UOL Notícias Internacional
 

20/06/2007

Fazendeiros do centro-oeste brasileiro podem colher as sementes do descontentamento

Financial Times
Jonathan Wheatley
A viagem de automóvel de 200 quilômetros para o sul até Rondonópolis a partir de Cuiabá, a capital do Estado do Mato Grosso, na região centro-oeste do Brasil, não é para os medrosos. A maior parte da estrada conta com apenas uma pista em cada direção, e o asfalto remendado várias vezes está constantemente rachado e esburacado pelo sol, pela chuva e pelo fluxo quase constante de caminhões de 20 metros de comprimento, sete eixos, duas carretas e 40 toneladas.

Ser obrigado a sair da estrada pelos caminhões é um risco que os motoristas de carro têm que simplesmente aceitar. Os motoristas das carretas não dão a vez a ninguém. E todos sabem que para se manterem acordados eles fazem uso de comprimidos estimulantes e drogas ainda piores.

Mas esta rodovia de 35 anos de idade, a BR-364, construída quando Mato Grosso era uma região remota na qual pouca coisa havia além de uma pecuária meio primitiva, é a principal rota de exportação para aquilo que se transformou em um dos dínamos da economia brasileira.

Fazendeiros pioneiros do sul do país começaram a se estabelecer aqui na década de 1970, trazendo tecnologia e um espírito empresarial que fizeram do centro-oeste - região formada pelo Mato Grosso e pelos Estados vizinhos, Mato Grosso do Sul e Goiás - um dos maiores centros agrícolas do mundo. O Brasil se prepara para colher neste ano uma safra recorde de grãos de 135 milhões de toneladas, e o outrora quase árido centro-oeste produzirá perto de 45 milhões de toneladas, perdendo por pouco a posição de maior área produtora para a fértil região Sul.

No entanto, este é um surto produtivo que para vários fazendeiros se transformou em um fator negativo. "Não quero fazer parte de nenhum artigo de jornal que fale sobre o bom período para a agricultura brasileira", adverte Alexandre Lopes, que cultiva soja, milho e algodão - uma mistura de culturas que se tornou um padrão no centro-oeste - na sua fazenda de 300 hectares perto de Campo Verde, a 40 quilômetros da BR-364.

Os fazendeiros da região falam sobre aquilo que vêem como uma crise potencialmente terminal. De fato, vários produtores desistiram e se mudaram. É uma reviravolta lamentável para aquilo que até recentemente era uma história admirável de empreendimento agrícola.

Os fazendeiros do sul começaram a migrar uma geração atrás em busca de terra. As propriedades no centro-oeste custavam apenas 5% do preço cobrado pela unidade de terra no sul. Para a população local, a terra era inútil, e nela só crescia o nativo cerrado - uma vegetação arbustiva formada na maior parte por árvores atrofiadas, às vezes densa, às vezes esparsa -, e a única atividade rural praticada era a pecuária extensiva.

Além de ser altamente ácido, o solo apresenta alto teor do indesejável alumínio e é pobre em nutrientes essenciais. Os migrantes resolveram todos os três problemas de um só golpe com calcário - substância abundante nas montanhas do Brasil. Pulverizado e misturado em uma profundidade de cerca de 30 centímetros, o calcário tornou fértil a terra árida.

Uma série de outras inovações se seguiu a esta iniciativa, incluindo o desenvolvimento de variedades de capim que aumentaram a densidade de gado para um animal por hectare. Subitamente a pecuária tornou-se rentável. Mas os avanços reais vieram com a soja, o milho - que é cada vez mais plantado logo após a soja, para proporcionar uma colheita a mais - e, mais recentemente, o algodão. Com a crescente demanda global liderada pela China nos últimos dez anos, tanto a produção quanto a produtividade dispararam. A produção de soja é de, em média, 3.000 quilogramas por hectare - e em vários casos é bem maior - o que faz do centro-oeste brasileiro uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo.

Mas foi então que, quase de repente, surgiram os problemas. As colheitas de 2003-2004 e de 2004-2005 foram atingidas pela seca, no momento em que os fazendeiros contraíam grandes dívidas para investirem pesadamente em terra e em máquinas, a fim de atenderem à explosão da demanda. Foi exatamente essa demanda explosiva, bem como o superávit comercial brasileiro recorde resultante desse fenômeno, que fizeram com que o real brasileiro se fortalecesse ainda mais em relação ao dólar estadunidense.

O valor do dólar caiu dos R$ 2,50 registrados cinco anos atrás para os atuais R$ 1,95. Os fazendeiros contraíram dívidas extras vinculadas ao dólar - freqüentemente junto a fornecedores de insumos agrícolas - para financiarem o plantio a cada ano, apenas para constatarem que a sua produção valia menos em dólares quando chegou a hora da colheita.

O aumento dos custos de tudo, desde os fertilizantes e pesticidas até o óleo diesel e outras despesas relativas ao transporte significa que, embora a produtividade tenha aumentado, os fazendeiros estão gastando mais para produzir as suas colheitas do que aquilo que obtém com a venda dos grãos, afirma Gilberto Geollner, um grande fazendeiro de Rondonópolis.

Ele informa que as dívidas totais dos fazendeiros em todo o Brasil atingiram um valor entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões. "A colheita anual inteira vale cerca de R$ 55 bilhões", diz Geollner. "Assim, se os fazendeiros estivessem obtendo um lucro de 10%, eles levariam dez anos para pagar a dívida. Mas do jeito que as coisas se encontram atualmente, eles levarão 20 anos para quitar as dívidas".

Embora os fazendeiros reclamem ruidosamente da taxa de câmbio, eles dizem que ela não causou, mas apenas expôs, os problemas que no passado eram mascarados por uma moeda artificialmente fraca. O principal desses problemas é a infra-estrutura de transportes, exemplificada pelo pesadelo que é a BR-364. A grande maioria da produção do centro-oeste viaja de 1,800 a 2.500 quilômetros por estradas até os portos do Sudeste do país.

Segundo Rui Prado, presidente da Afrosoja, a associação de sojicultores com sede em Cuiabá, o custo do transporte dos grãos até os portos é de US$ 80 por tonelada. Na Argentina este custo fica entre US$ 30 e US$ 40 por tonelada, e nos Estados Unidos é de US$ 20 por tonelada.

Os fazendeiros recorreram ao governo para obter ajuda. Eles querem uma melhor infra-estrutura, financiamento mais barato e seguro para as colheitas. Há uma escassez drástica de tudo isso. Prado diz que Brasília se mostra insensível às reivindicações ou se move muito vagarosamente para fazer qualquer diferença.

"O governo não acha que o setor tenha um problema. Ou, quando reconhecem que existe um problema, as autoridades não tomam as decisões para lidar com ele", reclama Prado.
Mais
Brasil aprecia o doce sucesso da energia do açúcar
Como a Vale do Rio Doce se tornou bem-sucedida
Para o Brasil, a economia é mais importante
UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host