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05/05/2007

Abdullah Gul garante que disputará a presidência da Turquia

Financial Times
Vincent Boland
Abdullah Gul, ministro das Relações Exteriores da Turquia e um candidato polêmico à presidência, pretende concorrer ao cargo caso o presidente seja escolhido pelo voto popular, uma medida que poderia dar início a um outro embate com as poderosas instituições seculares do país.

A candidatura de Gul ao cargo tradicionalmente secular de presidente gerou a mais grave crise política da Turquia em uma década, após as forças armadas - que depuseram quatro governos turcos eleitos nos últimos 50 anos - terem anunciado que estão prontas a intervir para proteger o Estado secular.

Mas em uma entrevista concedida na sexta-feira (04/05) ao Financial Times, Gul disse que é quase certo que o governo, que tem as suas raízes no islamismo político, consiga modificar a constituição para permitir que o presidente seja eleito pelo voto direto, tendo afirmado ainda que em tal caso ele seria o candidato à presidência pelo seu partido.

"Conto com 70% de apoio entre a população", afirmou Gul. "Foi por isso que decidimos procurar o povo. No primeiro turno eu teria a maioria dos votos". Quando a reportagem indagou se ele pretende ser o candidato do seu partido em uma eleição direta, Gul replicou categoricamente: "Sim!".

Tal cenário poderia aprofundar a cisão entre o governo e as forças seculares e liberais do país. Centenas de milhares de manifestantes saíram às ruas de Ancara e Istambul nas últimas semanas defendendo o secularismo e protestando contra a possibilidade de eleição de um presidente que pertença ao governista e neo-islamita Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), do qual Gul é um dos membros fundadores.

As forças armadas, que se consideram "defensoras absolutas do secularismo", deixaram clara a sua oposição a Gul, e provavelmente a qualquer presidente que integre o AKP.

Mas Gul disse que o próximo presidente será escolhido pelo voto democrático e não por um "alto conselho". Isto foi uma aparente referência a uma ordem das forças armadas ou do tribunal constitucional, que declararam inválido um primeiro turno de votações parlamentares para escolher a sua candidatura.

Se o parlamento não aprovar as mudanças constitucionais, disse Gul, a questão será submetida a um referendo que poderá coincidir com uma eleição geral, marcada para 22 de julho. "A Turquia é um país democrático e regras democráticas serão aplicadas", disse ele.

Gul, 56, apresentou uma atitude de desafio durante a entrevista de 40 minutos, mas pareceu cansado após ter enfrentado a mais debilitante tempestade da sua carreira política.

Ele criticou o tribunal constitucional, que muita gente na Turquia acha que tomou uma decisão política no sentido de declarar a eleição para a presidência inválida, a fim de não permitir que a crise se aprofundasse. Ele afirmou que se o veredicto do tribunal for interpretado integralmente, os votos parlamentares que elegeram os últimos três presidentes foram inválidos.

"Como ministro das Relações Exteriores, eu respeito e observo as decisões do tribunal, mas isso não significa que eu fique satisfeito com elas", disse ele. Uma "sombra" foi lançada sobre a Turquia pela crise, pela declaração das forças armadas sugerindo que poderiam intervir e pela decisão do tribunal. "A nossa responsabilidade é remover essa sombra e colocar tudo no caminho certo", afirmou o ministro.

Durante a entrevista Gul não mencionou as forças armadas, exceto para observar que a Turquia necessita de um exército forte devido à sua posição geo-estratégica. Mas ele contradisse várias reportagens, incluindo uma publicada no "Financial Times", que sugeriam que o alto-comando sentiu que o governo quebrou um compromisso informal de nomear uma figura menos polarizadora.

Gul insistiu que nem ele nem Recep Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro, se comunicaram com o alto-comando antes que ele declarasse a sua candidatura. "O que você quer dizer? Você acha que deveríamos ter feito tal coisa?", perguntou ele, parecendo sentir-se insultado pela sugestão.

Gul declarou que só existem dois candidatos possíveis pelo AKP - ele próprio e Erdogan - e que o processo de escolha do candidato é "transparente", apesar das críticas às demoradas deliberações do primeiro-ministro para definir se o próprio Erdogan deveria concorrer ao cargo.

Uma estrada acidentada na política

  • 1923 A república é criada a partir das ruínas do Império Otomano, sob a liderança de Mustafa Kemal Ataturk, estadista, soldado e primeiro presidente.

  • 1938 Ataturk morre, deixando como legado uma ideologia oficial de secularismo e nacionalismo.

  • 1950 Primeiras eleições multipartidárias.

  • 1960 Primeiro golpe militar.

  • 1971 Segundo golpe.

  • 1980 Terceiro golpe, nova constituição redigida sob a supervisão das forças armadas.

  • 1997 - Derrubada não violenta do Partido do Bem-estar, que liderava um governo ostensivamente islamita.

  • 2002 O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), sucessor do Partido do Bem-estar, é eleito em uma vitória esmagadora.

  • 2007 As forças armadas ameaçam intervir para impedir a nomeação de um presidente pertencente ao AKP. UOL
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