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19/04/2007

Corpos empilham-se enquanto o crime organizado controla a Guatemala

Financial Times
Adam Thomson
Em Cidade da Guatemala
Não é nem chegada a hora do almoço nesta terça-feira (17/4), mas os corpos já estão começando a se empilhar no necrotério da Cidade da Guatemala. Três deles, homens entre 21 e 32, são vítimas de tiros de armas de fogo. Dois provavelmente também, apesar de os médicos ainda terem que confirmar - os corpos chegaram em estado severo de decomposição.

Mario Guerra, diretor do necrotério, diz que o índice de homicídios aumentou tão rapidamente nos últimos anos que ele e sua equipe estão atolados. "Tenho 10 médicos para lidar com tudo isso. Mas, para darmos conta, precisamos de mais cinco ou 10", diz ele, em frente a um altar com a estátua da Virgem Maria de mãos unidas.

Em 1996, quando a Guatemala emergiu de uma guerra civil sangrenta que durou mais de 30 anos, as pessoas pensaram que o acordo de paz entre o governo e os rebeldes de esquerda traria um fim à violência.

Um pouco mais de uma década depois, o crime relacionado às drogas espiralou e provou que estavam errados. De acordo com o Programa de Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (Pnud), 6.033 pessoas foram assassinadas no último ano, 13% a mais do que em 2005, mais até do que durante o conflito.

Frank La Rue, diretor da comissão de direitos humanos presidencial, admite que a situação é grave. "O crime organizado está tomando o país", diz ele.

A questão de segurança já está começando a dominar as campanhas para as eleições presidenciais em setembro, enquanto países vizinhos, como o México no Norte, expressam preocupações crescentes com a possibilidade das coisas fugirem ao controle.

A fonte mais visível das matanças são as gangues jovens rivais, conhecidas como "maras", que também operam em Honduras, El Salvador e algumas partes do México. As estimativas de seu número variam muito, mas alguns falam em 200.000 membros de gangues na Guatemala. Mesmo os números mais conservadores do governo, entre 20.000 e 50.000, sugerem a existência significativamente maior de "maras" do que de policiais.

Ivan Estuardo García, consultor do Pnud na Cidade da Guatemala, diz que a falta de oportunidades e emprego, instituições de ensino e espaços de recreação está colocando 2 milhões de jovens em risco de ingresso nas gangues. "Estão sentados em casa, sem nada para fazer", diz ele. "Mas são meninos e estão ficando entediados e frustrados."

Em El Limón, um bairro pobre do entorno da cidade, é fácil ver o problema. Os barracos, freqüentemente de apenas um cômodo, são construídos um ao lado do outro, de forma precária nas encostas dos morros. Há apenas duas escolas, com capacidade para menos de 2.000 alunos para uma população de 35.000 habitantes, talvez 70% em idade escolar.

Há vários anos, Celeste, 18, vem estudando na Ceiba, uma organização não governamental que faz seu melhor para compensar a falta de ensino em El Limón.

Todos os dias ela pega um ônibus por meia hora para a sede da Ceiba - é uma caminhada de 15 minutos de sua casa, mas diz que é perigoso demais para ir a pé - para estudar design de páginas da Web. Quando se graduar, pretende fazer isso profissionalmente. No entanto, sabe que é uma das poucas que têm essa sorte. "Muitos dos meus amigos entraram para as "maras". Dois deles já morreram", diz ela.

Especialistas dizem que os membros das gangues são meramente soldados do crime organizado, que ficou rico com o comércio de drogas ilegais e infiltrou-se em algumas instituições, inclusive a polícia. A questão assumiu uma urgência maior desde a descoberta de esquadrões da morte operando dentro da força, após quatro policiais serem acusados em fevereiro de matar três congressistas de El Salvador e seu motorista. Muitos analistas políticos e membros do governo insistem que os policiais, que foram assassinados quando estavam sob custódia, estavam na folha de pagamento dos cartéis de tráfico.

Eduardo Stein, vice-presidente, admite que o incidente foi um baque. "Sentimos que estávamos fazendo progresso em limpar gradualmente a força policial", disse ao Financial Times. "Este foi um terrível golpe."

Enquanto a disputa eleitoral do país vai tomando forma -a campanha oficial começa em maio- os principais candidatos fazem da segurança uma prioridade. A maior parte dos especialistas, entretanto, concorda que não há solução rápida.

Eles dizem que todas as medidas exigem verbas - melhorar as oportunidades e a educação dos pobres, extirpar a corrupção da polícia e de outras instituições e fazer funcionar o sistema de justiça do país - que atualmente resolve menos de 1% dos casos.

Ainda assim, o governo guatemalteco coleta impostos equivalentes a apenas 10% do produto interno bruto, um dos mais baixos na América Latina. Apesar de a arrecadação estar melhorando, a aprovação de uma reforma fiscal ampla até agora se provou impossível.
La Rue não tem ilusões do resultado. "O governo alcançou muito em direitos humanos, mas não fez muito para reforçar a segurança... o que acontece é que o Estado está muito fraco." Países vizinhos estão preocupados, enquanto a falta de oportunidades e o dinheiro de drogas ilegais promovem o recrutamento de gangues Deborah Weinberg

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