UOL Notícias Internacional
 

10/04/2007

O humor seco do esforço da Venezuela para evitar que as pessoas dirijam bêbadas

Financial Times
Benedict Mander
"Lei seca: venda de álcool suspensa" diz um aviso falso do lado de fora do bar decadente no centro de Caracas. Ao entrar, talvez a pessoa fique agradavelmente surpresa. Uma cena alegre, visivelmente alimentada pelo álcool, logo desmente o cartaz, com os clientes brigando pelo espaço ao longo do balcão, garrafas de cerveja vazias amontoando-se e garçons tendo dificuldades para responder à demanda.

"Um brinde à lei seca!" propõe um cliente alegre, levantando um copo de cerveja, que evidentemente não é o seu primeiro. "Longa vida à revolução bolivariana", acrescenta com um toque de ironia, referindo-se ao projeto socialista idiossincrático de Hugo Chávez na Venezuela.

Quase duas semanas atrás, muitos venezuelanos ficaram desagradavelmente surpresos quando o abstinente Chávez abruptamente decretou que a venda de álcool seria proibida depois de 17h por 10 dias durante a Páscoa e o dia todo na Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa e Domingo de Páscoa. A idéia era evitar que as pessoas dirigissem alcoolizadas, fator que, acredita-se, eleva acima de 100 o número de mortos em acidentes nas estradas durante a Páscoa, quando os venezuelanos se juntam para festas na praia.

O decreto foi recebido com forte reprovação entre muitos na Venezuela, que tem o mais alto consumo per capita de cerveja na América Latina e é a sétima maior importadora de uísque escocês do mundo. Os venezuelanos talvez estejam se acostumando com os anúncios cada vez mais radicais do "socialismo do século 21" de Hugo Chávez, mas este os tocou mais de perto. Os moradores de Ilha Margarita, no Caribe, que depende pesadamente do turismo, protestaram pintando "Não à lei seca" nos vidros dos carros.

"É como a Proibição nos EUA - não é de espantar que as pessoas chamem Chávez de ditador", observou Reinaldo Ramos, um bebedor indignado, enquanto derrubava um uísque no bar no centro de Caracas. Ramos votou em Chávez nas eleições presidenciais de dezembro e permanece leal. Ele admitiu que, durante as eleições, a proibição do álcool é normal na Venezuela e em outras partes da região. "Mas este é um feriado, e feriados são para a diversão. É absurdo tentar impedir isso - e francamente, impossível. Os venezuelanos gostam demais de beber."

O bar continuou servindo álcool, apesar do fato de outro bar, a dois quarteirões de distância, ter recebido vultosa multa na noite anterior por fazer o mesmo.

Nas favelas em Caracas, nenhuma atenção foi dada à lei seca, de acordo com outro biriteiro clandestino, Ignácio Suárez. "A polícia não teria coragem de impedi-los de vender álcool e, mesmo que tentasse, não iria longe. Eles não têm o controle de lá", disse ele.

A maior parte dos bares e restaurantes nas partes mais afluentes da cidade respeitou a lei, o que levou alguns a ficarem vazios ou até a fecharem. Outros infringiram a lei servindo álcool discretamente em xícaras de chá e evitando deixar garrafas nas mesas.

Esperar uma fiscalização total da "lei seca" seria demais em um país no qual é normal ver pessoas bebendo antes do meio dia, ou vendedores de rua passeando pelo trânsito vendendo cerveja gelada aos motoristas frustrados. Mas as autoridades dizem que a proibição foi um sucesso: as mortes de fato caíram nesta Páscoa.

Facções da oposição apresentaram evidências contraditórias, mostrando que os índices de acidentes pouco mudaram com a lei. "Quem sabe se as estatísticas do governo são verdadeiras - espero que sim, porque minhas vendas mergulharam 60 ou 70% nesta última semana", disse Adan Herrera, que administra uma loja de bebidas. Proprietários de bares e restaurantes contam a mesma história.

Mas para muitos este é um pequeno preço a pagar. "Se apenas uma vida tiver sido salvada, terá valido a pena. Qual é o problema se alguns capitalistas ambiciosos fizerem um pouco menos dinheiro por alguns dias?" disse Eva Otero, na praça da igreja de La Candelária no centro de Caracas no domingo de Páscoa. "De qualquer forma, a Páscoa não é o momento certo para se embebedar."

No entanto, membros da igreja, que brigou com Chávez no passado, argumentaram que a proibição deveria ser mais flexível. O cardeal Jorge Urosa sugeriu que as pessoas nos restaurantes deveriam ter permissão de apreciar um drinque com sua refeição.

Uma questão tão delicada e central no dia a dia das pessoas gerou calorosa controvérsia. Mesmo no bar do centro havia alguns que, com o copo na mão, argumentavam a favor da lei seca. Humberto Montes, que se descreveu como marxista-leninista, disse: "Foi bom, tenho lido muito mais nesta semana - apesar de hoje eu ter feito uma exceção. Pode ser uma medida coerciva, mas era inevitável: a revolução não vai acontecer sozinha." Proibição de álcool provoca uma Páscoa de discussões Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,56
    3,261
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h21

    1,28
    73.437,28
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host