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24/03/2007

Campanha para salvar IPOs da Índia

Financial Times
Joe Leahy
As campanhas do tipo "Salvem o..." geralmente têm como alvo as baleias, as reservas naturais ou os sítios históricos. Assim sendo, quando alguém dá início a uma campanha em defesa das IPOs (sigla em inglês para oferta pública inicial, a primeira oferta de ações de uma empresa no mercado mobiliário), como se essas ofertas também se tivessem tornado uma espécie ameaçada, a situação deve ser desesperadora.

"É hora de acabar com os ataques às IPOs, e de recebê-las melhor, hora de mudar a nossa mentalidade com relação às IPOs", afirma Prithvi Haldea, da instituição de pesquisas sobre as bolsas de valores indianas PrimeDatabase, em um relatório intitulado "Stop IPO Bashing: In Defence of IPOs" ("Pelo Fim dos Ataques às IPOs: Em Defesa das IPOs").

No momento em que o mercado indiano, que experimenta intenso aquecimento há três anos, faz uma pausa para tomar fôlego, alguns observadores estão reexaminando os seus excessos. Assim como existiu uma reação regulamentadora nos Estados Unidos contra a "exuberância excessiva" após o boom tecnológico, existe o risco de algo no mesmo estilo ocorrer na Índia.

A reação está centrada em acusações de "super-valorização" das IPOs em detrimento dos investidores do varejo. Tão grande é a preocupação que o Departamento de Títulos e Câmbio da Índia (Sebi), o regulamentador, está estudando uma proposta para impor a classificação obrigatória das IPOs, possivelmente usando agências de avaliação de crédito - uma idéia que praticamente não foi experimentada.

A proposta do Sebi é feita no momento em que o índice Sensex, que quintuplicou desde 2003 devido ao rápido crescimento econômico, perdeu ímpeto nas últimas semanas.

As preocupações neste mês quanto à saúde da economia dos Estados Unidos e ao aumento da inflação na Índia provocaram uma queda de 9% no Sensex desde o início do ano.

O aquecimento de mercado na Índia coincidiu com um fluxo contínuo de IPOs. Em 2006 as corporações indianas emitiram um total de US$ 19,3 bilhões em ações, o que representou um aumento de 23% em relação ao ano anterior, segundo dados da companhia de processamento de dados Dealogic.

O volume de IPOs aumentou 186%, liderado pela Cairn India, que faz parte da companhia de exploração e produção de petróleo Cairn, com sede em Londres, e cuja oferta de US$ 2 bilhões foi a maior já registrada na Índia. Mas mesmo durante a euforia do ano passado quanto ao aumento dos preços das ações, o mercado se mostrou discriminatório.

As ações da Cairn India não conseguiram deslanchar na sua estréia nas bolsas em meio à incerteza quanto a um oleoduto que afetou as principais operações petrolíferas da companhia. As ações da empresa continuam desvalorizadas em cerca de 21%.

O desempenho misto da algumas IPOs gerou o temor de que algumas companhias e os seus assessores nos bancos de investimento teriam deliberadamente supervalorizado os papéis.

"Existe uma quantidade demasiada de ansiedade e ganância no sistema", explica R. Venkataraman, diretor-executivo da India Infoline, um instituto de pesquisa. "Os banqueiros deveriam estar estabelecendo preços para os títulos a fim de deixar muito mais opções à mesa".

Outros acham que o problema diz mais respeito a questões relativas aos preços do que à qualidade.

Ridham Desaik, estrategista de ações do Morgan Stanley em Mumbai, argumenta que a qualidade das IPOs durante a atual fase de prosperidade do mercado foi muito mais elevada do que nos booms anteriores em 1994 e 2000, devido a melhorias na regulamentação.

"O que presenciamos desta vez foi uma operação muito agressiva de determinação de preços. Os investidores se deram conta desse processo muito rígido de estabelecimento de preços e, a seguir, as ações caíram no mercado", diz ele.

Haldea afirma que é errado aplicar uma metodologia cristalina para o estabelecimento de preços de uma ação após uma queda no mercado. Ele calcula que a maioria das IPOs proporcionaram aos investidores uma ampla oportunidade de obter lucros, caso eles tivessem vendido a tempo.

Das quatro ações de pior desempenho no último ano, três teriam permitido que qualquer investidor que vendesse obtivesse grandes lucros antes da atual queda no mercado.

De fato, das 15 maiores IPOs, 11 ainda estavam em situação ruim, quando comparadas com a determinação de seus preços. Nesse contexto, Haldea argumenta, as propostas para que o regulamentador obrigue as companhias a obter classificações independentes para as suas IPOs são onerosas. Segundo ele, o sistema já está funcionando, com o Sebi e os investidores institucionais providenciando controle de qualidade.

Desde 6 de janeiro deste ano, o Sebi obrigou nove companhias a se retirarem do processo de estabelecimento de preços por motivos de qualidade, enquanto que seis IPOs fracassaram devido a uma falta de interesse dos investidores institucionais e 40 registraram níveis de subscrição inferiores a seis.

Os investidores varejistas podem obter pistas a partir dos investidores institucionais - se a subscrição institucional é baixa, é provável que a IPO seja ruim. Se o pequeno investidor não consegue entender as implicações disso, e segue em frente, investindo a poupança de toda a sua vida, então trata-se mais de uma questão de educação. Um sistema de gradação só faria aumentar a complexidade.

É provável que a questão se perca de qualquer maneira na burocracia. Quando o assunto voltar a emergir, o mercado aquecido estará novamente funcionando a todo vapor em tempo de salvar as IPOs indianas da lista de espécies ameaçadas. UOL

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