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04/07/2007

Hamas está sob um microscópio, com o isolamento de Gaza

Financial Times
Andrew England
Perto da estrada que passa pela casa do ex-primeiro-ministro e do esqueleto incompleto do que seria um hotel de cinco estrelas, prometido durante anos, crianças palestinas brincam na praia, enquanto as ondas se quebram na areia.

Em outras partes da Cidade de Gaza, charretes puxadas por cavalos transportam bens e brigam por espaço com táxis amarelos e carros velhos, enquanto um grupo de homens sentados em cadeiras de plástico na frente de uma casa reúne-se para uma festa de casamento.

Duas semanas após o Hamas assumir o controle da pequena faixa do Mediterrâneo, a cidade apresenta um ar de normalidade, com os moradores dizendo que há maior sensação de segurança e muito menos atiradores e postos de fiscalização policial nas ruas.

Mas em Gaza tudo é relativo. Prédios desmoronando e escritórios marcados por tiros lembram os ataques regulares por forças israelenses e os confrontos sangrentos do mês passado, entre as forças rivais Hamas e Fatah. E, por baixo da superfície, as pessoas se preocupam com seu futuro no território, que foi empurrado para maior isolamento político e econômico desde a tomada pelo movimento islâmico.

Mahmoud Abu Hamed está sentado na loja de sua família e se preocupa com o impacto econômico. Com as principais fronteiras fechadas, há falta de itens como arroz, açúcar e farinha, o que forçou um aumento dos preços. Seu fornecedor agora quer receber no momento da entrega e em dinheiro, em vez de permitir prestações semanais. Várias prateleiras do minimercado estão vazias, cobertas de poeira. "Vou fechar e vou para casa", disse Hamed, quando perguntamos o que acontecerá se a situação continuar igual.

Agências da ONU estão distribuindo ajuda, mas, com a principal fronteira comercial de Karni virtualmente fechada, a atividade econômica normal é impossível em Gaza.

Fawzy Barhoom, porta-voz do Hamas, diz que seu movimento quer que "equipes técnicas" compostas de membros do Fatah voltem aos postos de fronteira para que possam reabrir. Um dos dilemas do Hamas desde que venceu as eleições em janeiro de 2006 é que Israel não lida com seus membros, levando-o a depender de membros do Fatah para coordenar com os israelenses a operação dos postos de fronteira. Essa cooperação, porém, foi interrompida com a expulsão dos leais do Fatah pelo Hamas.

Após os confrontos, Mahmoud Abbas, presidente do Fatah e da Autoridade Palestina, negou o governo de união Fatah-Hamas criado em março e montou um governo de emergência na Cisjordânia.

No domingo (1/7), Israel transferiu cerca de US$ 120 bilhões (R$ 240 bilhões) de impostos palestinos congelados ao novo governo de Abbas, que prometeu pagar salários do funcionalismo público em Gaza. Os salários devem ser entregues hoje.

Entretanto, milhares de trabalhadores empregados pelo Hamas nos últimos 18 meses não receberão pagamentos, e os policiais foram informados pelo governo de emergência para ficarem em casa, se quiserem receber seus salários - fatores que podem provocar mais complicações e tensões, assim como exacerbar a politização do serviço público. Ainda assim, não são os males econômicos que parecem incomodar mais os moradores de Gaza. Eles viveram anos com violência e dificuldades: as fronteiras são abertas ou fechadas segundo a vontade israelense, e a pobreza é dada como certa. Em vez disso, é o futuro político e a causa palestina maior que geram mais preocupações.

"Tivemos situações como essa antes, e foram resolvidas, mas agora ninguém sabe", diz Hamed, diante de uma montagem de cartazes de "mártires" de várias facções palestinas na parede atrás dele. Ele e outros dizem que querem ver a volta do diálogo entre os grupos rivais. Mas as perspectivas de curto prazo são fracas.

Barhoom diz que o Hamas quer conversar com o Fatah, mas ele também chama Abbas de "colaborador" de Israel.

O Fatah, enquanto isso, está desordenada e cheia de divisões, dizem os analistas, com os problemas de longo prazo exacerbados pelo que os líderes do Fatah descrevem como "golpe" em Gaza.

Alguns membros do Fatah dizem que o diálogo com o Hamas é a única forma de resolver a crise palestina. Outros, entretanto, ainda se sentindo machucados e humilhados, querem isolar o movimento islâmico ainda mais e impedir o Hamas de conquistar a legitimidade que deseja. É este último que parece ter os ouvidos de Abbas.

"É do interesse do Hamas sentar-se e conversar, mas não é do interesse do Fatah, porque eles acham que, conversando, estarão abrindo as portas para a legitimidade novamente", diz Diana Buttu, analista palestina.

O resultado para os moradores de Gaza é um período de extrema incerteza. Para o Hamas, será um período de estudos, enquanto observadores avaliam como o movimento islâmico governa a faixa. "Eles sabem que estão debaixo de um microscópio muito potente", diz Raji Sourani, diretor do Centro Palestino de Direitos Humanos em Gaza.

"Se eles perderem as áreas cinzentas, estão politicamente acabados. As áreas cinzentas são as pessoas que não são do Fatah, nem do Hamas; elas estão observando e olhando e foram elas que puniram o Fatah (nas eleições de 2006)."

Mas ele também faz uma advertência contra subestimar o Hamas. "Eles estão agindo muito, muito no estilo da Hezbollah. Em terra, são organizados; em táticas militares, perfeitos." Deborah Weinberg

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