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13/04/2007

Venezuelanos aprendem a gostar dos títulos corporativos

Financial Times
Benedict Mander
O "socialismo do século 21" que está sendo criado por Hugo Chávez, o radical presidente da Venezuela, não significa um abandono dos mercados de capital - longe disso. No momento, tais mercados são fundamentais para o sucesso desse projeto.

A companhia petrolífera estatal venezuelana, PdVSA, acabou de emitir o maior conjunto de títulos corporativos em toda a América Latina. A megaemissão de US$ 7,5 bilhões se seguiu a duas emissões inéditas de "títulos conjuntos", que foram divididos igualmente entre a dívida venezuelana e a argentina. Uma terceira emissão de títulos deste tipo é aguardada para breve.

Esses instrumentos denominados em dólares - que são comprados em moedas locais e vendidos preponderantemente no mercado internacional em troca de dólares - estão sendo utilizados para drenar o excesso de moeda circulando na economia venezuelana. Eles também alimentam a demanda local por dólares. A moeda norte-americana está forte desde que foram impostos controles cambiais em 2003.

Mas tais títulos estão complicando a batalha da Venezuela contra o maior índice de inflação da América Latina. Os preços ascendentes do petróleo estimularam gastos públicos maciços, o que fez com que a quantidade de dinheiro em circulação quadruplicasse nos últimos três anos, chegando a cerca de US$ 55 bilhões, o que representa quase 40% do produto interno bruto do país. "Há um grande número de venezuelanos cheios de moeda local da qual querem se livrar", admite Ricardo Sanguino, presidente da governista Comissão Nacional de Finanças. Ele reconhece a importância de se absorver o excesso de liquidez e de estimular as poupanças - embora isso esteja sendo atualmente desencorajado pelas taxas de juros reais negativas.

As recentes emissões de títulos da dívida venezuelana revelaram-se um meio efetivo de absorver a liquidez - os analistas estimam que os títulos da PdVSA conseguiram absorver cerca da metade do excesso de liquidez da economia. Ernesto Moreno, vice-presidente da corretora U21, de Caracas, afirma que o mercado está aguardando uma terceira emissão de títulos, ou os chamados "southern bonds", para antes do final de junho.

Após a primeira operação de US$ 1 bilhão em novembro de 2006, houve uma segunda emissão de US$ 1,5 bilhão em fevereiro deste ano. A terceira terá provavelmente as mesmas dimensões, incluindo um componente argentino ou equatoriano, afirma Moreno. "Será outra forma de o governo reduzir a liquidez na economia", acrescenta ele. "Interessa ao governo continuar emitindo títulos. Eu esperaria algo como uma emissão a cada dois meses".

Moreno calcula que em 2007 o governo precisará emitir um total de US$ 13 bilhões a US$ 14 bilhões para promover um enxugamento da liquidez suficiente para manter a inflação estável, depois que esta chegou a 17%em 2006.

Embora o ministro das Finanças, Rodrigo Cabezas, tenha sugerido que haverá pelo menos mais duas emissões de southern bonds neste ano, Sanguino não acredita que haverá outra emissão deste tipo tão cedo. "Nada ocorrerá imediatamente. Temos que esperar e ver qual será o desempenho da economia no segundo trimestre, e, com base nisso, será tomada uma decisão", disse ele ao "Financial Times".

"Existem outros mecanismos, incluindo monetários, que nos permitem controlar a inflação sem emitir títulos", argumentou ele, mencionando os controles de preços, a redução dos impostos sobre valor acrescentado, o aumento da produção doméstica para reduzir a dependência das importações e uma "maior eficiência" dos gastos do governo. Mas tais métodos podem mostrar-se menos efetivos para lidar com um dos problemas mais fundamentais da economia: a disponibilidade extremamente reduzida de dólares. Com um excesso de bolívares correndo atrás de pouquíssimos dólares, que tem uma cotação oficial fixa de 2.150 bolívares, surgiu um mercado paralelo e desregulamentado.

A taxa do mercado negro vem se alterando a um ritmo alarmante neste ano, com o dólar chegando às vezes a valer o dobro da taxa oficial, embora as recentes emissões de títulos tenha servido para controlar esse fenômeno - apesar de temporariamente.

A emissão de títulos da PdVSA, que deveria chegar a US$ 5 bilhões, mas que gerou uma demanda três vezes maior que esse valor, conseguiu reduzir a lacuna entre a taxa de câmbio oficial e a do mercado paralelo. O preço do dólar no paralelo caiu de 4.500 para menos de 3.500 bolívares.

Moreno argumenta que se o governo continuar emitindo southern bonds, a
diferença entre as taxas de câmbio oficial e paralelo continuará diminuindo, juntamente com a pressão inflacionária.

Mas alguns analistas questionam como a taxa de câmbio paralela poderá ser mantida em um patamar reduzido, já que os rendimentos oriundos das vendas serão cedo ou tarde injetados de volta na economia.

"O objetivo era reduzir a liquidez no mercado, e foi isso o que fizemos", afirma Pablo Venturino, que trabalha na equipe de dívidas de mercados emergentes do ABN Amro, que ajudou a gerenciar a venda dos títulos da PdVSA. "A estabilidade desta situação dependerá daquilo que o governo fizer - esses títulos não são a única coisa que mantém a taxa de câmbio no mercado paralelo baixa, mas eles são uma parte importante desse processo".

Venturino acredita que dentro de dois ou três meses os rendimentos dos títulos da PdVSA ficarão "ainda mais" próximos daqueles referentes à dívida soberana equivalente do que o atual spread de cerca de 50 pontos. As mega-emissões de títulos feitas por Chávez foram bem recebidas pela população UOL

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