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04/05/2007

As entrelinhas da eleição presidencial francesa - Candidatos dão as costas ao mundo

Financial Times
Quentin Peel
Será necessário um terremoto político para impedir Nicolas Sarkozy de vencer a eleição presidencial francesa a esta altura.

Ségolène Royal, sua adversária de centro-esquerda, tinha que sair do debate entre eles na televisão, na noite de quarta-feira, como uma clara vitoriosa. Ela se mantém consistentemente cerca de quatro pontos percentuais atrás dele nas pesquisas de opinião.

Ela não teve sucesso. Mostrou ser dura, combativa, mesmo furiosa. Ela conhecia suas estatísticas e atacou seu rival pelo seu papel nas políticas indiferentes do regime de centro-direita de saída. Ela fez tudo o que podia para perturbá-lo e acender o notório pavio curto de Sarkozy - mas fracassou. Ele saiu do confronto parecendo mais calmo, mais presidencial e melhor preparado. Ele venceu no debate econômico vital. Em outras questões ela marcou bons pontos, mas não o suficiente.

Isto importa? O fato de 23,1 milhões de espectadores - mais da metade do eleitorado francês - terem assistido ao debate político que durou duas horas e 40 minutos mostra que esta eleição presidencial atraiu um interesse extraordinário.

O comparecimento dos eleitores pode não atingir os 85% do primeiro turno, mas a perspectiva de uma mudança de geração no Palácio do Eliseu mobilizou o eleitorado francês. Isto é um sinal muito positivo. Por outro lado, o debate na TV foi um tanto deprimente. Ele girou em torno do medo de fracasso e não o suficiente da esperança.

Não vamos ser maldosos. Foi um grande teatro. Foi uma disputa real. Ficou bem claro que estes dois animais políticos articulados, altamente inteligentes, não gostam um do outro. Havia claros desacordos entre eles em políticas centrais, como impostos, desemprego, pensões, seguro social e o ingresso da Turquia na União Européia (UE). Mas o caso todo ficou concentrado em um grau de detalhe, e introspecção, que evitou as verdadeiras causas do atual mal da França.

As questões fundamentais foram abordadas apenas brevemente ou mesmo indiretamente. Uma delas é o pânico extraordinário que a França tem da globalização, o medo da concorrência internacional. Nenhum candidato desafiou a idéia. Ele afeta o país mais do que qualquer outro Estado membro da UE. Ele foi um grande fator por traz do voto "Não" à Constituição da UE em 2005. Ele alimenta uma campanha contra as empresas francesas que investem no exterior (a temida "deslocalização" atacada tanto pela esquerda quanto pela direita). Ele estimula o sentimento defensivo nacional.

A globalização é uma ameaça ao lugar especial do Estado na psicologia republicana francesa. Sarkozy fala em cortar os gastos do Estado, até mesmo reduzir a folha de pagamento pública. Royal é veementemente contrária a qualquer corte de empregos, apesar de querer coibir a dívida pública. Mas nenhum realmente questionou o domínio do Estado não apenas como motor dos gastos, mas também como a principal fonte de regulação e segurança na vida dos cidadãos franceses. Nenhum tem idéias claras de como mudar o sistema francês altamente centralizado, dominado por uma pequena elite baseada em Paris. É um conceito velho de Estado que tem dificuldade de se adaptar à globalização.

Finalmente, eles atenuaram o profundo problema da integração das comunidades de imigrantes da França, a maioria de origem norte-africana, banidas aos banlieues (subúrbios) desoladores, onde o desemprego entre os jovens freqüentemente é de 50%. Sarkozy fala em limitar a imigração e reafirmar a identidade nacional. Royal injetará dinheiro na educação, o que certamente faz parte da resposta. Mas nenhum envolveu seriamente o eleitorado alienado dos "les beurs".

Os eleitores franceses parecem prontos para mudança. A pergunta é se o futuro presidente deles será realmente corajoso o suficiente para correr o risco de promovê-la. Sarkozy é menos radical do que gosta de aparentar. No debate, ele conseguiu fazer Royal parecer mais conservadora, no velho sentido socialista. Mas se ele for eleito no domingo, seu partido ainda terá que vencer as eleições parlamentares em junho. O desafio será oferecer aos eleitores franceses um sentimento de esperança, não meras promessas de proteção contra um mundo exterior imprevisível. George El Khouri Andolfato

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