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30/03/2007

Os três rivais da França frustram os economistas

Financial Times
Delphine Strauss
O livro mais vendido da semana passada na França foi "Quem Conhece Madame Royal?", um retrato sarcástico da candidata do partido Socialista por Eric Besson, seu antigo assessor econômico.

É uma raridade livros de economistas serem sucessos de vendas. Mas os eleitores estão esperando que a mudança de presidente traga uma melhora no desempenho econômico.

Não será fácil. A França não conseguiu acompanhar a recuperação da zona do euro no ano passado. O crescimento de 2% foi abaixo da média da região. Sua participação nas exportações da zona do euro está caindo. A dívida está em torno de 65% do PIB e a França tem um dos mais altos índices de desemprego na Europa.

Economistas esperavam que este fosse o ano em que os políticos franceses enfrentariam a realidade da globalização, atacariam a desconfiança pública generalizada nas forças do mercado e prometeriam as reformas necessárias para evitar o declínio de longo prazo.

Eric Chaney, economista da Morgan Stanley, pensa que a França ficará presa à "camisa de doente da Europa", a não ser que flexibilize os rígidos mercados de trabalho que favorecem as pessoas de dentro, corte os gastos sociais ineficazes e acabe com a interferência do Estado nos negócios.

Agora, as frustrações dos economistas estão crescendo, enquanto os candidatos escolhem retóricas que agradam as massas em detrimento do rigor econômico. Até o principal candidato da direita, Nicolas Sarkozy, temperou seu liberalismo com a polêmica contra "patrões sem caráter" e pediu uma defesa protecionista da indústria francesa.

Todos os candidatos prometeram aumentar o poder de compra dos eleitores, apesar de os indicadores sugerirem que o consumo está prosperando e que os principais problemas da França vêm da indústria estagnada. Nenhum dos candidatos estabeleceu metas de crescimento econômico ou deu detalhes de como cortará a dívida pública.

Jacques Delpla, economista do BNP Paribas e ex-assessor de Sarkozy, diz que o debate econômico está indo "mal". Ainda assim a maior parte dos economistas concorda que os três candidatos principais identificaram as questões corretas. Todos os três centram seus programas em medidas para reforçar o emprego, especialmente entre os jovens.
Os três querem reconciliar os eleitores com as empresas, reformar o ensino superior e ajudar os pequenos negócios a atingirem o tamanho necessário para promoverem um crescimento liderado pelas exportações, ao estilo alemão.

A maior parte dos economistas também concorda que os programas rivais oferecem uma verdadeira escolha aos eleitores. Sarkozy se concentra nos incentivos para a criação de empregos e mais horas de trabalho, além de contratos de trabalho mais flexíveis - proposta potencialmente explosiva, dados os protestos em massa no ano passado que impediram os esforços para relaxar as regras de contratação e demissão de jovens.

O centrista François Bayrou sugere prudência fiscal e uma versão mais suave das reformas de Sarkozy. Ségolène Royal promete um forte aumento do salário mínimo, aplicação mais ampla da semana de trabalho de 35 horas e primeiros empregos patrocinados pelo governo.

Alguns economistas de esquerda estão desapontados com sua adesão aos remédios tradicionais, centrados no Estado, em contraste com as reformas estruturais lideradas por governos socialistas em outras partes da Europa.

Olivier Blanchard, professor do MIT e eleitor socialista de longa data, publicou um artigo chamado "Por que vou votar em Sarkozy", argumentando que o candidato de direita oferece a melhor perspectiva de melhora das relações trabalhistas, e que a promessa de um contrato de trabalho mais flexível mostra "um desejo de reforma".

Elie Cohen, professor de ciências políticas, descreve as idéias de Royal como "uma análise inteligente do problema", seguida de "um modelo social tradicional antigo, com uma política nova de redistribuição para cada categoria social". Outros dizem que, aumentando fortemente o salário mínimo, ela criará um surto de crescimento de curto prazo e alimentará a inflação, levará os patrões a cortarem empregos de baixa qualificação e deprimirá o crescimento de mais longo prazo.

Mas nem todos estão convencidos que os candidatos conseguirão cumprir suas promessas. Todos os três principais candidatos querem reservar alguns contratos do setor público para pequenas empresas, mas a idéia contraria as regras de competição da União Européia. A medida mais atraente de Bayrou - alívios fiscais para dois novos empregos em todas as empresas - pode em grande parte recompensar os patrões que já planejam contratar, dizem os críticos.

A principal promessa de Sarkozy - cortar impostos - pode dar um aumento de salário para as pessoas que têm emprego, em vez de criar novos postos de trabalho, diz Patrick Artus, economista da Ixis.

Delpla diz que a reforma no mercado de trabalho está no "centro da questão". Neste quesito, Sarkozy oferece as propostas mais radicais. Alguns duvidam que o ex-ministro do interior que fala duro terá a coragem de promover as medidas mais impopulares. Ainda assim, claramente é o mais determinado a agitar o mercado de trabalho francês.

Cohen acredita que o fervor liberal de Sarkozy esfriaria diante dos protestos nas ruas, enquanto a presidência de Royal poderia seguir o modelo de François Mitterrand, que precipitou uma desaceleração de dois anos, com suas primeiras políticas, mas depois recuperou a situação com uma grande liberalização.

Há um outro fator que pode afetar o desempenho do próximo presidente francês: a rivalidade tradicional da França com a Alemanha. "Uma das razões que estou muito otimista sobre o futuro da França é que a Alemanha está se saindo melhor", diz Cohen "e os políticos franceses, de direita ou esquerda, farão o que for necessário para acompanhá-la". Os candidatos oferecem uma escolha, mas conseguirão realizar suas promessas? Deborah Weinberg

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