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14/04/2007

Garry Kasparov quer união para aplicar um xeque-mate em Putin

Financial Times
Neil Buckley
em Moscou
Durante anos, os oponentes de Garry Kasparov foram figuras solitárias sentadas do outro lado de um tabuleiro de xadrez, ou de vez em quando um supercomputador. Agora ele enfrenta a tropa de choque policial, com seus cassetetes e escudos.

O ex-campeão mundial de xadrez não tem jeito de demagogo. Mas desde que abandonou o xadrez em 2005 para se dedicar a derrubar aquilo que chama de sistema autoritário do presidente Vladimir Putin, Kasparov emergiu - e talvez isso não seja motivo de surpresa - como um eficiente estrategista político.

O Outra Rússia, a livre coalizão para cuja formação ele foi peça fundamental, organizou as pró-democráticas "Marchas dos Dissidentes" em Moscou, São Petersburgo e Nizhny Novgorod desde dezembro do ano passado. Todas as passeatas foram pequenas, mas a última, ocorrida em São Petersburgo no mês passado, atraiu 5.000 pessoas, tendo sido um dos maiores protestos da era Putin, e foi violentamente dispersada pela polícia e por forças especiais.

Outras duas passeatas estão agendadas. Uma para hoje (14/04) em Moscou, e a outra para amanhã em São Petersburgo. Isso poderá novamente desencadear violência já que os manifestantes pretendem exercitar aquilo que chamam de um direito constitucional de marchar em passeatas em localidades nos centros das cidades - mesmo quando lhes é negada permissão para isso. As autoridades de Moscou advertiram os manifestantes que estes enfrentarão uma resposta dura caso se aglomerem nos locais proibidos. Essas autoridades ofereceram aos descontentes um local alternativo, mais distante do centro, para a manifestação.

"Os europeus ocidentais acreditam que 5.000 pessoas nas ruas parece um número irrelevante. Mas em um país no qual os indivíduos sabem que participar de uma manifestação pode ser perigoso por implicar em riscos à integridade física ou na perda do emprego, até mesmo uma passeata de uns poucos milhares de pessoas já se constitui em um grande feito", explicou Kasparov ao "Financial Times".

Se uma força de oposição independente emergir para desafiar os esforços do Kremlin para ungir um sucessor de Putin no ano que vem - ou até mesmo se surgir uma espécie de "Revolução Laranja", uma perspectiva no momento remota - o Outra Rússia poderá ser um dos poucos focos originadores de tal movimento.

Kasparov acusa Putin de ter criado uma falsa democracia, que mantém no poder uma pequena elite que controla grande parte da riqueza do país. Ele questiona a versão de que os russos aquiesceram ao trocar as liberdades políticas - que passaram a ser associadas com caos na década de 1990 - por estabilidade e padrões ascendentes de vida.

Após viajar por 30 das 86 regiões da Rússia, Kasparov alega que os russos estão muito mais insatisfeitos do que sugere o índice oficial de aprovação de Putin, de 80%, e furiosos por não enxergarem mais benefícios derivados dos enormes lucros que a Rússia obtém no setor de energia.

De acordo com o ex-campeão de xadrez, o povo continua a apoiar Putin apenas porque não contam com nenhuma alternativa crível e independente. "Em todas as cidades há protestos sociais - as pessoas não estão satisfeitas com o que está acontecendo com suas vidas, e este fenômeno está em ascensão. Existem vários pequenos riachos de descontentamento que nos próximos meses se juntarão, formando um só grande rio", afirma Kasparov.

A sua estratégia para canalizar tal descontentamento, caso este emerja, é unir grupos e indivíduos oposicionistas de diferentes linhas, a maioria deles não pertencentes aos quadros dos partidos aprovados pelo Kremlin. Entre os dissidentes estão Mikhail Kasyanov, o ex-primeiro-ministro exonerado por Putin em 2004, Vladimir Ryzhkov, um deputado independente da Duma, e Eduard Limonov, líder do polêmico - e oficialmente banido - partido Bolcheviques Nacionais.

O Kremlin afirma que este último é um grupo fascista, e os analistas políticos sugerem que Kasparov pode ter cometido um erro tático incomum ao apoiar a agremiação comunista. Kasparov chama o partido de um grupo de esquerda radical comprometido com os protestos políticos e que compartilha o principal objetivo do Outra Rússia: a mudança política.

A meta é a união em torno de um único candidato para a próxima eleição presidencial, ou de múltiplos candidatos que defenderiam uma plataforma comum de restauração da democracia e das eleições livres. A coalizão compara a si própria com a ampla aliança que derrotou o general Augusto Pinochet em um plebiscito no Chile em 1988.

"Às vezes, em uma situação desesperadora, até mesmo forças políticas opostas concordam quanto às medidas que precisam ser tomadas", argumenta Kasparov.

Kasparov mostra-se circunspecto ao responder às alegações oficiais de que o Outra Rússia seria financiado por oligarcas exilados, como Boris Berezovsky, que nesta semana reiterou que está tramando a derrubada de Putin, ou Leonid Nevzlin, um dos fundadores da companhia petrolífera Yukos. Ele se recusa a fornecer o nome dos financiadores, alegando que estes correriam o risco de sofrer represálias.

"Não mantemos nenhum contato real com aqueles que poderiam prejudicar a nossa reputação", acrescenta o enxadrista. Segundo ele, tais acusações fazem parte do desafio de se engajar em uma oposição "não autorizada" na Rússia. O escritório político de Kasparov foi invadido pela polícia, que buscava supostos "materiais extremistas" segundo uma nova lei baixada na Rússia no ano passado. Um secretário foi misteriosamente espancado. Kasparov é constantemente acompanhado de guarda-costas.

Ele se permite fazer pelo menos uma analogia com o xadrez: "Quando o jogador corre o risco de tomar um xeque-mate no próximo lance, ele não pensa em estratégias de longo prazo. Nós sobrevivemos, e cada dia de nossa sobrevivência nos proporciona uma chance de levarmos a nossa mensagem a mais pessoas".
O campeão de xadrez deseja canalizar o crescente descontentamento para derrubar o presidente russo UOL

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