UOL Notícias Internacional
 

23/06/2007

Uma frágil defesa de nossas liberdades

Financial Times
De Christopher Caldwell
"Quem nós pensamos que somos?" é uma pergunta freqüente sobre a interferência ocidental no mundo muçulmano. No furor sobre a decisão britânica de dar o título de cavaleiro a Salman Rushdie, ficou claro que perguntas semelhantes precisam ser feitas quando forças muçulmanas interferem em questões ocidentais. Infelizmente, ninguém sabe exatamente como fazê-las. Desde que o falecido líder iraniano aiatolá Ruhollah Khomeini pediu o assassinato de Rushdie em 1988, o escritor viveu sob perseguição. Hoje ele está no centro do que parece uma repetição do caso das charges dinamarquesas em 2006.

 Athar Hussain/Reuters 
No Paquistão, palavras de protesto, efígies e bandeiras britânicas queimadas contra Rushdie


Nos dias seguintes ao anúncio da nomeação de cavaleiro, houve protestos na Malásia e bandos queimaram uma efígie da rainha da Inglaterra em Lahore. O ministro da Religião paquistanês, Ijaz ul-Haq, disse no Parlamento: "Se alguém explodisse uma bomba no corpo dele, teria o direito de fazê-lo, a menos que o governo britânico peça desculpas e retire o título de 'sir'".

Um assessor do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad (o diretor de sua notória "Fundação Holocausto", na verdade) culpou o "satânico triângulo Reino Unido, EUA e Israel" pela honraria e escreveu: "Por causa do tributo da rainha britânica a Salman Rushdie, pessoas que perderam sua motivação para puni-lo vão perceber a necessidade de efetuar a ordem do imã Khomeini".

O fato de os atuais representantes de governos estrangeiros endossarem ou incitarem à violência contra um intelectual ocidental é uma questão grave.

Jörg Lau, um veterano observador europeu da vida intelectual muçulmana, sugeriu esta semana no jornal "Die Zeit" que deve haver uma resposta oficial, seja em nível britânico ou europeu, e salientou o dever de não dar ajuda e assistência aos que emitem essas ameaças. Isso complica a posição de muitos adversários britânicos de Rushdie: lorde Ahmed, que absurdamente acusou Rushdie de ter "sangue em suas mãos"; Mohammed Abdul Bari, secretário do Conselho Muçulmano do Reino Unido, que chamou a honraria de "insulto"; ou Stewart Jackson, o deputado conservador que a descreveu como "gratuitamente ofensiva".

Uma tese mais defensável contra a sagração de Rushdie, proposta, entre outros, pelo ex-secretário do Interior David Blunkett, é que ele não parece muito ligado ao Reino Unido. O sistema de honrarias não pertence ao que Bagehot chamou de parte "eficiente" da Constituição inglesa; cabe, sobretudo, às partes "formais" ou "teatrais". Ele trata a nação como uma espécie de família, e os que recebem as honrarias idealmente transpirariam uma ligação inequívoca com ela. Mas o caso de Rushdie é incomum.

Jorge Araújo-10.07.2006/Folha Imagem
Em visita ao Brasil, o autor de 'Versos Satânicos' e 'Oriente-Ocidente' participou de sabatina com jornalistas da "Folha de S.Paulo" e convidados, em julho de 2006
Por um lado, ele mora em Nova York. Por outro, deve-se dar especial consideração a um britânico que, embora não por sua falta, não pode viver tão seguramente no Reino Unido quanto pode em outros lugares. E o domicílio estrangeiro de Rushdie reflete sua era, tanto quanto suas inclinações: uma polêmica semelhante surgiu recentemente na França sobre o pedido de cidadania do romancista Jonathan Littell, nascido nos EUA. Seus defensores notaram que ele é um ornamento para a literatura francesa. Seus detratores alegaram que ele mora em Barcelona.

A geografia, ao que parece, está se tornando cada vez menos importante e a ideologia, cada vez mais. A barreira entre assuntos nacionais e internacionais está erodindo. Essa erosão traz novas forças para os radicais e novas vulnerabilidades para o Ocidente.

Como escreveu o estudioso francês do islamismo Olivier Carré, um precursor chave para o endurecimento do clima intelectual no mundo muçulmano foi a redefinição das linhas entre sagrado e profano por intelectuais como Sayyid Qutb, da Fraternidade Muçulmana Egípcia. Para Qutb, a distinção geográfica entre uma "casa do Islã" e uma "casa de guerra" foi substituída por outra ideológica entre o que é genuinamente islâmico e o que é "jahil" (pré ou antiislâmico).

A fronteira hoje no meio de toda cabeça muçulmana, onde quer que ela viva, e assim o mundo inteiro torna-se um campo de batalha. Tumultos em Islamabad podem intimidar os britânicos, e é o que pretendem.

A coisa mais próxima no Ocidente desses valores tão universais são suas campanhas contra o preconceito. O problema de reforçar esses valores é que as apostas se tornam muito altas muito rapidamente. Quando radicais surfando na Internet se unem em solidariedade contra um único indivíduo e recebem ajuda e assistência de alguns governos autoritários, o Ocidente enfrenta a opção de escalar ou parecer covarde. Freqüentemente enfrenta chantagem ideológica. Durante sua tirada contra Rushdie, por exemplo, ul-Haq gabou-se de que o Paquistão havia processado fabricantes de CDs anticristãos. Mas o sentimento antimuçulmano no Reino Unido não é de modo algum um problema tão grave quanto o sentimento anticristão no Paquistão, onde nos últimos anos os cristãos foram mortos em grande quantidade. O Paquistão pode de fato estar fazendo progressos nessa área, mas não deveria ser contingente à disposição do Reino Unido a ignorar seus escritores importantes.

Margaret Beckett, a secretária das Relações Exteriores, manifestou-se assim: "Sinto muito se há pessoas que levaram essa honraria tão a sério, que afinal é por uma obra literária de toda a sua vida".

É uma tentativa de salvar a face dos dois lados: a população inglesa pode se consolar de que ninguém pediu exatamente desculpas, enquanto os radicais muçulmanos ouvem apenas a expressão "sinto muito". Essa é a abordagem que Anders Fogh Rasmussen, o primeiro-ministro dinamarquês, adotou no caso das charges, e foi um terrível engano. Ela convidou a mais interferências. Este último caso Rushdie é sua conseqüência.

Em uma entrevista ao jornal "Die Tageszeitung", Navid Kermani, um romancista alemão de origem iraniana, traçou as distinções necessárias entre protestos defensáveis e ameaças inaceitáveis.

"Deveríamos ter aprendido com o caso das charges que é preciso ser ao mesmo tempo firme na defesa da liberdade de expressão e calmo em tom", ele disse.

Mas nós não aprendemos as lições do caso das charges. Agora estamos condenados a repeti-lo. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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