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20/06/2007

Como a Vale do Rio Doce se tornou bem-sucedida

Financial Times
Richard Lapper
Será um momento histórico. "Restam apenas 36,8 milhões de toneladas para nosso primeiro bilhão", dizia a tela eletrônica na usina de processamento de Carajás, a maior mina de minério de ferro do mundo. E em seu sobretudo cáqui e capacete vermelho, Leudiani Vasconcellos estava tão determinada quanto qualquer um para que isto aconteça.

AFP 
Vista aérea da mina de Brucutu, da Vale do Rio Doce, em São Gonçalo do Rio Abaixo

A ex-funcionária de loja de 25 anos patrulhava as máquinas que separam os pedaços grandes de minério do material ligeiramente mais granulado, conhecido como sínter, com olhos de águia, com radiofone pronto para informar qualquer problema nas esteiras que transportam o minério para uma fila aparentemente interminável de vagões ferroviários.

Carajás - como outras minas operadas pela Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), incluindo aquelas situadas no coração histórico da mineração brasileira, em Minas Gerais - está agitada, com a produção geral de minério de ferro da empresa prestes a superar 300 milhões de toneladas neste ano.

Grande parte do minério de ferro monitorado por Leudiani irá para a China, um mercado onde a demanda aumentou 10 vezes ao longo da última década.

A demanda asiática e seu impacto sobre os preços é um dos principais motivos para os rendimentos da empresa terem aumentado de US$ 4,1 bilhões em 2001 para US$ 13,4 bilhões em 2005, US$ 20,4 bilhões em 2006 e US$ 7,7 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2007 - um aumento impressionante de 63,4% em relação ao mesmo período em 2006. E ajuda a explicar por que o valor de mercado da CVRD aumentou mais de US$ 100 bilhões, em comparação a cerca de US$ 8 bilhões quando a empresa foi privatizada há uma década. No ano passado, a CVRD usou sua força financeira para adquirir a Inco do Canadá, pagando US$ 18 bilhões, e assim se tornando a segunda maior companhia mineradora do mundo.

E é a velocidade e extensão da expansão que explica a presença de Leudiani Vasconcellos na indústria. Leudiani, que entrou na CVRD há cinco meses, costumava trabalhar no comércio e confessa que ficou chocada com a escala e barulho da usina de processamento. "Teve muito impacto. Era muito diferente de tudo que tinha visto antes", ela disse.

De fato, Leudiani é apenas uma das centenas de mulheres recrutadas para uma força de trabalho que está crescendo rapidamente. Entre abril de 2006 e o final de março deste ano, a empresa aumentou seu quadro de funcionários em mais de 8%, de 39.394 para 42.861, com outros 1.500 trabalhadores trabalhando por meio de subcontratos. Muito dos contratados - como Leudiani - estão experimentando uma mudança radical no estilo de vida. "Nós treinamos pessoas que cresceram sem saber como usar chaves mecânicas", disse Fabrício Maia, um engenheiro de mineração de 33 anos que trabalha em Carajás há seis anos.

Mão-de-obra - especialmente capacitada - não é a única coisa escassa. A produção do setor de mineração mundial está crescendo tão rapidamente que equipamentos e peças estão custando mais caro e às vezes são difíceis de encontrar. Dois dos caminhões gigantes da Caterpillar de sete metros de altura que levam o minério da mina até as usinas estão parados por falta dos pneus gigantes, por exemplo.

"Há escassez de todo tipo de coisas", disse Tito Martins, o diretor da CVRD para assuntos corporativos, no Rio de Janeiro. De energia à capacidade de transporte -os custos quase dobraram nos últimos cinco anos- "tudo é um desafio".

E o rápido crescimento também está impondo uma alta pressão à infra-estrutura, especialmente à ferrovia que leva o minério de Carajás ao porto de São Luis do Maranhão e dali para a China e Europa. Nos últimos dois anos, a CVRD introduziu 56 ramais para permitir que mais trens usem a linha ferroviária de trilho único de 892 km pela qual o minério de Carajás é transportado.

Mas a partir do próximo ano ela planeja gastar US$ 860 milhões (o dobro de 2006) na expansão destas instalações e outras melhorias para atender a trens maiores. No momento, 16 trens puxando 210 vagões fazem diariamente a jornada a São Luis. Mas novos trens para 312 vagões serão adicionados à linha após a conclusão do trabalho. Tudo isto visa aumentar a capacidade da linha das 150 milhões de toneladas atuais para cerca de 190 milhões de toneladas até 2012.

Planos semelhantes estão em andamento para melhorar a capacidade de remessa. Em maio, a empresa anunciou um serviço de transporte direto entre São Luis e os portos da China, com a CVRD e outras fechando um contrato de 25 anos com a Bergesen Worldwide.

Sob seus termos, a CVRD usará quatro novos navios de carga para transporte de 388 milhões de toneladas de minério que - quando estiverem prontos em 2011 - cruzarão a rota Brasil-China como se fossem, nas palavras de Martins, uma "esteira de transporte sobre o mar".

Se as coisas seguirem de acordo com o plano, este sistema permitirá à CVRD suportar até mesmo uma queda acentuada no mercado chinês. A empresa já se beneficia do fato de seu minério de ferro ter um conteúdo de ferro mais alto do que o das operadoras australianas rivais (67%, contra algo entre 63,7% e 57,1%, segundo a CVRD). Ele também contém menos impurezas. Além disso, ela continua diversificando de sua dependência do minério de ferro e do mercado chinês investindo em outros metais. O níquel - após a aquisição da Inco - representa 37,2% os rendimentos e a CVRD está produzindo quantidades cada vez maiores de cobre, com vendas atingindo US$ 364 milhões no primeiro trimestre de 2007.

Os custos de capital eram tradicionalmente mais altos do que os dos concorrentes, mas há dois anos a empresa obteve uma classificação de grau de investimento e estes custos começaram a cair. Martins disse que as conexões de transporte automatizadas e os contratos de longo prazo fornecerão benefícios adicionais de competitividade. "Nós não temos motivo para achar que o mercado deixará de crescer, mas se ocorrer um problema com a China a certa altura, esta é a forma de mantermos a competitividade, com custos mais baixos", disse.
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