UOL Notícias Internacional
 

04/05/2007

Crise de Wolfowitz 'favorecerá' chavistas

Financial Times
Richard Lapper
Os aliados americanos na América Latina dizem que a continuidade da crise no Banco Mundial beneficiará Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, e os líderes de outros governos radicais, enfraquecendo ainda mais a influência de Washington na região.

Jorge "Tuto" Quiroga, o líder da oposição de centro-direita na Bolívia e um ex-presidente, disse que a crise "não poderia ter ocorrido em um pior momento. Ela dá material para Chávez e seus simpatizantes ridicularizarem o Banco Mundial e o FMI, e eles têm uma alternativa real a oferecer".

Os altos preços do petróleo transformaram a Venezuela no novo "sugar daddy" (velho rico que compra os favores de sua namorada) da região, cuja ajuda foi bem-vinda pelos países mais pobres como uma alternativa à contínua dependência das instituições multilaterais.

Rodrigo Botero, um ex-ministro da economia da Colômbia, disse que se o Banco Mundial implodir, isto "favorecerá aqueles que querem se desligar da economia mundial globalizada. Eles dirão que é bom que o Banco Mundial esteja ruindo em chamas".

Botero foi um dos cinco proeminentes signatários de uma carta publicada pelo "Financial Times" na quarta-feira (3/5), pedindo a renúncia de Paul Wolfowitz, o presidente do banco. Todos os cinco signatários - Domingo Cavallo, da Argentina; Rubens Ricupero, do Brasil; Pedro Aspe, do México; e Eduardo Aninat, do Chile, assim como Botero - foram defensores proeminentes das reformas voltadas ao mercado chamadas de Consenso de Washington, que guiaram o desenvolvimento econômico da América Latina nos anos 90.

Na carta, os cinco, todos ex-ministros da fazenda, disseram que Wolfowitz "comprometeu a confiança na integridade de sua liderança e a credibilidade da promoção da transparência pelo banco e prestação de contas em assuntos públicos".

Apesar dos representantes da América Latina no banco (México, Argentina e Brasil fazem parte do conselho) não terem comentado oficialmente a crise, Botero disse que isto reflete em parte "cuidados diplomáticos".

Analistas em Washington sugeriram que o tom e mensagem da carta refletem uma ampla insatisfação na região com a liderança de Wolfowitz, que não está limitada aos críticos de esquerda nos Estados Unidos.

Nancy Birdsall, uma ex-executiva tanto do Banco Mundial quanto do Banco Interamericano de Desenvolvimento, disse que ao agirem como um grupo, os ex-ministros conseguiram transcender as restrições enfrentadas pelos representantes dos países individuais.

"Não se trata de uma turba de linchamento. Estes são os arquitetos mais ortodoxos e mainstream da política econômica na região", ela acrescentou.

Quiroga também disse que a crise minou a capacidade do Banco Mundial de trabalhar em questões de governança e reforma institucional, uma prática descrita como sua "única vantagem comparativa". Seu próprio governo trabalhou extensamente com o banco no início desta década, mas ele disse que se ele hoje fosse o presidente e propusesse uma iniciativa semelhante, "ele seria alvo de risos".

A crise no banco ocorre em um momento em que a América Latina está menos dependente de instituições multilaterais do que em qualquer momento desde a crise da dívida do início dos anos 80. A Argentina e o Brasil, por exemplo, pagaram obrigações pendentes e empréstimos feitos junto ao Banco Mundial e ao BID estão diminuindo.

Chávez e seus simpatizantes têm se distanciado ainda mais radicalmente das instituições multilaterais de Washington nas últimas semanas. Na segunda-feira, Chávez anunciou que a Venezuela pretende se retirar do FMI e do Banco Mundial. "É melhor sairmos antes que venham nos roubar, porque estão em crise", disse Chávez. "Eu li que nem mesmo conseguem pagar seus salários."

Evo Morales, o presidente da Bolívia, também anunciou que seu país se retirará de um centro de arbitragem do Banco Mundial que cuida das disputas de investimento e recomendou que outros membros de um bloco comercial radical, que também inclui a Venezuela, Cuba e Nicarágua, façam o mesmo. O Equador, cujo presidente, Rafael Correa, é próximo de Chávez, expulsou na semana passada o representante do Banco Mundial no país.

Uma série de eleições no ano passado mostrou que a influência da política venezuelana radical estava limitada principalmente aos países menores e mais pobres como Bolívia, Equador e Nicarágua. Mas Chávez dispõe de amplos fundos para promover seu estilo radical de 'petrodiplomacia'. Ele tem boas relações com Néstor Kirchner da Argentina e, pelo menos superficialmente, com Luiz Inácio Lula da Silva do Brasil. Além de oferecer petróleo em condições privilegiadas a vários países mais pobres na região, a Venezuela comprou bilhões de dólares em títulos argentinos.

Além disso, Venezuela, Argentina, Paraguai e Equador estão trabalhando na criação de um novo banco multilateral sul-americano, que será conhecido como Banco del Sur e será financiado em parte por reservas internacionais. O Brasil também poderia ingressar no Banco del Sur, mas Lula, seu presidente de centro-esquerda, se mantém cauteloso em relação ao plano e preferiria aumentar o apoio a uma instituição multilateral sul-americana já existente, a Corporación Andina de Fomento. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,21
    3,129
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h35

    0,04
    76.004,15
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host