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21/03/2007

Neste bravo mundo novo, o crescimento exagerado da Chíndia

Financial Times
Martin Wolf
"Chíndia" é o termo cunhado pelo político indiano, Jairam Ramesh, para denotar os dois gigantes asiáticos que contém 38% da população do mundo. O tamanho tampouco é sua única similaridade. Os dois são herdeiros de antigas civilizações; ambos eram, até recentemente, desesperadamente pobres; e os dois estão entre as economias que mais crescem do mundo. Ainda assim as diferenças são impressionantes. Estudando-os cuidadosamente, pode-se descobrir mais sobre suas perspectivas de crescimento continuado.

A técnica de contabilidade do crescimento ajuda a iluminar a situação. Um recente artigo de Barry Bosworth e Susan Collins*, da Instituição Brookings de Washington, faz exatamente isso. Compara o desempenho no período de 1978 a 2004, mas os anos a partir de 1993 são particularmente interessantes, pois sucederam as reformas da Índia de 1991.

O cenário amplo é de crescimento chinês de 9,7% por ano, contra 6,5% da Índia. Dadas as diferenças de crescimento populacional, a renda per capita da Índia cresceu a menos da metade da China. O emprego gerou apenas uma pequena proporção do crescimento: 1,2% por ano para a China e 1,9% para a Índia. Na China, a produção por trabalhador cresceu ao índice impressionante de 8,5% por ano. Aumentos no capital físico por trabalhador foram responsáveis por metade deste último crescimento e aumentos na eficiência pura - que os economistas chamam de "fator de produtividade" - foram responsáveis pelo resto. A produção per capita da Índia cresceu 4,6% ao ano. Dado o alto investimento da China, não surpreende que o acúmulo de capital físico da Índia gerou menos da metade do crescimento da China. Mas o fator de produtividade também teve quase o dobro do impacto na China.

O artigo também fornece contrastes iluminadores com economias do Leste asiático, como Indonésia, Coréia do Sul, Malásia, Filipinas, Singapura, Taiwan e Tailândia. O crescimento de produção per capita da Índia entre 1993 e 2004 foi tão ou mais rápido do que do agregado dessas sete economias sobre qualquer período longo entre 1960 e 2003. O fator de produtividade gerou uma contribuição ao crescimento da Índia de 2,3 pontos percentuais por ano entre 1993 e 2004. Para os países asiáticos do Leste, os números correspondentes foram de 1,2 ponto percentual entre 1960 e 1980, 1,4 ponto percentual entre 1980 e 1993 e apenas 0,3 ponto percentual entre 1993 e 2003.

Na agricultura, o índice de crescimento da China foi de 3,7% ao ano, contra apenas 2,2% da Índia. O crescimento do emprego foi negativo na agricultura chinesa e marginalmente positivo na indiana. A grande diferença foi no crescimento de produção por trabalhador, com a China, novamente, acumulando capital de forma mais rápida e alcançando crescimento muito maior em fator de produtividade.

Na indústria, o índice de crescimento da China foi de 11% ao ano, para o qual o emprego contribuiu apenas 1,2 ponto percentual. A produção por trabalhador cresceu a 9,8% ao ano. Disso, nada menos que 6,2 pontos percentuais foram gerados pelo fator de produtividade crescente. Enquanto isso, o crescimento industrial da Índia foi de apenas 6,7% ao ano. O fator de produtividade contribuiu com mero 1,1 ponto percentual ao ano para esse crescimento. Mas a expansão do emprego contribuiu 3,6 pontos percentuais.

Agora, os serviços. Aqui o índice de crescimento da Índia foi próximo ao da China: 9,1% ao ano, contra 9,8%. A produção por trabalhador contribuiu com 5,1 pontos percentuais no crescimento da China e 5,4 pontos percentuais na Índia. Este é o setor onde o crescimento de produtividade indiano equiparou-se ao da China. O fator de produtividade crescente contribuiu 3,9 pontos percentuais para o crescimento indiano e apenas 0,9 ponto percentual para o da China.

Os resultados para a Índia foram os esperados, em grande parte. Mas a produtividade da China -e particularmente o fator de produtividade- foi muito melhor que estudos anteriores mostraram. Isso em parte se deve a revisões das contas nacionais, que aumentaram o nível e o crescimento do setor de serviços. Também importantes são premissas técnicas sobre o impacto do capital social na produção, importante para a China porque o capital social cresceu muito mais rápido do que a economia.

Evidentemente, este esforço é heróico. Ainda assim, o cenário amplo é altamente sugestivo. Essas duas economias sustentaram um desempenho notável, apesar de o chinês ser claramente superior. O setor extraordinário da Índia é o de serviços; o da China é a indústria. O crescimento do emprego fora da agricultura é baixo, e a participação da agricultura no emprego ainda é alta: 47% na China e 57% na Índia em 2004. O desempenho de produtividade da China tem sido impressionante, em grande parte por causa da produção crescente por trabalhador na indústria, apesar de também ter se saído bem na agricultura e em serviços. O desempenho de produtividade da Índia também é bastante bom, em grande parte por causa dos serviços.

A implicação, como conclui o estudo, é que "as perspectivas de crescimento rápido continuado na China e Índia são muito boas".

Com uma economia notavelmente aberta e investimento bruto fixo em 43% do produto interno bruto no ano passado, é difícil identificar restrições significativas ao crescimento da China em médio prazo. Presumivelmente, uma quebra no sistema econômico e político global teria esse efeito, assim como instabilidade interna política ou social. No longo prazo, a falta de reformas seria um perigo.

O investimento fixo da Índia foi bem menor, mas já está perto de 30% do PIB. Se a posição fiscal continuar a melhorar, e a entrada de capital de longo prazo do exterior acelerar, o índice de investimento pode subir ainda mais. Parcialmente pela falta de infra-estrutura e pelo desapontamento no desempenho industrial, a possibilidade de crescimento indiano também é maior do que o da China. Mas a Índia sofre de sérios obstáculos. O mais importante, além da falta de infra-estrutura e de um governo relativamente ineficaz, está a escala do analfabetismo. Apenas 73% dos homens adultos e 48% das mulheres estavam alfabetizados em 2002, contra 95% e 87% respectivamente na China.

A Chíndia está avançando. Como o padrão de vida na China é aproximadamente um quinto do dos países de alta renda e o da Índia é um décimo, o crescimento rápido dos gigantes pode persistir por uma geração. E como poderia ter dito Shakespeare: Oh bravo mundo novo, que tem tais países nele!

Toda semana, 50 economistas dos mais influentes discutem as colunas de quarta-feira de Martin Wolf em um foro especial. Você pode acompanhar o debate em www.ft.com/wolfforum.

* Accounting for Growth: Comparing China and India, Working Paper 12943, February 2007, National Bureau of Economic Research, www.nber.org Deborah Weinberg

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