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27/06/2007

No novo Cazaquistão, um 'objeto escultural atordoante'

Financial Times
Edwin Heathcote
Norman Foster tornou sua firma de arquitetura, situada sob seu apartamento de cobertura às margens do Tâmisa em Battersea, a máquina mais eficiente e admirada do mundo de projetar prédios. Dificilmente há alguma tipologia que ele não tenha tocado ou transformado, de aeroportos a pontes, de museus a arranha-céus.

Seus prédios se tornaram alguns dos mais familiares e simbólicos no desenho contemporâneo: o Reichstag de Berlim; o aeroporto de Pequim; a Torre Hearst de Manhattan; o Gherkin ("picles") de Londres. Mas sua encomenda mais estranha até o momento foi a Pirâmide da Paz na nova capital do Cazaquistão, Astana.

Para um arquiteto conhecido por sua rígida manutenção da tradição funcional do modernismo, na qual a forma de um prédio é subserviente à sua função e cresce organicamente a partir dela, este estrutura excêntrica representa um sério e surpreendente distanciamento.

A Pirâmide da Paz, encomendada pelo presidente Nursultan Nazarbayev em 2003, é uma construção altamente simbólica que, apesar de também conter uma casa de ópera de 1.500 lugares (bem bizarra), é na prática uma pura propaganda arquitetônica de um tipo semelhante aos projetos visionários das eras revolucionárias francesa e soviética. A única diferença é que a maioria daqueles planos não foi construída. A pirâmide de Nazarbayev foi.

A estrutura com lados de vidro deverá se tornar o elemento central de uma cidade sem um centro coerente. O Cazaquistão fez o que o Brasil fez na era pós-colonial - mudou sua capital para um lugar sem história de subjugação ou dependência.

De fato, sem história nenhuma.

O presidente Juscelino Kubitschek fundou Brasília em um planalto no coração do país e Oscar Niemeyer, o último grande arquiteto modernista vivo, construiu seus palácios e ministérios. A arquitetura visionária e decididamente moderna da cidade se tornou sua imagem.

Nazarbayev construiu sua cidade em um dos ambientes mais extremos imagináveis, um local onde o inverno e o verão podem apresentar uma diferença de 80 graus centígrados um do outro, de derreter e congelar, intolerável em ambos os casos.

Mas ele também tentou encontrar seu Niemeyer em Foster, que também projetou a surpreendentemente ambiciosa tenda de 200 metros do Khan Shatyry Entertainment Centre, no outro lado da cidade, atualmente em construção.

Mas Astana é uma cidade infectada com o pior tipo de pós-modernismo comercial - prédios que se sentiriam em casa na Bucareste de Ceaucescu. O cenário não é uma Brasília.

A estrutura não é deselegante, pois a pirâmide é, afinal, uma forma já provada. Caracterizada pela grade diagonal familiar de Foster (que pode ser vista em toda parte, do Gherkin, em Londres, à Torre Hearst), ela conta com um salão de conferência onde presumivelmente a paz e o entendimento serão discutidos. Completada com os vitrais vibrantes de Brian Clark, a pirâmide de US$ 70 milhões, 63 metros de altura, é um objeto escultural atordoante.

Mas sua forma foi ditada pelo presidente e presume-se que ele tenha a intenção (velada) de transformá-la em seu mausoléu. Houve até um sério questionamento sobre se Foster devia ter considerado a construção de tal coisa para um regime não liberal.

Seu sucesso brilhante no Reichstag, um triunfo absoluto de abertura e democracia, da integração do tecido histórico e de uma arquitetura contemporânea radical de vidro e aço, ela é talvez a estrutura política mais perfeita da era pós-Segunda Guerra Mundial.

Indo tão longe a ponto de manter as pichações feitas pelos soldados russos em 1945, é um prédio altamente ciente da fragilidade da paz e da história da cidade. A Pirâmide da Paz é uma estrutura ingênua sem tal sofisticação ou ambição.

A pirâmide é um modelo inacreditavelmente carregado.

A pirâmide é sinônimo de faraós, com escravos empregados em sua construção, com um tipo de megalomania primitiva. Ela pode parecer com a base da divindade na nota de dólar.

IM Pei, o arquiteto modernista, pode tê-la ressuscitado brevemente no Louvre, mas o simbolismo obscuro de Dan Brown a lançou de volta ao mundo da literatura de ocultismo. Sua construção representa um lapso severo de gosto, traços cosmopolitas e sofisticados do arquiteto mais bem-sucedido do mundo.

Mas se é política e arquitetonicamente questionável, a Pirâmide da Paz se tornará um ícone para uma cidade em uma era onde cada cidade sente que precisa de um ícone.

Nazarbayev tem seu símbolo, seu monumento. Ele mostrou que Astana, surgindo na estepe empoeirada, pode atrair o arquiteto preferido da elite mundial. Mais do que paz, a pirâmide representa o valor encarnado da energia sob o solo.

Talvez devêssemos ver sua forma cristalina mais como um iceberg, uma estrutura cujas raízes são profundas abaixo da superfície, da qual apenas uma pequena fração é visível. E isto seria um pedaço apropriado de simbolismo arquitetônico - porque a riqueza que a tornou possível se encontra nas profundezas do subsolo. George El Khouri Andolfato

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