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20/06/2007

Brasil aprecia o doce sucesso da energia do açúcar

Financial Times
Jonathan Wheatley e Richard Lapper
Na sede da Dedini, em Piracicaba, São Paulo, José Francisco Davos, diretor de desenvolvimento da empresa, conseguiu tirar 40 minutos para conversar conosco entre visitas de duas delegações estrangeiras, uma dos EUA e outra do Sudão. Os visitantes são clientes ou clientes potenciais, que vêm ver a tecnologia que tornou a Dedini a principal fornecedora de equipamentos para usinas de açúcar e álcool no Brasil.

Folha Imagem 

O boom do etanol no Brasil está apenas começando. Os otimistas falam do país como uma Arábia Saudita verde, cuja combinação de terra, clima e tecnologia poderia torná-lo o maior produtor do mundo de bioetanol eficiente.

O país produzirá cerca de 4,6 bilhões de galões de etanol na atual safra, usando cerca de metade dos 16 milhões de hectares de terra plantados com cana-de-açúcar. Os EUA produzem 4,9 bilhões de galões em cerca de 78 milhões de hectares de milho. E, enquanto a terra nos EUA é escassa, o Brasil tem enorme espaço para expansão.

De seus 790 milhões de hectares de terra arável, 440 milhões são usados para pasto, 150 milhões para cultivos como soja e 200 milhões não são utilizados, de acordo com Marcos Jank, especialista em comércio agrícola nomeado este mês presidente da Única, associação da indústria de açúcar e álcool.

Entrando 300 km no Estado de São Paulo a partir de Piracicaba -atravessando campos com morros suaves freqüentemente cobertos de horizonte a horizonte com um mar verde de cana de açúcar- você chega a Catanduva, onde a Usina Cerradinho, uma empresa familiar de açúcar e álcool, está trabalhando em plena capacidade. Neste ano, a colheita começou na primeira semana de abril, mais cedo do que o normal, porque a usina precisará rodar sem parar até outubro para cumprir seus contratos.

No ano passado, a empresa, agora em sua segunda geração, abriu sua segunda usina a cerca de 100 km de distância. "Isso foi antes de toda essa agitação com o álcool", diz José Fernandes Rio, diretor. Agora, ela está se preparando para investir US$ 180 milhões (em torno de R$ 360 milhões) em uma terceira usina no Estado de Goiás, com fundos do BNDES, banco de desenvolvimento do governo brasileiro.

Novos investidores, como o Noble Group, de Cingapura, e o Infinity Capital, dos EUA, estão chegando continuamente. Empresas brasileiras como a Cofan atraíram investidores estrangeiros, a maior parte dos EUA. Se as estimativas da Única estiverem corretas, os investidores construirão uma nova usina de açúcar e álcool no Brasil por mês pelos próximo seis anos; os projetos que já estão em curso absorverão quase US$ 15 bilhões (em torno de R$ 30 bilhões).

Dedini, a fabricante de usinas, está operando a 75% de sua capacidade e tem 18 encomendas. As vendas cresceram de 20-30% ao ano nos últimos cinco anos e chegarão a R$ 1,8 bilhão neste ano. Enquanto os mercados de exportação se abrem, 80% das vendas são internas.

No passado, estrangeiros queimaram seus dedos no setor agrícola brasileiro, comprando as terras sem envolver os fazendeiros locais e descobrindo tarde demais que o conhecimento e experiência locais são essenciais ao sucesso.

Muitas das últimas chegadas parecem melhor preparadas. A Clean Energy Brazil, do Reino Unido, por exemplo, tomou o cuidado de envolver produtores brasileiros experientes junto com investidores internacionais e fornecedores de serviço de commodities.

Ainda há questões se o investimento será garantido. O mercado interno do Brasil promete demanda constante. A tecnologia local de "combustível flex" significa que mais de 90% dos novos carros usam álcool, gasolina ou uma mistura dos dois.

Muitas mudanças precisam ocorrer nos mercados desenvolvidos, no entanto, antes da visão da Arábia Saudita verde tornar-se realidade. "Muitos investidores enfrentarão uma dura surpresa", diz um consultor de São Paulo ativo na área.

Ainda há incertezas sobre as quotas de biocombustível que serão instituídas - e se serão instituídas- em alguns mercados potenciais significativos, como o Japão.

Além disso, uma tarifa dos EUA sobre o etanol, de US$ 0,54 por galão, significa que o maior mercado potencial para exportação do Brasil está praticamente fora do alcance. Jeb Bush, irmão do presidente George W. Bush e presidente da Comissão Interamericana de Etanol, admitiu que a tarifa "frustra" o desenvolvimento do mercado de etanol na região.

Entusiasmo de Lula atrai convertidos

Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Brasil, raramente perde uma oportunidade de promover a força da indústria do etanol de seu país em seu esforço para ter uma maior influência no mundo.

Mas recentemente, vários líderes nas Américas começaram a compartilhar seu entusiasmo, argumentando que uma cooperação entre o Norte, ávido por energia e com recursos, e o Sul, rico em tecnologia, poderia formar a base para uma maior integração e relações políticas mais saudáveis por todo o continente americano.

"Servindo como um catalisador para o desenvolvimento rural (na América Latina) e uma nova fonte de comércio com seus vizinhos das Américas, as importações de etanol na verdade promoverão os interesses estratégicos americanos - algo que não pode ser dito sobre as importações de petróleo do Oriente Médio", disse Luis Alberto Moreno, o diplomata colombiano que é presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a maior instituição de desenvolvimento da região.

Outros defensores proeminentes são José Miguel Insulza, o socialista chileno que é o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, e Jeb Bush, o ex-governador da Flórida, irmão do presidente George W. Bush e presidente da Comissão Interamericana de Etanol, uma entidade regional formada no ano passado para promover os combustíveis verdes.

Jeb Bush descreveu recentemente a cooperação em biocombustíveis como um cenário "vitória-vitória" para os Estados Unidos. Segundo ele, ela poderá criar empregos, aumentar a prosperidade, mudar os fluxos de imigração e reduzir a dependência de petróleo de "fontes instáveis controladas por inimigos de nosso país".

Muitos analistas dizem que a aliança dos biocombustíveis poderia ajudar a contrabalançar a crescente influência do governo venezuelano do presidente Hugo Chávez, rico em petróleo.

Michael Shifter, do centro de estudos Diálogo Interamericano, com sede em Washington, disse: "Muito do que Chávez faz na região depende da energia e de seus laços com o Brasil".

Chávez e seu aliado cubano, o presidente Fidel Castro, têm criticado os planos para expansão da produção de biocombustíveis, argumentando que o uso de milho para etanol tem provocado uma alta acentuada no preço dos alimentos.

O presidente venezuelano tem oferecido crédito em termos favoráveis para os governos latino-americanos, permitindo que reduzam o crescente fardo da onerosa importação de petróleo, mas o desenvolvimento de biocombustíveis poderia aliviar a dependência do petróleo barato da Venezuela.

Neste ano, o BID destinou US$ 3 bilhões para a promoção dos biocombustíveis na região, se apoiando em um plano separado do Brasil e dos Estados Unidos para apoiar o desenvolvimento de biocombustíveis em países menores dependentes de petróleo. Vários países caribenhos e centro-americanos já exportam etanol isento de tarifas para os Estados Unidos.
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