UOL Notícias Internacional
 

20/06/2007

Para o Brasil, a economia é mais importante

Financial Times
Jonathan Wheatley
A política brasileira deu reviravoltas surpreendentes nos últimos anos.
Poucos esperavam que o governo de Fernando Henrique Cardoso, que dominou a inflação e garantiu a estabilidade macroeconômica que o Brasil procurara por décadas, ia cair vertiginosamente em 2002, com o mau gerenciamento da indústria de eletricidade parcialmente privatizada.

Maior surpresa foi o sucessor de Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), de esquerda, fazer o que Maílson da Nóbrega, ex-ministro de Finanças, chamou de "decisão espantosamente impressionante" de manter as políticas econômicas de Cardoso, depois de opor-se virulentamente a elas e outras similares por 25 anos.

Igualmente inesperado foi o escândalo de corrupção que engolfou o partido e o governo durante o primeiro mandato de Lula, pois o PT tinha uma reputação de integridade moral no cenário político desonesto do Brasil. O escândalo, porém, foi seguido pela ressurreição do presidente de seu leito de morte política e conquista de uma vitória retumbante nas eleições de outubro último.

Por um lado, esses eventos apenas demonstram o que todos já sabem: que, em política, é a economia que importa. Cardoso foi capaz de mudar a Constituição para concorrer a um segundo mandato porque a estabilidade econômica e a baixa inflação que ele conseguiu como ministro das Finanças, em 1994, aumentaram a renda dos brasileiros comuns e permitiram que planejassem seu futuro como nunca antes. Quando seu segundo mandato ficou sem força (e com o racionamento de energia) as pessoas cansaram de sua incapacidade de gerar um crescimento maior e votaram na oposição.

A sobrevivência de Lula a uma série de escândalos de corrupção (os brasileiros em geral não se perturbam com o fato do mais recente envolver seu irmão) diz algo sobre os baixos padrões que os brasileiros esperam de seus políticos. Mais ainda, porém, fala sobre o poder duradouro da inflação baixa e dos programas de transferência de renda que, ajudados pelo ambiente econômico global mais benigno na memória viva do Brasil, deram verdadeiros benefícios econômicos aos pobres.

De outra perspectiva, os eventos dão outra lição: que surpresas acontecem na política brasileira e que o risco político, freqüentemente descartado nesses dias de liquidez global ilimitada, ainda persiste.

"E se o Garotinho ou o Serra forem eleitos presidentes?" pergunta um executivo brasileiro de uma multinacional americana em São Paulo. "Todo mundo morre de medo do Serra." O populista Anthony Garotinho, cuja candidatura, em outubro, terminou em uma greve de fome burlesca, provavelmente pode ser descartado. Mas José Serra - que se saiu brilhantemente como ministro de saúde sob Cardoso, mas cujo estilo autoritário e gosto pela intervenção pessoal fazem muitos vê-lo como mais à esquerda do que Lula - é amplamente visto como um dos dois principais concorrentes à Presidência em 2010.

Até a corrupção importa, apesar de talvez não tanto quando deveria. No mais recente caso, no qual propinas em torno de caça níqueis misturaram-se com pagamentos de empreiteiras a dezenas, talvez centenas, de políticos, a aceitação do comportamento escandaloso pelo público foi levada ao que certamente deveria ser seu limite.

Recentemente foi revelado que Renan Calheiros, presidente do Senado, teve um filho fora do casamento há três anos com uma ex-jornalista de televisão e que, por dois anos, ela recebeu R$ 16.000 por mês em dinheiro de um executivo da Mendes Junior, uma construtora.

A Mendes Junior diz que é uma questão privada de um funcionário; o funcionário e Calheiros (tendo inicialmente discordado neste ponto) dizem que o dinheiro era de Calheiros e que o funcionário simplesmente agia como homem da mala - como se fosse aceitável e não, como pareceria para muitos, motivo para imediata renúncia de Calheiros, se não sua demissão. O presidente do comitê do Senado que investiga o assunto já expressou acreditar na inocência de Calheiros e disse que não há necessidade para a ex-jornalista testemunhar. ("Para que?" perguntou. "Para ela fofocar?")

Ainda assim, pode haver um resultado positivo de tudo isso. José Luciano Dias, consultor político em Brasília, diz que as operações recentes da Polícia Federal que revelaram esse e outros escândalos são um sinal que o governo Lula aprecia ver os corruptos desmascarados. "A esquerda está fazendo o que sempre quis", diz ele, "limpar Brasília".

Com uma intenção menos altiva, acrescenta, o governo também pode estar permitindo que a polícia enfraqueça o amplo PMDB, poderoso partido de Calheiros, permitindo que o governo Lula forme a aliança da qual necessita para garantir a maioria no Congresso sem ter que aceitar todos os desejos do PMDB.

Mesmo assim, muitos comentadores não entendem a necessidade de tal aliança. O governo Lula não tem reformas na agenda que exijam difíceis mudanças constitucionais, como as estabelecidas por Cardoso; parece feliz em colher os benefícios moderados de estabilidade e condições globais, sem arriscar seu capital político com as reformas pouco populares no sistema de pensões e nas leis trabalhistas - consideradas essenciais para um crescimento maior.

Enquanto isso, a oposição, na forma do centrista PSDB de Cardoso e dos Democratas, de centro-direita (ex-PFL), parece ter perdido a direção. Há muito tempo, no entanto, para outras surpresas antes das próximas eleições presidenciais, em 2010.
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