UOL Notícias Internacional
 

20/06/2007

Brasil, leopardo do crescimento luta contra coleira do Estado

Financial Times
Richard Lapper e Jonathan Wheatley
Vanessa Mara manobra seu gigante caminhão Caterpillar para posicioná-lo para descarregar sua carga de 240 toneladas em uma crescente pilha de minério de ferro roxo-azulado, ao lado da usina de processamento de Carajás, a maior mina de minério de ferro do mundo aberta na floresta amazônica.

"Meus amigos dizem que tenho muita coragem para dirigir isto, mas é mais fácil do que dirigir um carro. Basta apenas seguir os procedimentos", disse Mara, que tem 26 anos e antes trabalhava como recepcionista em um escritório. "Minha mãe é cabeleireira e tem muito orgulho de mim."

A presença de Mara -juntamente com a de mais de uma dúzia de outras mulheres- por trás do volante de caminhões monstros é uma das características mais surpreendentes do crescimento extraordinário da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), uma das exportadoras mais bem-sucedidas do Brasil, e exemplifica o dinamismo freqüentemente exuberante do setor privado brasileiro.

Enquanto isso, a 2.000 quilômetros de distância, no tradicional coração industrial de São Paulo, outro motorista, Arivaldo Lopes da Silva, aproveita sua espera por passageiros para estudar Direito, enquanto se prepara para seu 10º concurso em três anos para ingressar no serviço público.

O prêmio -se for bem-sucedido- será um emprego lucrativo como promotor público ou mesmo juiz. O sistema judiciário pode ser lento e não confiável, mas para Silva, 49 anos, que virou motorista de táxi depois de perder seu emprego como gerente de recursos humanos em uma empresa metalúrgica, oferece a perspectiva de um futuro seguro e bem-remunerado. "Assim que você entra, você tem estabilidade", ele disse. "Você se aposenta com salário pleno. Você se ajeita na vida."

Dois motoristas. Dois Brasis. Um é o mundo altamente produtivo e internacionalmente competitivo das grandes empresas brasileiras, especialmente as envolvidas nos mercados de exportação em crescimento, promovendo um desenvolvimento ao estilo da China e criação de emprego em áreas como as que cercam Carajás. A CVRD criou mais de 5.000 empregos somente nos últimos 15 meses.

O outro é o mundo vagaroso do setor público pelo qual Silva e milhões como ele ainda aspiram. É um mundo em que o Estado é o grande provedor, onde oportunidade e promoção são dádiva daqueles que detêm as rédeas do poder. E seu custo -igual a cerca de 45% do produto interno bruto- é um dos principais motivos para o crescimento econômico geral permanecer inexpressivo em comparação ao de outros mercados emergentes como China, Rússia e Índia, com os quais o Brasil é freqüentemente comparado.

Sob Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente de esquerda que conquistou um segundo mandato de quatro anos com uma vitória por ampla margem nas eleições de outubro do ano passado, o contraste entre o setor privado dinâmico e o setor público estagnado se tornou ainda maior.

Mantendo as políticas macroeconômicas liberais introduzidas nos anos 90 -metas inflacionárias, taxa de câmbio flutuante e superávits orçamentários primários grandes o suficiente para o pagamento da dívida pública-, Lula vem presidindo em um período de estabilidade e melhorias para os pobres sem precedentes. A baixa inflação, programas de transferência de renda, o boom da exportação e as condições econômicas globais extraordinariamente benignas o transformaram no presidente brasileiro mais popular de todos.

Ao mesmo tempo, um sistema tributário complexo e desajeitado, um labirinto de burocracia regressiva e leis trabalhistas extremamente rígidas minam a eficiência econômica e restringem o crescimento a índices bem abaixo dos necessários para atender as necessidades sociais e melhorar uma infra-estrutura física deficiente. E Lula reluta em embarcar em uma reforma com alto custo político, argumentando em novembro do ano passado que o Brasil já "fez todos os sacrifícios necessários. Eu acho que agora o povo brasileiro deve começar a colher alguns benefícios do Estado brasileiro".

De qualquer forma, segundo Wall Street, conselhos diretores e pregões da coleção impressionante de instituições financeiras do Brasil, o dinamismo do setor privado está forçando o ritmo da mudança. "O Brasil está desfrutando de seu melhor momento nas últimas três décadas", disse Maílson da Nóbrega, um ex-ministro da Economia cuja consultoria, Tendências, presta serviço para várias empresas privadas.

Uma constelação de fatores associados ao que Luiz Carlos Mendonça de Barros, um ex-ministro no governo de Fernando Henrique Cardoso, o antecessor liberal de Lula, chama de três "choques positivos", está promovendo uma mudança fundamental na estrutura industrial do Brasil.

Primeiro, o rápido crescimento da China e da Índia desde o início desta década mudou radicalmente a economia mundial de uma forma que beneficiou diretamente o Brasil e outros produtores latino-americanos de commodities . A demanda asiática por produtos brasileiros como soja, carne e pelo minério de ferro extraído pela CVRD provocou uma alta dos preços.

Enquanto Fernando Henrique lutava com os déficits comerciais, sob Lula, a balança comercial do Brasil está no azul em US$ 40 bilhões por ano. A reciclagem dos superávits chineses pelo sistema financeiro mundial ajudou a criar um oceano de liquidez, mantendo as taxas de juros baixas e encorajando os investidores financeiros a comprarem ativos em mercados emergentes como o Brasil.

Segundo, a decisão de Lula de manter as receitas testadas e aprovadas para controle da inflação transformou o ambiente de negócios. Apesar de as empresas se queixarem das taxas de juros persistentemente altas e do que consideram uma moeda excessivamente valorizada, há um amplo reconhecimento de que estes assuntos são tratados de forma técnica pelo Banco Central e estão livres de interferência política. "Há a percepção nos conselhos diretores de que não há fórmula mágica para mudar os juros e o câmbio", disse Maílson da Nóbrega.

A inflação tem caído de forma consistente -atualmente ela está em torno de apenas 4%-, e as taxas de juros locais começaram a cair, ajudando a promover um forte crescimento do crédito a medida que financiamento imobiliário e empréstimos ao consumidor se tornam mais acessíveis. As empresas brasileiras viram seu custo de capital cair drasticamente. Com tanto investidores locais quanto estrangeiros investindo dinheiro em ações, o índice da Bolsa de Valores de São Paulo foi às alturas.

Moribundo e previsto por muitos para desaparecer em 2002, o mercado de ofertas iniciais foi revitalizado, com 23 lançamentos de ações concluídos apenas neste ano. "Esta é a primeira vez na minha vida que vejo escassez de ativos no Brasil", disse Winston Fritsch, sócio sênior do fundo de investimento Rio Bravo, no Rio de Janeiro. "Há muita liquidez e capital disponível."

E investidores institucionais locais estão começando a empregar sua força. Em 2006, fundos de pensão locais, seguradoras e outras controlavam fundos totalizando 54% do PIB, em comparação com apenas 5% em 1985. O investimento é alto por toda a economia. O setor privado investiu o equivalente a 9,3% do PIB nos 12 meses concluídos em abril, mais do que o dobro da taxa de crescimento econômico. O dólar baixo permitiu que muitas empresas importassem equipamento. E o crescente avanço das empresas brasileiras no exterior também está resultando em dividendos em termos de eficiência, a medida que as empresas começam a importar as práticas melhores que vêem no exterior.

O boom que se aproxima em biocombustíveis poderá representar um terceiro choque positivo. O Brasil foi um pioneiro no desenvolvimento do álcool combustível nos anos 70 e atualmente é o líder mundial. Tecnologia desenvolvida localmente significa que quase todos os carros novos são capazes de rodar a gasolina, álcool ou qualquer mistura dos dois. Com a demanda prevista para continuar crescendo no mercado doméstico e com a perspectiva de um boom nas vendas globais caso as negociações comerciais abram os mercados desenvolvidos para as exportações brasileiras, os investidores estão correndo para conquistar sua fatia do mercado. A Unica, a associação do setor de açúcar e álcool, diz que 77 usinas serão construídas nos próximos seis anos, com investimentos de US$ 14,6 bilhões já a caminho.

Nem todas estas mudanças são positivas. Os atuais superávits fortaleceram a moeda a tal ponto que alguns setores exportadores tradicionais como calçados e têxteis estão em dificuldades e outros -como automóveis- estão perdendo mercado de exportação. Mais fabricantes estão comprando partes baratas de fabricantes estrangeiros e às vezes fechando fábricas no Brasil e as abrindo na China e em outros lugares.

Mendonça de Barros fala sobre o lento processo de "reindustrialização", a medida que o locus manufatureiro passa para novas indústrias baseadas em matérias-primas como soja, carne, etanol e aço, assim como serviços. A Friboi, um frigorífico, ingressou no mercado de ações neste ano e prontamente comprou a Swift Foods dos Estados Unidos. A Dasa, uma empresa de laboratórios clínicos, também apresentou uma ascensão estelar. Ambas cresceram por meio de consolidação em seus setores, alimentado pelo capital recém-disponível.

Apesar de esse processo ter causado demissões na industria tradicional, o governo está aceitando a mudança, disse Mendonça de Barros. "Por quê? Porque a receita está aumentando, e o preço dos alimentos está caindo."

Mas pode haver limites para quanto o setor privado é capaz de carregar a economia por conta própria. Uma preocupação é a sustentabilidade do recente crescimento do consumo.

Sérgio Vale, um economista da MB Associados com sede em São Paulo, disse que o boom do crédito, que provocou uma maior procura por imóveis e itens caros como automóveis e eletrodomésticos, perderá força a medida que os consumidores atingirem seu limite de endividamento. "A única forma de sustentar o crescimento é com aumento da renda."

A infra-estrutura é uma preocupação ainda mais urgente. Empresas como a CVRD têm se saído bem porque controlam a infra-estrutura ferroviária e portuária que leva seus bens ao mercado. Os produtores rurais da região Centro-Oeste do Brasil enfrentam altos custos por causa das péssimas condições das estradas e da infra-estrutura portuária deficiente.

Atrasos burocráticos e uma estrutura regulatória confusa adiam os investimentos em energia. Muitos economistas alertam para a proximidade de uma crise de energia como a que atrapalhou o governo de Fernando Henrique em 2002.

Uma solução seria encorajar o investimento privado em infra-estrutura. Mas o governo de Lula -que conseguiu a reeleição em parte explorando o grande sentimento antiprivatização- às vezes parece suspeitar do capital privado nesta área.

Mas a menos que o governo reforme o setor público, é improvável que terá recursos para tratar destes problemas. Como a dívida pública é relativamente alta, o governo está sob pressão para arrecadar mais em impostos do que gasta.

Os recursos para gastos adicionais ainda são escassos. Um "Plano de Aceleração do Crescimento" lançado em janeiro foi criticado como tímido e ineficiente. Interesses poderosos impedem as reformas. A reforma das leis trabalhistas antiquadas tem um alto custo político para Lula, que conta com os sindicatos entre seus eleitores mais fervorosos.

Esses problemas são profundos. Alguns argumentam que o caso de amor do Brasil com o Estado é uma herança do sistema colonial português. Outros, como Amaury de Souza, um analista político do Rio de Janeiro, dizem que o dilema é mais recente, remontando ao modelo político e social implementado por Getúlio Vargas nos anos 30 e modelado em grande parte segundo a Itália fascista. "Lula é o mais recente a tentar salvar o modelo Vargas: manter as pessoas dentro do sistema felizes e trazer aqueles que estão de fora para dentro", ele disse. "É um compromisso impossível."
Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,45
    3,141
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,39
    64.684,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host