UOL Notícias Internacional
 

12/05/2007

Visita do papa reaviva a fé dos fabricantes de imagens brasileiros

Financial Times
De Richard Lapper
Ainda faltava um dia para o papa Bento 16 declarar o frei brasileiro Antonio de Sant'Anna Galvão o mais recente santo da Igreja Católica, mas a livraria Loyola já tinha vendido todo seu estoque de estatuetas do padre franciscano do século 18, famoso por suas pílulas de cura milagrosas.

Edson Silva/Folha Imagem - 5.3.2007
Estatueta de Antonio de Sant'Anna Galvão, o mais recente santo da Igreja Católica, em paróquia de Bebedouro (SP).
Pessoas "mais espiritualizadas" com a visita do papa e com a canonização do frei brasileiro aumentam procura por imagens
"Vendemos tudo", disse Antonio de Castro, assistente da loja no centro decadente de São Paulo.

A maior cidade do Brasil está recebendo o papa nesta semana, a quem os brasileiros chamam de papa Bento. "As pessoas parecem estar muito mais espiritualizadas esses dias. Um homem veio de Blumenau e comprou 150 estátuas", disse Castro na quinta-feira, 10 de maio.

Wilson Tristão, que administra uma rede de lojas de estátuas, medalhões, cartões de prece e CDs religiosos na cidade, testemunhou similar corrida ao seu estoque de imagens do frei Galvão.

A fábrica de Tristão, no subúrbio pobre de Diadema, está fazendo novas imagens de resina do frei o mais rápido possível, mas ainda assim não é rápido o suficiente para corresponder à demanda. "A visita do papa definitivamente aumentou a consciência em geral", diz ele.

De fato, lojas como Loyola e Tristão parecem se beneficiar de um renascimento recente da popularidade do catolicismo tradicional do Brasil.

Depois de anos de declínio constante diante do avanço incansável de seitas protestantes, o número de católicos aumentou inesperadamente em 4 milhões nos três primeiros anos desta década, de acordo com recente pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, uma universidade brasileira.

Isso se deve em parte ao sucesso dos movimentos carismáticos evangélicos, que tentam criar um relacionamento mais direto e emocional entre os padres e suas congregações, como fazem as igrejas evangélicas e pentecostais. "Eles estão tentando tornar a igreja mais alegre, e está funcionando", disse Tristão.

O aumento na religiosidade católica foi acompanhado de uma ampliação da demanda por itens que vão de brincos e medalhões a cartões de prece e roupas de baixo com as imagens dos santos favoritos.

A explosão está até ajudando o artesanato tradicional de estátuas de gesso. Na Imagens Bove, uma pequena fábrica na Aclimação, em São Paulo, uma dúzia de funcionários está trabalhando duro para completar um pedido de estátuas de gesso para uma manjedoura cristã completa com 80 anjos, para um santuário em Jacareí.

"Sempre tem novas igrejas, escolas e outras organizações querendo estátuas", diz Aldo Bove, proprietário da empresa, que mantém os modelos e moldes de centenas de santos - inclusive uma triste Santa Rita, das causas impossíveis - em barracões em torno de sua oficina central.

Bove e Tristão se atêm ao mercado católico, apesar de haver demanda adicional por imagens de religiões influenciadas pelos índios e africanos, como o Candomblé e a Umbanda.

E apesar das seitas protestantes oficialmente fazerem cara feia à idolatria, muitos seguidores do movimento evangélico têm fé nos santos tradicionais.

Abaixo da superfície, entretanto, nem tudo vai bem para o ramo. A competição crescente de importações chinesas, que freqüentemente entram no país ilegalmente pelo vizinho Paraguai, e pequenas oficinas que operam clandestinamente para evitar impostos estão tornando a vida difícil, especialmente para empresas tradicionais como a de Bove.

"Simplesmente tem tanta gente no ramo", diz Zely Jeha, proprietária de outra antiga fábrica que, como a Bove, ainda faz os itens de gesso tradicional em Guaratinguetá, cidade no Estado de São Paulo onde nasceu frei Galvão.

A competição chinesa é feroz. Os mercadores chineses estão vendendo uma gama completa de imagens populares, principalmente de resina, pela metade do preço que os produtores brasileiros podem oferecer.

"Isso pode ser fabricado por US$ 0,50 e vendido aqui por US$ 1 e não podemos fazer por menos de US$ 1,35", diz Tristão, apontando para uma imagem de seis centímetros de Nossa Senhora de Aparecida - santa padroeira do Brasil.

Tristão diz que as empresas mais avançadas estão gradualmente reduzindo seus custos, reduzindo os preços e melhorando a qualidade dos itens. Sua própria rede de lojas provê um mercado cativo para a fábrica de Diadema, e ele diz que não seria capaz de sobreviver sem ela. Mas os tradicionalistas estão em dificuldades. Bove retirou-se inteiramente do mercado de itens menores de 60 centímetros de altura.

Jeha diz que foi forçada a cortar a produção e agora emprega apenas cerca de 25 funcionários, comparados com 45, seis anos atrás. "É um assunto delicado, porque tem tanta coisa contrabandeada do Paraguai. Acho que controlam mais de 98% do mercado em Aparecida (centro religioso no Estado de São Paulo onde o papa inaugurará a Conferência de Bispos Latino-Americanos amanhã). A competição é brutal."

O apelo do papa

Durante sua visita ao Brasil, o papa Bento enfatizou a oposição da Igreja Católica ao aborto e pediu a volta dos valores tradicionais da família.

Em uma missa a céu aberto ontem, ele instou os seguidores a rejeitarem a imagem de vida da mídia que valoriza o sexo pré-nupcial e ridiculariza o casamento.

As pesquisas mostram que muitos no Brasil sentem que a igreja perdeu o contato com a realidade da vida moderna. Deborah Weinberg

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