UOL Notícias Internacional
 

18/04/2007

Como Ségolène Royal e os elefantes do Partido Socialista estão afastando os seus eleitores naturais

Financial Times
Quentin Peel
Seria de se supor que os eleitores franceses fossem voláteis e imprevisíveis, mas o fato engraçado a respeito destas eleições presidenciais francesas é que eles estão parecendo se comportar de forma oposta. Faltando cinco dias para o primeiro turno da eleição, a impressão que se tem é de que a campanha está mais para uma majestosa procissão do que uma batalha furiosa.

Nicolas Sarkozy, o neo-gaullista de direita e aparente herdeiro de Jacques Chirac (embora seja nítido que o presidente que está de saída não aprecia a idéia), começou a campanha como favorito, e ainda está na liderança, embora os seus números nas pesquisas estejam caindo um pouco.

Ségolène Royal, a candidata do Partido Socialista, cordialmente hostilizada pela maioria dos seus colegas próximos de partido, entrou na disputa como uma vigorosa desafiante em segundo lugar, e permaneceu nesta posição. A sua campanha nem deslanchou nem se fragmentou.

François Bayrou, da centrista União pela Democracia Francesa, foi a única surpresa. Ele começou como um azarão e tornou-se um candidato próximo ao segundo lugar em uma questão de semanas. Recentemente os seus números nas pesquisas caíram um pouco, para depois se estabilizarem. Ele ainda dá mais impressão de que ficará em terceiro lugar.

Quanto a Jean-Marie Le Pen, o líder direitista da Frente Nacional, que sacudiu o establishment francês ao ficar em segundo lugar na eleição de 2002, ele poderia surpreender de novo. Os seus apoiadores tendem a mentir nas pesquisas quanto às suas verdadeiras intenções. Mas ele tem 78 anos de idade, sendo o mais velho candidato na disputa, e já teve a sua chance. O mais provável é que fique em quarto lugar.

Se as pesquisas estiverem ainda que remotamente corretas, o segundo turno será disputado entre Ségo e Sarko, assim como suspeitávamos desde o início. Nesse caso, a eleição poderá ser disputada. Se Royal for capaz de unir aqueles eleitores que votam em qualquer um, menos em Sarkozy, ela ainda terá uma chance, embora nesta eleição seja mais correto dizer que Sarkozy tem chance de perder, e não Ségolène de ganhar.

Mas, sob outros aspectos, os eleitores estão se mostrando imprevisíveis. Eles não estão se inclinando para a esquerda. O Partido Socialista, em particular, tem exibido um desempenho pífio. A conquista da presidência deveria ser uma barbada. Após 12 anos de liderança errática e de conservadorismo confuso por parte de Chirac, com a economia moribunda e o desemprego teimosamente alto, o Palácio Elysée deveria estar de portas abertas para os socialistas.

As pesquisas sugerem que os votos de Royal e dos seis outros candidatos de esquerda somados perfazem apenas 35%, contra os 43% que eles apresentaram em 2002. Apesar de contar com um presidente impopular de centro-direita, a França se inclinou ainda mais para a direita, e não para a esquerda.

O Partido Socialista é uma grande parte do problema. Ele se cindiu desastrosamente quanto à questão do referendo francês sobre o tratado constitucional europeu, quando Laurent Fabius, o ex-primeiro-ministro, fez campanha pelo "não" contra o desejo do resto do partido. E, além disso, os socialistas ainda estão presos ao passado, sendo conservadores com "c" minúsculo, dependentes de funcionários públicos bem protegidos e, portanto, relutantes em promover qualquer reforma séria do ossificado sistema do Estado.

Royal percebeu isso quando enfrentou os "elefantes" do partido para ganhar a candidatura. Mas ela fez compromissos no decorrer da campanha, a fim de não desagradar a velha esquerda. Sarkozy foi capaz de se apresentar como o agente da mudança. Ele acusa o Partido Socialista de trair os trabalhadores e os "excluídos" da sociedade francesa. E o que o candidato fala faz sentido. Os mais excluídos - as comunidades migrantes nos subúrbios franceses - não estão votando nos socialistas. Eles vêem no partido um bastião de teatralidades puristas. E eles tampouco gostam de Sarkozy. Alguns estão até votando em Le Pen, a fim de "rogar uma praga em todos os outros partidos". Essas são pessoas que deveriam ter uma inclinação natural pela esquerda.

Qualquer que seja o resultado, o Partido Socialista parece pronto a se dividir quando a eleição terminar. Se Royal ficar em terceiro lugar, as recriminações serão imediatas. Se ficar em segundo, mas não vencer Sarkozy, o dia da confusão será apenas adiado. Mas se ganhar a eleição, indo de encontro às previsões, Ségolène provavelmente demolirá ela mesmo o partido. Afinal, ela não deve nada aos elefantes. UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,95
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h28

    -1,26
    74.443,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host