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28/07/2007

Crescimento mascara duas economias divergentes no Peru

Financial Times
Hal Weitzman
Em Lima
Elsa Palacio luta com o peso de quatro grandes sacolas de compras, mas está radiante. "Sempre venho aqui para verificar as promoções", ela diz, apontando com o polegar para trás, na direção da loja de departamentos Max no shopping center Megaplaza em Los Olivos, bairro no norte de Lima.

Palacio, uma enfermeira de San Martin de Porras, um bairro pobre próximo, diz que se sente terrivelmente mal-paga, mas com os salários de seu marido e seu filho a família tem uma renda de cerca de 1.500 soles (cerca de US$ 484 ou R$ 917) por mês - o suficiente, segundo ela, para viver e fazer algumas compras ocasionais.

Ensanduichado entre a rodovia Pan-Americana e a empoeirada favela Independencia, no morro, o shopping gigantesco construído em 2003 é o testemunho do crescimento da classe média de Lima. Nos últimos cinco anos, 10% dos moradores da cidade emergiram da pobreza, sendo maior o crescimento em famílias que ganham uma renda média de US$ 408 mensais.

Com 72 meses consecutivos de crescimento econômico e com o Produto Interno Bruto aumentando 8% no ano passado, o Peru goza de seu crescimento mais sustentado desde os anos 50. Mas enquanto a emergência de uma nova classe média sugere que esteja se espalhando para os peruanos mais pobres, os efeitos são geograficamente esparsos. Os números oficiais mostram que a pobreza aumentou entre 2004 e 2006 nos planaltos rurais empobrecidos. "Temos duas economias, que vão em direções muito diferentes", disse Ismael Muñoz, da Universidade Católica de Lima.

No Megaplaza, o ritmo das compras é frenético. Os artigos mais populares parecem ser as roupas na Max, telefones celulares e fast food, mas também há bancos, um cinema, agências imobiliárias e até uma filial da Gold's Gym.

O Megaplaza é um bom exemplo de como a globalização reforçou o poder aquisitivo da nova classe média. Importados de baixo custo - desde jaquetas de brim feitas na China até veículos "Grande Muralha" - oferecem novas oportunidades para o consumo generalizado. Combinado com planos de pagamento de longo prazo, isto torna artigos como um laptop feito pela companhia italiana Olidata - oferecido por prestações mensais de 87 soles - acessíveis para a maioria dos moradores de Lima.

Alan García, que marca seu primeiro ano no cargo hoje, deve sua presidência a essa classe média emergente. Seu apoio em Lima, onde vivem mais de 30% dos peruanos, foi decisivo na eleição do ano passado.

García também se saiu bem na costa norte, que se beneficiou do boom do crescimento peruano puxado pelas exportações. O valor das exportações anuais aumentou três vezes nos últimos cinco anos e deverá alcançar este ano um recorde de US$ 27 bilhões. Muito disso se deve à alta dos preços dos metais, mas o crescimento foi diversificado. Agricultura, têxteis, manufatura e construção expandiram-se de modo impressionante e parecem destinados a continuar crescendo: a economia deverá crescer este ano 7,5%, enquanto estimativas conservadoras calculam uma média de 6,5% ao ano até o final da década.

O Congresso dos EUA demora para aprovar um acordo comercial com o Peru, mas deverá fazê-lo até outubro.

O progresso econômico poderia ser perturbado pela inquietação social. Nas últimas semanas muitas regiões do Peru foram atingidas por protestos violentos sobre uma série de temas, da reforma da educação a temores de inflação. As áreas mais afetadas foram os planaltos, que em grande parte não se beneficiaram do crescimento econômico. Nas áreas rurais do Peru, a porcentagem de pessoas que vivem com o equivalente a US$ 1 por dia ou menos aumentou de 44% para 46,5% entre 2004 e 2006, segundo um relatório divulgado na semana passada pelo Instituto Nacional de Estatísticas. Muitas comunidades remotas nos Andes não têm estradas adequadas, eletricidade, telefone ou água encanada.

Enquanto o governo tomou algumas medidas para atacar a "lacuna de infra-estrutura" causada pelo duradouro subinvestimento, poucos analistas crêem que terá muito sucesso. "Temos superávits fiscais, por isso o problema não são tanto os recursos quanto a habilidade para gastá-los, a falta de perícia", diz Fritz Dubois, um economista em Lima. "O resultado é que enquanto o litoral vive no mundo globalizado moderno os planaltos continuam no século 19". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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