o combustível verde. Somados, Estados Unidos e Brasil produzem mais de 70% do etanol (álcool) do mundo e Bush espera estabelecer as fundações para uma futura cooperação em pesquisa e desenvolvimento. Mais surpreendentemente para um republicano de livre mercado, ele apresentará uma série de iniciativas que visam a aliviar a pobreza, variando de atendimento médico de emergência a financiamento imobiliário barato.

Em um discurso na segunda-feira (5/3) marcado por referência positivas à Aliança para o Progresso, o plano de infra-estrutura e bem-estar social multibilionário para a América Latina lançado por John F. Kennedy em 1961, no rastro da Revolução Cubana, Bush chamou atenção para a "terrível pobreza" que afeta quase um quarto da população da região.

"Muitas crianças nunca terminam a escola primária; muitas mães nunca visitam um médico. Em uma era de crescente prosperidade e abundância, isto é um escândalo - e é um desafio", disse Bush para sua platéia em Washington, na segunda-feira. O presidente argumentou que a pobreza estava levando alguns a questionarem o valor da democracia. Mudança pra ajudar o "trabalhador pobre" é vital. "É de nosso interesse nacional, é de interesse dos Estados Unidos da América ajudar para que as pessoas nas democracias em nossa vizinhança sejam bem-sucedidas", ele disse.

Tudo isto marca um refinamento de uma política há muito dominada por três prioridades: livre comércio, segurança na fronteira e luta contra a cocaína. "Tem uma importância simbólica imensa. Ela aponta para a direção das relações hemisféricas", disse Julia Sweig, chefe do programa latino-americano do Conselho de Relações Exteriores, em Washington. "Nós estamos vendo o hemisfério de uma forma muito diferente daquela que víamos antes."

Mas qual o motivo da mudança? Em parte, ela simplesmente reflete o senso crescente em Washington de que os Estados Unidos estão perdendo sua influência em uma região que achavam dominar desde o início do século 19. Os esforços americanos para formar uma Área de Livre Comércio das Américas fracassaram. Enquanto isso, se por um lado os laços comerciais e o investimento americano com México, América Central e Caribe cresceram desde o final da guerra fria, partes da América do Sul têm se expandido em outras direções, especialmente a Ásia. Os retornos medíocres das reformas pró-mercado apoiadas por Washington reduziram ainda mais a influência americana.

Os dois maiores países na América do Sul - Brasil e Argentina - deram suas costas para a perspectiva de acordos de livre comércio com os Estados Unidos e não mais dependem de apoio do Fundo Monetário Internacional, com sede em Washington, ou outras instituições multilaterais. Tal autonomia adquiriu bordas particularmente afiadas na Venezuela e em vários países menores, onde uma nova safra de políticos nacionalistas - liderados por Chávez - tem defendido políticas mais radicais explicitamente opostas à influência americana na região.

Ultimamente, Chávez, um ex-oficial do Exército eleito pela primeira vez em 1998, parece imbatível Ele consolidou seu poder político por meio de uma série de vitórias eleitorais, centralizando cada vez mais seu controle sobre a sociedade venezuelana e promovendo seu programa de altos gastos do Estado, investindo em saúde e educação, reforma institucional radical, estatização e empreendimentos cooperativos. Nos últimos três meses, Chávez estatizou os setores de telecomunicações e serviços públicos e em breve assegurará o controle sobre as joint-ventures internacionais que operam no cinturão de petróleo do Orinoco.

Com seus simpatizantes já controlando o Judiciário e o Legislativo, Chávez enfraqueceu ainda mais as salvaguardas democráticas conquistando o direito de governar por decreto. Novos poderes, incluindo a capacidade de impor impostos, serão transferidos para novos conselhos comunitários - que Chávez descreveu como o equivalente venezuelano dos sovietes dos trabalhadores na Rússia bolchevique. "Todo o poder para os Conselhos Comunitários, poder para o povo", disse o líder venezuelano em um recente discurso.

O simples ritmo da radicalização tem surpreendido os observadores. "Há uma qualidade delirante nisto", disse Michael Shifter, da Diálogo Interamericano, em Washington, e autor de um novo relatório sobre opções de políticas para os Estados Unidos.

A inclinação para a esquerda em casa foi acompanhada por uma crescente influência de Chávez no exterior. Três governos - da Bolívia, Equador e Nicarágua, todos eleitos nos últimos 15 meses - são aliados estreitos do líder venezuelano, compartilham sua hostilidade em relação aos Estados Unidos e estão buscando reformas políticas e econômicas semelhantes.

O apoio econômico venezuelano escora suas relações com todos os seus quatro aliados chaves: Cuba, Equador, Bolívia e Nicarágua. Uma rede de programas sociais - muitos compostos por médicos e atendentes de saúde cubanos e pagos com dinheiro do petróleo venezuelano - foi estendida a outros países não formalmente comprometidos com este eixo radical. Caracas vende petróleo em condições privilegiadas para vários países pobres na região e também se tornou um dos maiores credores da Argentina, após comprar mais de US$ 4 bilhões em títulos daquele país.

Algo mais preocupante para Washington é que Chávez e seus aliados têm se mostrado simpatizantes abertos de inimigos americanos em outras partes do mundo, notadamente defendendo o direito do Irã de desenvolver energia nuclear. Outros membros do eixo radical estão contentes em se aliar ao Irã, que enviou uma delegação de 75 pessoas para a posse do presidente do Equador, Rafael Correa.

A aquisição de armas é outra preocupação. Em um recente depoimento ao Congresso, um funcionário da agência de inteligência da Defesa americana apontou que Chávez comprou, desde 2005, caças e milhares de rifles de assalto da Rússia. "Chávez está realmente fazendo avanços. Os americanos estão perdendo terreno", disse Jorge Casteñada, um cientista político mexicano e ex-ministro das Relações Exteriores.

Mas os Estados Unidos ainda têm muitas coisas a seu favor. A ascensão de radicais como Evo Morales da Bolívia, o primeiro presidente indígena do continente, ou o ressurgimento do líder guerrilheiro nicaragüense dos anos 70, Daniel Ortega, podem chamar a atenção. Mas a verdadeira história nas 11 eleições na região ao longo do último ano é de ganhos de moderados da esquerda ou direita, especialmente nos países maiores. Ao mesmo tempo, muitos questionam a sustentabilidade econômica do projeto de Chávez.

"Nada do que governos como os do Brasil ou do México estão fazendo é contrário aos interesses americanos", disse Walter Russell Mead, um historiador que escreveu sobre a política externa americana. Além disso, apesar do governo Bush ser impopular, muitos latino-americanos - especialmente no norte da região - ainda aspiram aos valores de consumo americanos e sonham em viver no norte. "É um caso de ianque, volte para casa, mas me leve com você", disse Mead.

A viagem e novos planos de Bush parecem visar fortalecer as relações com este campo e minar o apelo do radicalismo chavista nos países mais pobres. O atendimento de saúde básico que está sendo oferecido à pobre América Central e Caribe, por exemplo, visa responder à popularidade inquestionável das políticas sociais desenvolvidas pela Venezuela e Cuba. A iniciativa de energia visa simultaneamente fortalecer as relações com o governo de centro-esquerda de Lula e ajudar países como a Guatemala e Honduras a reduzirem sua dependência de petróleo importado.

Mas os críticos argumentam que o esforço é pequeno demais, tarde demais. Enquanto Chávez e seus aliados cubanos estabeleceram uma rede permanente de clínicas nas áreas pobres da Venezuela e da Bolívia, a resposta americana tem o aspecto de um esforço de emergência limitado. O atendimento de saúde básico será oferecido a 85 mil pessoas por um navio-hospital americano que parará nos portos de 11 países pobres, um gesto que -como notou um comentarista brasileiro- parece mais de acordo com os anos 40.

A Corporação de Investimento Privado no Exterior, a agência do governo que garante o investimento americano no exterior, deverá aumentar seus recursos para financiamento imobiliário de baixo custo para a classe trabalhadora, mas mesmo aí o valor disponível representa menos de US$ 400 milhões. Em um editorial crítico, o jornal brasileiro "O Estado de São Paulo" rotulou a iniciativa de "acinte", "anacrônica" e "por fora".

A ambição limitada também pode minar a iniciativa dos combustíveis verdes. Ao todo, o financiamento inicial - incluindo as contribuições dos Estados Unidos e Brasil, assim como de bancos multilaterais - provavelmente será de menos de US$ 25 milhões. Ainda não há nenhum plano para reduzir a alta tarifa de 54 centavos de dólar por galão, imposta pelos Estados Unidos ao etanol importado, nem o subsídio de 51 centavos de dólar por galão aos produtores. Frustrado, um crítico do Congresso, um assessor do próprio Partido Republicano de Bush, disse que o esquema "ignora completamente a transformação potencial. Esta política poderia ajudar a reabilitar os Estados Unidos aos olhos dos latino-americanos".

Tamanha é a escala da desilusão latino-americana que parece que muito mais atenção e dinheiro podem ser necessários para mudar a maré a favor de Washington. Alguns céticos acham que a viagem poderá se transformar em um desastre de relações públicas do tamanho da visita de Richard Nixon em 1958, quando a comitiva do então vice-presidente foi apedrejada por manifestantes em Caracas. No mínimo, Bush corre o risco de ser ofuscado por Chávez, que viajará para a Argentina nesta semana para comandar uma marcha de manifestantes anti-Bush.

A realidade é que os Estados Unidos poderão precisar fazer muito mais para reconquistar a posição que antes desfrutavam. Marta Lagos, cujas pesquisas Latinobarómetro têm registrado um constante declínio da influência americana nos últimos anos, disse que mesmo em países como o Chile - um modelo de reforma voltado ao mercado e que assinou um acordo de livre comércio com os Estados Unidos em 2003 - as pessoas estão "irritadas".

"Foi bom ele não vir aqui", disse Lagos. "Ele teria uma recepção gelada."

*Com reportagem de Jonathan Wheatley Washington está tentando compensar sua impopularidade regional com iniciativas sociais para conter a crescente influência de Chávez, da Venezuela George El Khouri Andolfato

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